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Cultura popular e artesanato

Bois, a surpresa e a alegria da Mata Norte

O que faz Timbaúba um lugar tão especial no Carnaval

Por: Julya Vasconcelos

Costa Neto

“O senhor pode cantar uma loa pra gente ver como é?”, pergunto ao Seu Cruá, no canto de uma saleta no Alto do Cruzeiro, na cidade de Timbaúba, na Zona da Mata Norte pernambucana. O boi está na nossa frente, nos últimos preparativos, sendo remexido por um grupo de adolescentes. “Essa é do pai de santo, sente aí”, me diz apontando para uma cadeira branca de ferro, num gesto meio gentil, meio afobado. Sentei. Pouco tempo depois soube que o pai de santo era ele próprio, Pai Cruá, e que aquele espaço era a sede do Boi do Trigo e, ao mesmo tempo, nada mais, nada menos que o “Palácio de Xangô”.

Ele faz uma pausa como que preparando a garganta, engole seco, respira fundo e começa, em uma cadência bonita, arrastada, cheia de sotaque:

“Vaqueiro pra ser vaqueiro
Vaqueiro do meu Sertão
Derruba gado no chão
A cultura de Timbaúba
É uma cultura especial
E saindo dos três morros
o boi de Carnaval”

A loa é a toada, o improviso em versos, o canto que o mestre cria no meio da apresentação do boi. “Minha língua às vezes dobra, mas dá pra sair som”, diz, arrancando uma risada geral, ciente da sua língua presa, que lhe dá uma dicção por vezes incompreensível. Cruá é o apelido de Rosenildo José da Silva, de 43 anos, presidente do boi mais antigo em atividade na cidade de Timbaúba: o lendário Boi do Trigo, que existe desde 1968.

O grupo foi fundado por Seu Elias, já falecido. Ele era padeiro da antiga Panificadora Paris. Juntou-se a mais dois companheiros, Cumpade Fulô (que era cirandeiro) e Biu Macena (tocador de caixa), e então eles começaram a sair no Carnaval. Levaram um boi vestido com aqueles sacos industriais de farinha de trigo que eram largados pelos cantos da padaria. Em 1989, Cruá conta que já fazia três anos que o boi do Trigo estava parado. “Eu perguntei pra Seu Elias, que já tava muito velho, se ele não queria me vender o boi. Ele disse que sim, aí eu comprei”. Comprar o boi significa, de certa maneira, comprar a sua tradição, seu nome e, claro, a batucada (os instrumentos). E foi assim, de um jeito tão simples, que Cruá se tornou o presidente do boi mais tradicional de Timbaúba.

A cidade estava calma. As crianças, comportadas em uma varanda, em meio a máscaras carnavalescas. Havia lá mais um grupo de meninos de uns 15 anos, que pintavam os cabelos com água oxigenada na frente da casa de Seu Cruá, fazendo um (quase) Carnaval particular. Mas por detrás de várias daquelas portas trancadas, eles me garantem que há um boi sendo enfeitado em segredo pro domingo de Carnaval, dia do tradicional Concurso Municipal de Bois, que já entra no seu 14º ano em 2013. Há mais de 50 bois em Timbaúba, cada um com cerca de 70 integrantes.

Pergunto se os meninos participam, se dão valor à tradição. “Oxe, e então! Com quatro ou cinco anos já começam a brincar, mas não é tudinho, não”, conta Seu Cruá, revelando que também muitos deles quando crescem mais um pouco, só querem saber “de namoro e axé”. Ednaldo, de 18 anos, carrega o boi e diz que é “uma alegria poder brincar”. Emerson, Riquelme, César e Rosângela também participam da festa, e usam a mesma palavra pra descrever a emoção: “alegria”, que às vezes varia um pouco para “felicidade”. Não sei se ficam tímidos e repetem sempre a frase do amigo, mas a verdade é que falam com um sorriso sincero.

A maior parte dos meninos é de toureiro, o personagem que “fica toreando na frente do boi, com um pano vermelho”. Cruá conta que cada personagem do boi tem importância essencial para a beleza da apresentação. “É a batucada, com zabumbeiro, caixeiro, mineiro, gonguê e a buzina. Aí tem o Boi, a Burrica, o Vaqueiro, a Rainha e a Contra-Rainha, a Caterina e a Caixeira, a Porta-Estandarte, o Mestre e o Contra-Mestre”, ensina.

