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Cultura popular e artesanato

A bicharada do Mestre Jaime

Bloco carnavalesco de Salgueiro mantém viva a tradição do Carnaval de rua

Por: Raquel Holanda

Ricardo Moura

Eram quase quatro da tarde da terça-feira de uma semana pré-carnavalesca quando cheguei ao ateliê de Mestre Jaime, em Salgueiro, no Sertão. Fui recebida pelo seu genro Wilson, pois Mestre Jaime precisava de tempo para se vestir adequadamente, a fim de receber seus convidados. Eis que chega ele, vestido impecavelmente com seu terno roxo listrado de cinza, sem esquecer ainda o chapéu e os óculos – sem lentes, apenas uma armação grande e dourada.

Devidamente acomodados em cadeiras de “macarrão”, na calçada do ateliê do artesão, começamos uma agradável conversa. O cenário era uma rua de pedra, transversal da avenida principal da cidade de Salgueiro. Na nossa frente estavam dispostos cerca de dez bonecos do bloco A Bicharada do Mestre Jaime, além de dois bonecos gigantes do personagem que dá nome à troça.

Embora o famoso personagem de Salgueiro já tenha uma idade avançada, seus 90 anos não o impendem de descrever minunciosamente momentos memoráveis de sua festa predileta, o Carnaval. Relembrando a história deste bloco que já percorre as ruas de Salgueiro há mais de 60 anos, Mestre Jaime contou que foi em 1946, quando a cidade brincava o Carnaval nos moldes tradicionais, com blocos de ruas e troças formadas por moradores da cidade, que ele e alguns amigos decidiram se fantasiar de bichos para brincar nos dias da folia de Momo.

“Eu admiro muito a natureza, se eu olhar para o mar quero ver o tubarão; se olhar para a África quero ver o leão, e assim inventei de trazer todos os bichos para cá”, revelou o mestre carnavalesco, que teve seu bloco batizado de A Bicharada do Mestre Jaime pelos próprios brincantes da agremiação.

Durante a conversa, o artesão contava e cantava a história do bloco, narrando fatos que se confundem em muitos momentos com sua própria história de vida. Um dos versos entoados por Mestre Jaime foi a marchinha que animava os foliões de A Bicharada do Mestre Jaime, criada quando o bloco ainda era composto por mascarados. “Olha a cobra, olha o jacaré, olha o homem do espaço atrás de mulher/ No calça frouxa tudo é legal, tem Mestre Jaime que é o maioral/ E a Bicharada que brinca o Carnaval”, cantou o mestre.

Segundo Mestre Jaime, os anos se passaram e em Salgueiro o Carnaval seguia bem, com troças pelas ruas e pessoas brincando ao som de frevo, correndo atrás de blocos tradicionais. Mas o mestre contou, com ressentimento, que nos anos 1980, o Carnaval da cidade se deparou com sua primeira barreira: “Quando o trio elétrico apareceu, desgraçou tudo. Fiquei magoado”. Falando sobre o assunto, o carnavalesco aproveitou para cantar a música que fez para desabafar o momento em que vivia: “Carnaval fora de época para mim não vale,/ veio de uma geração louca e alucinada/ Botei a trave na janela, fechei a porta principal/ Fiz de conta que não vi desaparecer pelo fundo do quintal (…) Trio elétrico, invenção do satanás,/ acabou com o sentimento dos velhos carnavais,/ aquele que escrevia a bela melodia não volta nunca mais…”

Foi nesta época que, para driblar esse obstáculo, Mestre Jaime resolveu ampliar sua bicharada e, em vez de máscaras, o seu bloco passou a desfilar com bonecos pelas ruas de Salgueiro, levando a alegria dos bichos para a festa da cidade. Com A Bicharada do Mestre Jaime, o Carnaval de Salgueiro ganhou espaço e destaque na cultura pernambucana. Ao longo dos anos, o número de bonecos foi crescendo e hoje são cerca de 100, que saem da fauna para movimentar a festa momesca na cidade. De acordo com Mestre Jaime, foram os próprios brincantes que fizeram com que o bloco fosse crescendo. “Os meninos que querem carregar os bonecos foram aumentando a cada ano. Sempre chegava um na hora que o bloco ia sair querendo brincar. Por isso, eu tenho esses bonecos todos, para sempre atender aos bonequeiros”, comenta Mestre Jaime.

Como reconhecimento a este trabalho, o bloco recebeu três homenagens: a agremiação foi presenteada com dois bonecos gigantes com o rosto do seu patriarca, e também a Pitu estampou a bicharada e seu criador na sua lata.

Para Mestre Jaime, o Carnaval está prestes a chegar ao fim. Mas, segundo ele, enquanto A Bicharada existir, “sobrevive o Carnaval de Salgueiro”. Todo ano A Bicharada do Mestre Jaime desfile nas ruas da cidade. No carnaval de 2012, a agremiação saiu no sábado e domingo. Os 100 bonecos do bloco levaram cores e alegria para os foliões salgueirenses.

 

 

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