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Cultura popular e artesanato

Carnaval para reviver uma lenda

Figuras míticas, Caiporas saem às ruas de Pesqueira divertindo foliões e assustando criancinhas

Por: Gabriela Valadares

Chico Ludermir

Minha infância foi sempre rodeada por mitos e lendas. Filha de amazonense, fui criada para respeitar a floresta e os animais, sendo o caipora um dos personagens folclóricos que mais esteve presente no meu imaginário infantil. Agora, mais de 20 anos depois, eis que me deparo com ele no município de Pesqueira, no Agreste de Pernambuco.

Caipora vem do tupi “kaa porá”, que significa habitante do mato. Segundo o folclore brasileiro, pode ser representado por várias formas. Caboclo peludo, negro baixinho de um olho só, indiazinha ou indiozinho, o personagem aparece de acordo com quem o vê. Assume a forma mais assustadora para o inimigo. No meu imaginário infantil, o caipora assumia o aspecto de um curumim de cabelos verdes. Agora, em Pesqueira, lá vem ele, bem diferente das minhas fantasias, sob uma nova feição: a de brincante de bloco carnavalesco, vestido com paletó colorido e uma enorme cabeça de estopa.

Os personagens mitológicos e lendas do folclore brasileiro são personificados em versões distintas, que variam de acordo com a região do País. Os casos e mitos criados coletivamente pelo imaginário popular são passados oralmente, através de anedotas em prosa, poesia ou cantoria. Geralmente montado em um porco do mato, o protetor das florestas permite a entrada de caçadores em troca de oferendas – geralmente fumo e cachaça. Alguns usam a cachaça como armadilha. Acredita-se que embebedando o caipora ou um de seus caiporinhas (exército de pequenas criaturas que acompanham a entidade mitológica, podendo ser associados também a uma vara de porcos do mato), capturar o demônio da floresta seria uma tarefa fácil. No entanto, reza a lenda que ninguém jamais conseguiu tal façanha.

Quando o caipora permite a entrada de caçadores mata adentro, em troca das oferendas, a estes fica a obrigação de respeitar algumas regras: não perseguir fêmeas grávidas ou filhotes, não caçar nas sextas-feiras, nos domingos, nos dias santos e nas noites de lua cheia. Minha mãe me contava que penas, esteiras e mantas eram ofertadas pelos índios ao guardião da floresta e dos animais, em vez de cachaça e fumo.

Andando pela cidade em busca da história dos caiporas, mais especificamente do Bloco Carnavalesco e Cultural Caiporas de Pesqueira, paro em uma praça onde vários senhores jogam damas. Me aproximo e começamos a conversar sobre os “causos” da cidade, principalmente os que dizem respeito ao Carnaval. Seu Geraldo, aparentemente o mais velho do grupo, me disse que a mata, supostamente protegida pelos caiporas, era a mesma onde viviam os índios da região. Sabe-se que o personagem é associado, segundo a lenda, ao fogo-fátuo nas regiões pantanosas. Acreditava-se que o fogo misterioso era provocado pelo guardião da mata para espantar os caçadores e, assim, evitar a entrada dos invasores. No caso de Pesqueira, segundo Seu Geraldo, o fogo avistado no meio da floresta era de rituais indígenas.

Fui ao encontro de Dona Helena, cujo nome significava, na Grécia Antiga, Fogo de Santelmo. Coincidentemente, em algumas regiões do País, representa o fogo provocado pelo caipora. Há cinco anos como guardiã do bloco, Dona Helena Rodrigues de Melo, 69 anos, viúva de um dos precursores dos Caiporas, conta que apesar do estresse dos preparativos carnavalescos, é um divertimento organizar e coordenar tudo. Depois de anos ajudando o marido, ela desenvolveu alergia a um dos materiais da fantasia (a estopa), o que a impede de confeccionar as cabeças do personagem. O lado bom, disse ela, é que os jovens a ajudam atualmente com as vestimentas e assim é mais seguro que a tradição permaneça quando ela se for.

Hoje, o bloco arrasta cerca de 80 brincantes, homens e mulheres, meninos e meninas, vestidos por Dona Helena e sua equipe. O que me fez lembrar o grupo dos caiporinhas que auxiliavam o protetor da floresta. Acompanhados por uma orquestra de frevo, os foliões se vestem com uma cabeça pintada em um grande saco de estopa, um paletó e uma gravata. Os ombros ficam na cintura, deixando à mostra pequenas pernas. E assim temos o ser mitológico, representado na fantasia, desfilando pelas ruas da cidade.

O bloco dos Caiporas de Pesqueira foi fundado em 1962 pelo jornalista Abcinéias e mais seis amigos. Alguns anos depois, foi extinto por ser cercado de superstições, entre elas a de que era amaldiçoado. Além de causar pavor às crianças da cidade, acreditava-se que a cada ano, um dos fundadores iria morrer, como realmente aconteceu no início do bloco. Os medos foram superados quando, nos anos 1970, um grupo de amigos, alguns filhos da primeira e segunda geração dos fundadores, resolveu reviver o bloco que, em 2012, comemorou 50 anos de tradição.

Apesar dos registros documentais e de manifestações culturais como o bloco carnavalesco de Pesqueira, personagens do folclore brasileiro como caipora, saci pererê, curupira, cumadre fulozinha, os guardiões da floresta parecem não ter mais a mesma força de antes no imaginário popular. Antigamente o mito causava medo e respeito à natureza. Hoje os Caiporas assustam as crianças de Pesqueira e divertem os foliões durante o desfile do bloco, que acontece no domingo, na segunda e na terça de Carnaval.

OUTROS CARNAVAIS

Na busca por informações, vou descobrindo que Pesqueira carrega outras tradições carnavalescas. Blocos como o Lira da Tarde, os Cangaceiros e as Catraias fazem parte da programação da cidade. Ali perto, diz um outro senhor que, na mesma praça onde garimpei a história dos Caiporas, trabalha uma das figuras mais conhecidas do Carnaval de Pesqueira. Auxiliar de serviços gerais em uma instituição bancária, Gogo é conhecido como o homem da sombrinha. Desfila desde os 16 anos e há 35 sai vestido de mulher em todos os blocos da cidade, acompanhado pela sua sombrinha de frevo. Após economizar durante todo o ano para comprar vestidos e perucas, Gogo chega a trocar de roupa e peruca até seis vezes por dia durante o Carnaval. Após o período momesco, ele doa os vestidos antigos a pessoas carentes.

Segui pela cidade e encontrei outro grupo carnavalesco, o Cambindas Velhas, se apresentando em uma escola municipal. O bloco foi fundado em 1909, por Pedro Lopes. Comerciante, costumava observar os africanos descendentes de escravos que, após descarregar as mercadorias dos navios, dançavam. Depois de ter experimentado dançar com os negros, Pedro Lopes fundou o bloco carnavalesco que atualmente é composto por homens e meninos vestidos de baianas. Acompanhados pelo som da zabumba, do ganzá e do megafone, os “cambindeiros” seguem cantando, já em sua quinta geração, as músicas do fundador. O bloco, que costuma sair todos os dias de Carnaval, também tem quatro composições em homenagem ao cacique xucuru Chicão, assassinado em 1998 na reserva indígena de Pesqueira.

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