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Carnaval 2018

Carijós representa a força dos caboclinhos no Carnaval do Recife

Agremiação de 120 anos é o primeiro caboclinho pernambucano a ser homenageado na festa de momo recifense

Marcus Iglesias

Jan Ribeiro/Secult-PE

Jan Ribeiro/Secult-PE

Jefferson Nagô preside o Caboclinhos Carijós desde 2011, quando recebeu um chamado para liderar a agremiação

O Caboclinhos Carijós, o mais antigo caboclinho pernambucano ainda em atividade, é um dos homenageados do Carnaval do Recife deste ano, ao lado do cantor Almir Rouche. Fundado em 1896 pelo estivador Antônio da Costa, o grupo acumula 120 anos de trajetória e uma coleção de histórias e títulos importantes – como a conquista dos dois heptacampeonatos do Concurso de Agremiações Carnavalescas da Prefeitura do Recife. Desde 2011, o caboclinho é presidido por Jefferson Nagô, também responsável pelo viés religioso do grupo.

A atual sede dos Carijós fica no terreiro de jurema sagrada Centro Espírita Cigana Sary, localizado na Mangabeira, Zona Norte do Recife, um bairro que fica na encosta dos morros do Alto José do Pinho e Morro da Conceição. Nos dias dos desfiles, a agremiação sai com até 200 pessoas, todas fantasiadas com as cores vermelho, branco e verde, as cores do caboclinho.

Segundo Jefferson Nagô, o grupo foi fundado na proximidade do Forte do Brum, pelo estivador Antônio da Costa, que também era jurameiro. “Naquele ano ele incorporou o Caboclo Carijó durante uma reunião de jurema, e a entidade deixou um recado: No ano seguinte Antônio deveria formar um grupo de caboclinhos e levá-lo para as ruas para que ele representasse a sua espiritualidade nas festas de momo. Antônio da Costa não pensou duas vezes e fundou o Caboclinhos Carijós com a ordem da jurema e do próprio caboclo, sustentando sua essência e colocando o grupo na rua”.

Jan Ribeiro/Secult-PE

Jan Ribeiro/Secult-PE

Sobre a homenagem da Prefeitura do Recife no Carnaval, Jefferson conta que o grupo recebeu o anúncio com surpresa, mas que preparam uma apresentação que contará a tradição dos caboclinhos

A partir daí o caboclinho começou a construir sua própria história. Como diz Jefferson Nagô, “teve seus momentos difíceis e momentos de glória, como todo grupo tem”. Depois de alguns anos da morte de Antônio da Costa, quem assumiu foi o presidente chamado Manoel Carpina, que levou o caboclinhos do Forte do Brum para o bairro de Afogados, e depois ao bairro de Água Fria. “Quando Manoel Carpina faleceu, Carijós foi pro Alto José do Pinho, recebido pelo ex-presidente Manoel Ferreira de Lima, conhecido como Manoelzinho. Nessa fase o caboclinho começou a ter seus momentos de glória. Foi uma trajetória longa na mão de Manoelzinho, e foi ai que começamos a fazer a parte religiosa do Caboclo Carijó aqui no terreiro”.

De acordo com Jefferson Nagô, Manoelzinho, após o Carnaval de 1997, por motivos pessoais, optou em não levar o caboclinho adiante. “Em 1997, o Carijós adormeceu e ficou desativado por 13 anos. O tempo passou e em fevereiro de 2010 realizei uma reunião de jurema no terreiro e meu caboclo protetor me disse ‘que o caboclo lá de cima estava querendo acordar e queria ir comigo’. Como estávamos focados apenas na parte espiritual do terreiro, não prestei atenção ao recado. Quando foi no início de março, fui ao Alto José do Pinho resolver umas coisas, e quando passei em frente à casa de Manoelzinho ele disse que queria falar comigo. Pediu que eu entrasse na casa dele e disse: ‘o mesmo recado que você recebeu lá embaixo eu recebi aqui em cima na minha casa. Carijós quer ir pra rua e quer ir pelas suas mãos. O caboclo escolheu você pra daqui em diante você mostrar a força dele na rua’. Como eu tinha apenas 25 anos na época, disse que não tinha condições. Era uma agremiação de 120 anos, e eu era muito jovem. Mas aquele foi um chamado da espiritualidade, e eu não tive como evitar. Manoelzinho então foi dentro de sua casa e pegou toda a documentação do caboclinhos para me entregar. ‘Você sabe que dia é hoje?’, ele me perguntou. ‘Hoje é 5 de março, dia de aniversário do Caboclo Carijós’”.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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Nos meses de abril, os Carijós entram num processo de reclusão e passam um mês inteiro fazendo oferendas aos caboclos da floresta

