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Cultura popular e artesanato

19 de março – São José, dê licença para o artesanato passar!

Não por acaso, o Dia do Artesão é o mesmo do santo carpinteiro, escolhido para representar esta valorosa categoria, que vive de lutas e importantes conquistas.

Por Michelle de Assumpção

A explicação para o Dia do Artesão ser 19 de março é a maior prova de que estamos falando daquela que é considerada uma das mais antigas profissões do mundo: foi neste dia que teria nascido José, o carpinteiro, pai terreno de Jesus Cristo. Hoje, entende-se que é artesão “toda pessoa física que desempenha suas atividades profissionais de forma individual, associada ou cooperativada”. E ainda que o artesanato, como objeto de política pública, terá como diretrizes: a valorização da identidade nacional, a destinação de linha de crédito especial para financiamento da produção e aquisição de matéria prima, a qualificação permanente, a integração com outros setores da economia divulgação, entre outros.

Importante ressaltar que o texto e questões colocadas acima estão no projeto de Lei 7755/2010, que atualmente tramita no Congresso Nacional (já tendo sido aprovado por três comissões: Cultura, Trabalho e Finanças). A lei vai regulamentar esta profissão de enorme importância para a cultura e a economia nacionais, que vem se mantendo entre lutas e conquistas. Pernambuco – como um dos mais importantes celeiros da produção artesanal do país – é visto pelo segmento como um dos estados que mais soube compreender o artesanato a partir de suas dimensões simbólicas, cidadã e econômica. E tem muito que comemorar.

Compreendida como uma das expressões da cultura popular, as mais diversas tipologias do artesanato encontram espaço para exposições e oficinas durante ações governamentais. Estão presentes na programação do circuito do Festival Pernambuco Nação Cultural (no Festival de Inverno de Garanhuns, o Pavilhão do Artesanato está consolidado), na Fenearte, uma das maiores feiras de artesanato da América Latina, e nas mostras da unidade móvel do PAPE, o Programa de Artesanato de Pernambuco, criado em 2008 e que envolve diversos órgãos públicos no fortalecimento da política para o artesanato, tais como Ad-Diper e Fundarpe.

Secult

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Peças de Patrimônios Vivos de Pernambuco que representam o nosso artesanato.

Na ocasião destes eventos, o público conhece as peças de cerâmica de Tracunhaém e Caruaru; as tapeçarias de Lagoa do Carro; o couro e o artesanato quilombola de São José do Belmonte e Salgueiro; a madeira de Sertânia e Ibimirim, com seus santeiros; os mamulengos de Glória do Goitá; a cerâmica e xilogravuras de Goiana; a renascença de Pesqueira; o artesanato indígena de diversos municípios do Agreste; as manualidades de Triunfo, entre outras produções que representam, no fazer artesanal, as tradições mais genuínas de sua terra.

Clara Gouvêa

Clara Gouvêa

Caminhão do PAPE circula com os festivais Pernambuco Nação Cultural

“A nossa política tenta reforçar as práticas tradicionais, sem deixar de reconhecer que o mundo do artesanato mudou. Hoje há uma multiplicidade de tipologias, e que de certa forma reconfiguram essa tradição. Os artesãos estão tendo acesso a mais qualificações, não só através de cursos promovidos pelo estado, mas por outras diversas organizações, e o artesanato é uma real alternativa de renda para milhares de famílias. O Estado não pode desprezar essa realidade, ou seja, identificar as práticas que interagem com a arte e a cultura de cada região e perceber as questões de mercado. Hoje isso é muito debatido entre os artesãos”, avalia o secretário estadual de Cultura, Marcelino Granja.

O artesão Nivaldo Jorge, uma das lideranças de Pernambuco neste segmento, aponta que o dia 19 de março, instituído por decreto, há dois anos, como Dia do Artesão, é uma das recentes conquistas que pede comemoração. “É um momento único para a sociedade civil, onde podemos nos encontrar, tomar consciência da importância do que produzimos, trocar informações com os demais artesãos, e o público em geral, sobre todos os avanços que tivemos no estado e no país”, comenta. Ele também aponta espaços como a Fenearte – uma das maiores feiras de artesanato da América Latina – o Centro de Artesanato (Bairro do Recife), o Pavilhão do Artesanato do FIG, além dos fóruns de cultura, como exemplos de um processo que avança.

Divulgação

Divulgação

Nivaldo Jorge representa Pernambuco no Conselho Nacional de Políticas Culturais

Nivaldo – enquanto representante de Pernambuco no Colegiado Setorial do Artesanato, que por sua vez tem assento no Conselho Nacional de Políticas Culturais – reforça ainda que a mais relevante das conquistas é o Plano Setorial do Artesanato Brasileiro, construído entre 2013 e 2014, a partir de escutas em todo país, inclusive em Pernambuco. O Plano define, a curto, médio e longo prazo, as políticas para o segmento. “Eu costumo dizer que o processo não é lúdico, e sim de enfrentamento. E a participação não é uma dádiva, é uma conquista. Esses frutos que estamos a colher – como a própria regulamentação da profissão – fazem parte de 30 anos de história de luta”, diz.

HERANÇA DE MESTRES – Dentre os 33 Patrimônios Vivos de Pernambuco, dez deles são representantes do nosso artesanato. E é mais do que comum que tenham repassado, aos filhos e netos, os tipos que criaram – juntamente com a consciência de que artesanato é expressão de uma arte única, exclusiva. Nando de Zezinho, filho de Zezinho de Tracunhaém, já chegou a exportar suas “pinhas” para onze países. Está se organizando para voltar a vender para fora do Brasil. “A ideia é continuar o que ele começou. Sou artesão há mais de 25 anos e sei o quanto foi difícil no começo para meu pai. A gente não. Nascemos já tendo um ateliê, o barro, ele ensinando, e mais oportunidades de mercado para expor e vender nossas peças. No dia de hoje todos os artesãos tem o que comemorar”, diz Nando.

Para além de tudo que precisa conquistar, o futuro do artesanato é otimista. Tendo em sua base criativa referências construídas por mestres como Dila, Nuca, Zezinho de Tracunhaém, Maria Amélia, Jota Borges, Zé do Carmo, Zé Lopes, Ana das Carrancas, entre tantos outros, o artesanato também segue por novas gerações que se aliam cada vez mais a outras práticas e saberes, como o próprio design, e segue construindo uma trajetória que soma, e não descarta nada. “As políticas também tem que refletir essas mudanças, senão ficamos parados no tempo”, diz Breno Nascimento, artesão e atualmente assessor de artesanato da Secult-PE. Ele aponta o relação cada vez mais harmônica entre artesanato, Economia Criativa e Economia Solidária.

“O mercado gera fenômenos, como o de ir atrás do que é moda. Isso é vivido em diversos ambientes, até no Alto do Moura. Cabe à política oferecer a melhor forma de informar, debater essas questões. Mas vejo que a grande maioria dos artesãos ainda busca reconhecimento a partir do lugar onde estão”, diz. Ao lado desta importância estética cultural – percebida pela maioria dos que trabalham com o artesanato – a interação com a economia é mais que bem vinda. “O viés da sustentabilidade, trazido pela Economia Solidária, que trabalha com pets, alumínios, borrachas e outros recicláveis, além das oportunidades viabilizadas pelas ações da Economia Criativa, já é uma realidade no mundo do artesanato que só vai fortalecer cada vez mais este setor”, aponta Breno.

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