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ARTES CÊNICAS

Pernambucanas dirigem musical com canções de Milton Nascimento e Liz Valente

Dirigido por Duda Martins e Lívia Lins, o espetáculo "Abraço - Nunca estaremos sós", da Dispersos Cia de Teatro", fica em cartaz até o dia 28 de junho, no Teatro Hermilo Borba Filho

Fernanda Acioly/Divulgação

Fernanda Acioly/Divulgação

No elenco, oito atores-cantores vivem os personagens Paulinha, Bebeto, Téo, Sacola, Soninha, Miguel, Maria e Gabi

Bruno Souza

Em meio ao boom de espetáculos musicais que tem atraído uma legião de espectadores aos palcos dos grandes teatros pelo Brasil, Recife desponta, no cenário nacional, como uma das capitais que mais recebem montagens do gênero no Nordeste. Aliando música, dança e diálogos falados, o musical parece ter caído de vez no gosto dos pernambucanos. Para se ter ideia, só neste primeiro semestre, já passaram por aqui produções como: Rita Lee mora ao lado, Viva Raul – o tributo e Noviças Rebeldes. Entusiasmadas com a quantidade de montagens que desembarcaram na capital pernambucana nos últimos tempos, as atrizes/diretoras Duda Martins e Lívia Lins, da Dispersos Companhia de Teatro, decidiram produzir seu próprio musical: Abraço – Nunca estaremos sós.

Com sotaque tipicamente nordestino e canções de Milton Nascimento e Liz Valente, além de composições autorais, o espetáculo narra a saga de oito jovens amigos que resolvem se aventurar no universo do teatro. Tendo como pano de fundo a década de 90 e todas as suas cores, modismos, figurinos, gírias e até os hits musicais que mais fizeram sucesso na época, a peça possui uma abordagem metalinguística, uma vez que, no desenrolar da história, os personagem tentam montar um musical. “É a paixão em comum pela música que move os jovens da nossa montagem. Mesmo que aconteçam alguns atropelos e desencontros nesse percusso, eles mostram que a arte é um caminho possível”, disse Duda Martins sobre o enredo.

Fernanda Acioly/Divulgação

Fernanda Acioly/Divulgação

Duda Martins e Lívia Lins atuam e dirigem o musical

Ela, que assina a direção do espetáculo com Lívia Lins, contou à equipe do Portal Cultura.PE que está surpreendida com a aceitação do público recifense. “Desde a primeira temporada no Eva Hertz (Livraria Cultura do Shopping RioMar), temos tido casa cheia. É uma grata surpresa, e acho que isso se deve à temática da peça, que gera uma identificação imediata com a plateia”, afirmou na entrevista que você pode conferir abaixo, na íntegra.

1) Esta é a sua primeira incursão na direção de um musical? Quando surgiu a ideia de produzir o espetáculo?
Sim. Essa é minha primeira experiência na direção de um espetáculo, bem como de Lívia Lins, que divide comigo a direção do musical e da companhia. Como o gênero ainda está se difundindo por aqui [no Recife], e, principalmente, tem pouca coisa com a nossa cara, a cara do Nordeste, queríamos montar um musical que unisse essas duas vertentes culturais das quais nós, nordestinos, somos feras: teatro e música. Depois disso, pensamos no tema, uma história de amizade que, além de ser excelente para musicar, gera uma identificação imediata no público. Afinal, todos nós temos amigos.

2) Embora a Broadway trabalhe há anos com montagens desse gênero, parece que só agora, no Brasil, o público tem criado/despertado interesse pelos musicais. A que se deve isso? E aproveitando o gancho: quais são as especifidades de um espetáculo como esse?
O teatro sobrevive da sua reinvenção. Em meados de 60, o teatro brasileiro começou a importar alguns musicais, mas, logo em seguida, seguiu com as próprias pernas com espetáculos memoráveis como Ópera do Malandro, Gota d’água, Roda Viva, de Chico Buarque, todos brasileiros e bem engajados politicamente. Depois houve um esfriamento e a volta dos broadwayanos adaptados: Hair, Godspell, O Rei Leão, super produções. Às vezes, o público gosta de consumir o que vem de fora, dá pouco valor ao que é daqui. O dinheiro que estas produções têm alavanca o seu sucesso e por aí vai. Nós, da Dispersos, nos inspiramos em grupos que não desistiram de fazer musicais com a nossa cara. O Ponto de Partida, de Minas Gerais, é uma grande inspiração. Desenvolveu uma linguagem própria, uma dramaturgia musicada, essencialmente brasileira, e hoje tem mais de 30 espetáculos no repertório. O Galpão (também de MG) é ainda outro exemplo de resistência, qualidade e sucesso. Queremos falar e cantar a nossa língua. Usar os nossos instrumentos, nossos arranjos, falar da gente.