Este foi o primeiro envolvimento de Jefferson Nagô com uma agremiação carnavalesca. “Sempre fui produtor cultural, trabalhei com eventos, sou babalorixá responsável pelo terreiro e sou descendente de Funiôs. Mas tudo começou com as revelações que tive em 2010. A partir daí levei o Carijós adiante, porque é uma essência tão bonita essa dos caboclinhos que a gente não pode deixar morrer. É dos primeiros habitantes da nossa terra, um marco muito importante pra nossa cultura e pro Carnaval”. Assim que assumiu o grupo, não existiam figurinos e a única coisa que existia eram alguns documentos. Mesmo assim o grupo não se abateu e realizou um esforço para criar novas peças, ensaios e colocar mais uma vez o caboclinho na avenida. “Em 2011, conquistamos o 1º lugar da competição da Prefeitura do Recife. 2012 foi também um ano de muita dificuldade, mas ganhamos novamente. Em 2013 a gente já recebia um cachê pela prefeitura, e naquele ano fomos 2º lugar. 2014 foi um ano no qual o Caboclinhos Carijós respirava melhor, e ganhamos novamente o 1º lugar. Em 2015 ficamos com o segundo lugar e em 2016 mais uma vez fomos vencedores”.

Sobre a homenagem da Prefeitura do Recife no Carnaval, Jefferson conta que o grupo recebeu o anúncio com surpresa. “Um dia no final de dezembro me ligaram da Secretaria de Cultura do Recife e disseram que tinham uma coisa muito séria pra resolver comigo. Quando cheguei fui recebido por Leda Alves (secretária de Cultura), Diego Rocha (presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife) e o prefeito Geraldo Julio, que anunciaram que um dos homenageados do Carnaval seria o Carijós, por toda a dedicação e empenho que o grupo tem durante o período carnavalesco, e por ser também o caboclinho mais antigo em atividade em Pernambuco. Foi uma honra muito grande, uma satisfação imensa receber a força de representar todas as tribos de caboclinhos de Recife e do nosso estado”, comemora Jefferson, ressaltando que o Carijós é a primeira tribo de caboclinho a ser homenageada numa das edições do Carnaval recifense.

Para a festa de abertura, o grupo prepara uma apresentação que conta a história e tradição dos caboclinhos. “Vamos colorir a cidade com os caboclos e mostrar algumas coisas que ninguém colocou na avenida até agora. Por exemplo, vamos mostrar um pouco também da parte religiosidade, que é onde começa tudo. Toda a beleza de um caboclinho começa na parte espiritual. Para existir a parte profana do Carnaval há por trás toda uma religiosidade, e é isso que a gente vai tentar mostrar”, explica. Na opinião do presidente dos Carijós, “uma agremiação só pode se intitular como caboclinho se tiver uma relação com a jurema sagrada”.

Mesmo sendo pegos de surpresa, os Carijós conseguiram se preparar e montar um figurino especialmente para a homenagem. “Só deu certo por conta da equipe que a gente tem. Soubermos já em dezembro que seríamos homenageados, e quando recebemos a notícia tivemos que mudar toda a estratégia que tínhamos pra sair como desfilante normal para criar algo que representasse o povo do Recife no Carnaval”, revela Jefferson Nagô.

A rotina do caboclinho

Quando acaba o Carnaval, o grupo tem apenas um mês de descanso, que é março. Após esse período os integrantes dão início à rotina de atividades do caboclinho, que vão desde os bordados, voltados para a confecção pro Carnaval, até as oficinas de fantasias e de montagem de instrumentos que utilizamos no caboclinhos. “Uma das coisas que fazemos, por exemplo, é ensinar os envolvidos a pintar as penas das peças. Parece simples, mas existe todo um preparo minucioso pra fazer com que elas fiquem exatamente nas cores que queremos. É assim passamos o ano inteiro trabalhando. Até o mês de setembro o grupo fica focado no desenvolvimento dos figurinos, às vezes até passamos, mas a partir deste mês iniciamos os ensaios de música e dança”, explica Jefferson Nagô. Nessa época do ano os Carijós dividem os ensaios em dois grupos, entre os que vão participar dos cortejos no Carnaval e os que apenas querem aprender sobre a cultura indígena.

O presidente do grupo conta que a parte musical é composta pelo chamado terno, formada pelos instrumentos mineiro, surdo e gaita. “Nos preocupa muito é a questão da afinação da gaita, porque não é simplesmente soprar e tocar. A melodia que você vai tirar tem que estar de acordo com o caboclinho que você reverencia. Cada toque simboliza um caboclinho, como os baques são nos maracatus. Os ritmos são o perré, o baião, a guerra e a macumba. Mas é um preparo importantíssimo, e todos tem que estar no mesmo ritmo. Se um dos três errar, todos no grupo erram. Para quem está dançando complica demais um erro desses, e por conta disso a coreografia é montada junto aos músicos. Cada ritmo é dançado de uma forma. O perré de um jeito, o baião de outra, a guerra também diferente, e por ai vai”.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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De acordo com Jefferson Nagô, alguns capacetes contam com três penas diferentes. A maior delas, a de avestruz, é comprada ao quilo por R$ 2.750

Outra rotina do grupo envolve os meses de abril, período no qual os Carijós entram num processo de reclusão e passam um mês inteiro fazendo oferendas aos caboclos. “É quando abrimos a nossa jurema, vamos para as matas e damos obrigação aos caboclos. Os trabalhos são abertos também para pessoas que queiram conhecer um pouco sobre a cultura dos Carijós. Quando voltamos para o terreiro, fazemos todo um trabalho de banho de ervas que foram catadas na mata. Lavamos todos os assentos dos caboclos, damos oferendas também, primeiras às tapuias, que são as guerreiras da mata, depois aos mais velhos. No dia seguinte, acontece o festejo em que é louvada a jurema e todos os índios protetores. Sempre fazemos isso para que Carijós nos sustente e nos dê força”, detalhe Jefferson Nagô, que comanda todos os processos espirituais. Os trabalhos se intensificam principalmente quando chega o Carnaval, momento que os integrantes fazem rituais com mais profundidade no preceito da cultura indígena.