Em Timbaúba, os bois desfilam na Passarela de Eventos, que fica no centro da cidade. São avaliados por um corpo de jurados que analisa evolução, toada, fantasia, e outros quesitos. Apresentam-se disputando um troféu, um prêmio em dinheiro e a glória de ser o boi mais bonito do Carnaval. Além de mover a cidade, isso faz com que exista muita rivalidade entre os bois e os morros dos seus integrantes: os altos de Santa Teresinha, do Cruzeiro e da Independência. “Existe muita provocação entre os bois, muita competição e rivalidade”, afirma Seu Cruá.

O BOI VENCEDOR

Na pacata Rua da Cruz, que fica no bairro de Timbaubinha, às margens do Alto do Cruzeiro, dá pra ver uma ponte pintada de verde, sob a qual passa o Rio Capibaribe-Mirim. Há poucos metros daí é a casa de Seu Dedé, presidente do Boi Surpresa, que venceu o Concurso de Bois de Timbaúba no ano de 2011. Quando chegamos, quem nos atende é uma senhora alta e forte, Dona Maria José, esposa de Seu Dedé e caixeira do Boi (ou Mulher da Caixa, que arrecada as doações da população durante o cortejo e depois divide entre todos). Ela explica que ele teve que sair, mas que volta logo. “Vocês querem ir vendo o boi?” e, antes de qualquer resposta, já vai abrindo a portinha do muro azul reluzente ao lado da sua casa para revelar o segredo: o Boi Surpresa brilha quando o sol entra na sala escura de Dona Maria.

Cheio de espelhinhos, brocal e lantejoulas, o boi parece luxuoso, lembrando aquelas alegorias de escola de samba. Enquanto admiramos o boi, Seu Dedé entra como um raio e senta perto da mulher. No começo fala pouco, uma palavra ou outra. Mas quando perguntado sobre seu sentimento, ele enche os olhos de lágrimas e dispara um demorado “oooxe!”. “A alegria é grande demais, eu tenho prazer, e só gosto de botar na avenida um boi bonito”.

Seu Dedé e Dona Maria José fundaram o Surpresa há sete anos. Mas ele conta que brinca nos bois desde os 12 anos de idade. Ela diz que se apaixonou pela história por causa do marido. A paixão de Seu Dedé é tanta que além do incentivo financeiro da prefeitura, ela tira dinheiro das suas economias para comprar os materiais de melhor qualidade. “Tá vendo isso aqui? Isso é muito caro!”, exclama mostrando o tecido da roupa do Mestre: “Eu fico agoniado, agoniado. Nem durmo direito”.

De dentro de caixas espalhadas por dentro de casa, eles foram mostrando, uma a uma, as fantasias feitas para cada um dos quase 60 integrantes do boi. Botas, vestidos cor-de-rosa, camisas que tinham uma aplicação de brilho trazido diretamente do Rio de Janeiro, chapéus de palha coloridos. Depois de abrirem todas as caixas, satisfeitos, Seu Dedé questiona: “O bicho pega ou não?”, e ri de sua própria frase.

A BUZINA

No meio de qualquer conversa sobre bois de Carnaval em Timbaúba, alguém menciona, sempre em tom de orgulho, a existência da buzina. Seu Cruá tocou o instrumento retorcido de metal, que mais parece um chifre que uma buzina, e espalha um som partido, insistente, meio grave.

“No começo, os bois usavam chifres”, diz Aurineide Ferreira, sua filha. “Mas eram menores que aqueles de boiadeiro e nem sempre eram fáceis de achar, nem sempre dava pra ter o som que queriam”. Essa história chegou no ouvido de Seu Amaro, que resolveu criar um instrumento de lata de óleo, e começou a trabalhar nas suas “dobraduras”, como diz Aurineide. Esse senhor, que tinha uma oficina de lanternagem e prazer por inventar objetos – além de um talento especial para afinar instrumentos – sabia achar o som perfeito que os mestres de boi buscavam. Aurineide diz que “ele sabia ler e escrever sem nunca ter estudado; afinava instrumentos sem saber tocar uma nota”. Parte integrante da batucada do boi, a buzina só existe na cidade pernambucana e era fabricada apenas pelo lanterneiro, falecido há dois anos. Dizem que Nildo, seu filho, é o único que domina a arte do pai. Este ano, o concurso homenageou Seu Amaro ao som das buzinas e das toadas bonitas dos bois de Timbaúba.

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