3) O Abraço – Nunca estaremos sós traz em seu repertório canções de Milton Nascimento, Liz Valente e também composições autorais. Você poderia comentar as referências – textos, músicas, etc. – que embasaram o trabalho? Comentamos um pouco mais acima sobre a sinopse, mas de que se trata o enredo do musical? Quem assina a dramaturgia do espetáculo?
Tudo foi feito a partir de uma pesquisa sobre o gênero musical. “O que queremos cantar?” “Que músicas remetem à amizade, à nostalgia de um tempo que não volta, à saudade, sonhos, às relações longe da era tecnológica?” Impossível deixar Milton Nascimento, Clube da Esquina e Lô Borges fora disso. Enquanto outros estavam exilados, estes artistas resistiram falando de esperança. Liz Valente apresenta também essa raiz mineira, mas é uma voz nova no cenário musical, e seu disco Pipa Amarela caiu como uma luva para pensarmos estas relações. Os temas das músicas foram o mote para compor outras canções e também o nosso texto, construído por Bruno Gueiros e umas pinceladas do grupo. Com o Abraço queremos resistir falando de esperança, embora isso soe um pouco meloso.

Fernanda Acioly/Divulgação

Fernanda Acioly/Divulgação

Atores são acompanhados por um banda, que executa as músicas ao vivo

4) Deu trabalho colocar os atores para cantarem em cena? Como foi o processo de escolha dos atores para o espetáculo? Vocês são acompanhados por uma banda durante a encenação da montagem?
Não deu trabalho porque todos já cantavam. Esse foi o primeiro critério. Alguns estão tendo sua primeira experiência enquanto atores. Sim, dá trabalho, mas é maravilhoso ver um ator nascendo e despertando a paixão pelo teatro, além da música. A banda, que chamamos de “conjunto”, como diziam nos anos 90, é formada por quatro excelentes músicos, dois deles são os nossos diretores musicais: o maestro Victor Bertonny e Leila Chaves.

5) Agora falando da parte técnica. Qual a maior dificuldade para produzir um musical?
Fazer com que as músicas e as coreografias sejam texto. Que não haja separação entre cantar, dançar e interpretar, o que é difícil, já que cada uma dessas habilidades artísticas exige muito do ator. No nosso caso, é ainda mais difícil porque eu e Lívia dirigimos e estamos em cena.

6) Como tem sido a receptividade do público pernambucano? Até quando vocês ficam em cartaz no Teatro Hermilo Borba Filho?
Uma grata surpresa. Somos um grupo novo, esse é o nosso primeiro grande trabalho e já fizemos muitos amigos. As pessoas de fato se emocionam com as cenas, com a história da peça, nos escrevem contando suas histórias de amizade, fazem questão de nos abraçar ao final de cada espetáculo. Fizemos uma minitemporada de três dias no Eva Herz, da Livraria Cultura do RioMar, e as três sessões lotaram, com gente voltando para casa. Diante disso, pensamos em uma temporada de um mês no Hermilo e tem sido tão bacana quanto. Ficamos até o dia 28, aos sábados e domingos.

7) Há algum plano de viajar com o musical por outros estados do Nordeste? Quais são os próximos projetos da Dispersos Cia. Teatro?
Claro. Fizemos o Abraço com nosso suor e dinheiro do nosso bolso. O que é difícil, mas massa, porque não esperamos nada para fazer teatro. Viajar sem grana não é o ideal, mas vamos fazer também, se for preciso. Recebemos alguns convites para o interior, estados próximos e estamos avaliando o que será viável. Os projetos da Dispersos visam, literalmente, dispersar a nossa arte por aí, sempre com teatro e música. Estamos lendo alguns textos, ouvindo alguns compositores, mas acredito que até o meio do próximo ano saia alguma produção nova por aí.

Serviço
Musical Abraço – Nunca estaremos sós
De 6 a 28 de junho, aos sábados e domingos.
Local: Teatro Hermilo Borba Filho.
Horário: sábados, às 19h | domingos, às 18h.
Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia) à venda antecipadamente pelo telefone 9.9574-7657 ou 2h antes, na bilheteria do teatro.

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