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Cultura popular e artesanato

A herdeira das Pretinhas

Dona Carminha conta como levou adiante a brincadeira do pai

Por: Chico Ludermir

Chico Ludermir

É verdade que são pouquíssimos os meus anos de experiência. Tanto como jornalista, quanto como homem. Mas talvez tenha vindo mesmo daí a beleza do encontro com alguém tão dessemelhante.

Chego a Carne de Vaca através de uma rodovia que desemboca numa ladeira. É de cima dessa ladeira que recebo do verde do mar as boas vindas. Ali, há 40 km da sede do município de Goiana, o lugar, em seu silêncio, parece pronto pra revelar. E, assim, adentro. Na cidade, na casa de Dona Carminha, ao mesmo tempo em que na história da herdeira das Pretinhas do Congo, manifestação popular carnavalesca.

Aos 87 anos, 63 a mais do que eu, Maria do Carmo Monteiro da Silva me espera sentada na sua cadeira, no canto da sala, acompanhada de mais três gerações de sua família: filha, neta, bisneta. Com a voz já embargada pela idade, conta a história da sua vida, ao mesmo tempo em que reconstrói a tradição repassada pelo pai, Mané de Pirrixiu, desde os tempos de menina.

“Vou-me embora pra Paraíba e tu fica brincando”, teria dito um certo Manuel de Miguel, criador das Pretinhas, pra Pirrixiu. “Fico”, teria respondido, sem titubear, o pai de Carminha, tornando-se, instantaneamente, o detentor da agremiação, em meados da década de 1930.

Aí ele ficou. E nessa época, com 10 anos, Carminha queria mais era dançar, mas era muito pequena. O pai achava que ela não ia aguentar. “Fiquei calada, na vontade. E ele botando a brincadeira”. Mas pareceu que a fortuna sorriu pra Carminha, quando a moça que puxava o cordão disse a ela que ia se casar. “Ela me disse assim: ‘Carminha, se tu quiser brincar, tu brinca agora, que mulher casada não pode brincar, não’”. Quando eu disse a meu pai, ele ficou muito surpreso, mas como não tinha ninguém pra puxar, fui eu. Aí eu brinquei e fiquei até hoje. Ele morreu e eu continuei a brincadeira”.

Engraçado é a naturalidade com que Carminha conta sua história. Como se pra mim também fosse familiar tudo aquilo. E se eu não paro pra perguntar, me perco no vocabulário novo. “Colocar a brincadeira” é conduzir, como mestre, as Pretinhas do Congo; “puxar cordão” é dançar; “puíca” é cuíca e assim ela me explica como se faz uma…

Dessa forma, despretensiosa, acabo entendendo um pouco o repertório da brincadeira, a mesma que acontece na sede de Goiana, sob o comando de Mestre Val. Uma tradição que resgata o imaginário sofrido dos engenhos da cana-de-açúcar dos tempos da escravidão. Senhores e senhoras de engenho, vassalos e escravos, reis e rainhas negras que dançam ao som das toadas puxadas pela mestra.

Só que para Dona Carminha, a coisa é menos religiosa e mais consuetudinária do que em Mestre Val. É uma paixão terrena que ela recebeu do pai e gostaria de passar para a filha. O pior é que ela mesma não acredita que ninguém, além dela, queira e saiba de verdade manter a tradição.

“Só quem sabe cantar sou eu. Eu mesma não esqueço das letras, não. Mas quando eu for embora, eu levo as letras comigo”, diz ela, logo retrucada pela filha Iracema: “Ela diz que acaba, mas eu vou continuar”. Cema é única das filhas que sai com Carminha. É ela que comanda a resposta (o coro) do bloco, numa preparação para possivelmente liderar a brincadeira no futuro.

A preocupação de Carminha não é, de longe, descabida. Com longos anos de vida e algumas doenças acumuladas, Dona Carminha passou mal há quatro anos, enquanto puxava as Pretinhas. A pressão ficou só na “peinha”, de tão alta. Foi socorrida e teve que voltar pro casarão, de onde o bloco saiu. Mas, depois de descansar um pouco, não teve quem segurasse a danada, voltou puxando mais uma jornada. “Quando melhorei um bocadinho, eu fui lá cantei”, diz ela numa prova de amor às Pretinhas, como se precisasse.

“E se não gostasse eu tava brincando até hoje? Eu brinco e tenho pena de acabar. Agora, chegando a morte, eu tenho que ir. E já tá chegando, que eu tou velha. Mas eu não tenho medo, não. Tenho lembrança”, fala em tom de nostalgia.

Engraçado é que, depois de me contar tanta história bonita, Carminha ainda acha que não falou:

─ Mas tu não quer saber disso não, né? Tu quer a história das Pretinhas, né?
─ Mas essa história tá muito bonita! E a senhora é também a história das Pretinhas.
─ Eeeita (solta ela em tom bem agudo).

E volta a contar do começo, do primeiro ano em que puxou cordão até quando o pai morreu, muito de repente e ela assumiu o comando. Acabou se mudando para Carne de Vaca, onde vive até hoje, numa casa, que antes era de tábua e hoje é de tijolo bem firme e que não alaga mais.

Perto de ir embora, me permito perguntar qual foi a maior alegria da vida de Carminha, num desejo de aprender mesmo com alguém que já viveu tanto. Meio sem jeito até pra se emocionar, ela conta: “Quando meu pai morreu, eu vivia de cachorro pra baixo dez graus. Não sabia nem quando eu ia comer. Foi quando eu tive alegria, quando achei um homem que me desse de comer”.

Carminha descreve, com pesar, os três meses que passou vendo passar o dia, a noite e entrar outro dia e ela sem ter o que comer. Ficava num canto sentada, sentindo um buraco dentro do estômago. O sol quente, e ela sentada, sem ter o que fazer. Foi quando Jaime a viu e perguntou a uma irmã o que Carminha tinha. “Quando ele veio, eu disse: ‘É fome, já viu?’”. Nesse mesmo dia, ela já se casou com ele e, daí em diante, nunca mais teve fome.

Acabo emendando outra pergunta, por não saber mesmo o que dizer dessa história de alegria:

─ E que a senhora pretende fazer de agora por diante?
─ Eu vou brincando até chegar o dia de morrer. Quando chegar o dia de morrer, eu morro e acabou-se a brincadeira, resume, depois de mais de duas horas de conversa.
─ Ele tá com vontade mesmo de chegar em casa de noite, né?, se impressiona com o meu interesse.

E eu, de cá, me impressionei também.

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