Ao longo do ano o figurino é o que dá mais trabalho. Além das peças próprias, os Carijós desenvolvem indumentárias para outros grupos, como maracatus, escolas de samba e passistas de frevo. “Só conseguimos porque a equipe é grande e competente. Durante o dia chega a ter doze pessoas, de noite entre quinze e vinte, pra dar tempo de fazer tudo. Muitas pessoas se profissionalizam dentro do próprio Caboclinho, a maioria da nossa comunidade. Começamos com algumas aulas de adereço e costura e fomos trabalhando em cima dos jovens principalmente, mas também de adultos queriam aprender e interagir mais no grupo”, comenta Jefferson Nagô, que este ano está assina o figurino do Rei e da Rainha de Momo do Recife.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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“A gente faz os figurinos na nossa própria sede. Primeiro a gente risca, cria todos os desenhos, depois confecciona os estandartes. É um investimento grande, de dinheiro e tempo”, conta Jefferson Nagô

“A gente faz os figurinos na nossa própria sede. Primeiro a gente risca, cria todos os desenhos, depois confecciona os estandartes. É um investimento grande, de dinheiro e tempo. Para se der uma ideia, só a cabeça da fantasia leva no mínimo um mês pra ficar pronta, porque tem todo o acabamento, bordados e preparação da tinta pra pintar as plumas. Tem alguns capacetes que temos três penas diferentes, a chinchila, que é do pescoço do galo, o rabo do galo e uma pena de avestruz. Essa última é uma das mais caras, a unidade sai por R$ 25 e o quilo custa R$ 2.750. E com um quilo eu consigo apenas uma única fantasia. Aqui é difícil encontrar esse material e geralmente compramos de uma fazenda de Goiás ou do Rio Grande do Sul. Depois vem todo um processo de limpeza, porque elas chegam sujas. E tem que cuidar também de toda a parte fiscal, tem que pagar os impostos, porque se o IBAMA pega a gente com uma caixa dessas sem nota fiscal, por exemplo, é cadeia na certa”, conta Jefferson. Em seguida, o grupo penteia pena por pena, e depois pinta uma por uma para manter a tonalidade da cor em todas elas. “Fora que as lantejoulas são pregadas uma a uma, na agulha e na cola. Depois colocamos os adereços mais grosseiros, como os dentes”.

Sobre este processo, Jefferson revela a dificuldade financeira do grupo. “Não é fácil passar o ano inteiro confeccionando fantasias. No mínimo, na semana pré-carnavalesca, você tem que ter 150 a 200 figurinos prontos pra poder participar das competições e sair na avenida. Quando junta o gasto com transporte e alimentação, ai extrapola tudo. Eu já estou no quarto empréstimo pra pagar as contas porque a subvenção da prefeitura ainda não saiu. Mas também não dá pra ficar esperando o dinheiro, ou você se organiza e faz antes ou o grupo não sai no Carnaval”.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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Jefferson Nagô conta que nos dias dos desfiles, a agremiação sai com até 200 pessoas, todas fantasiadas com as cores vermelho, branco e verde, as cores do caboclinho

Título de Patrimônio Cultural

Há alguns meses o Caboclinhos Carijós recebeu outra boa notícia. No dia 24 de novembro do ano passado o Iphan concedeu aos caboclinhos o título de Patrimônio Cultural e Imaterial do Brasil. Assim, o caboclinho fica inscrito no Livro das Formas de Expressão e tem garantidos o reconhecimento, a valorização e a salvaguarda de um conjunto de bens culturais, saberes, fazeres e formas de expressão que o representam.

De acordo com Jefferson Nagô, os Carijós tiveram poucas participações na construção do acervo e da inscrição da candidatura, “mas hoje, diante da história indígena, não tem como falar de caboclinhos e não falar dos Carijós, porque somos os mais antigos em atividade no estado. Este título concedido pelo Iphan é muito importante porque nos preserva. Daqui a uns anos a gente poderia dizer que a cultura indígena estava em escassez. Hoje em dia, não comparando mal, muitas pessoas só visam o maracatu e o frevo. O que tem de mais original dentro do Carnaval não estão dando valor. Quem descobriu o Brasil foram os índios, eles chegaram primeiro aqui. Este título é um fortalecimento pra nossa cultura e um estímulo para que as pessoas trabalhem mais pelos seus caboclinhos, uma manifestação muito rica e que tem muitos saberes a se abraçar e aprender. Tem que dar continuidade pra quando os mestres morrerem ter alguém pra levar adiante”, opina.

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