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Cultura popular e artesanato

Maracambuco celebra 25 anos de revolução sociocultural em Peixinhos

Além das atividades no bairro, grupo já conquistou títulos como o Prêmio de Cultura Populares (2007) e a Medalha Ordem do Mérito Cultural (2013), ambos concedidos pelo MinC

Jan Ribeiro/Secult-PE

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O brincante Nilo Oliveira, presidente do Maracambuco, foi quem deu início ao grupo, em 1993

Por Marcus Iglesias

Há 25 anos um grupo tem mudado para melhor a realidade sociocultural do bairro de Peixinhos, em Olinda. Fundado no dia 9 de junho de 1993, o Maracambuco, maracatu de baque virado da região, celebra neste próximo sábado (9) suas bodas de prata – um marco que traz um significado especial diante do potencial e importância que o folguedo exerce junto aos outros maracatus de Pernambuco. A comemoração deste um quarto de século será restrita aos integrantes do Maracambuco, com uma confraternização em Aldeia, mas é só o início de uma série de atividades previstas para marcar a data especial.

Mesmo com a pouca idade, o grupo conquistou títulos importantes, a exemplo do Ponto de Cultura, recebido recentemente pelo Ministério da Cultura, e os Prêmio de Cultura Populares (2007) e a Medalha Ordem do Mérito Cultural (2013), ambos também concedidos pelo MinC. Além disso, foi um dos grandes incentivadores durante o processo que resultou no título de Patrimônio Imaterial do Brasil dado aos maracatus de baque virado pelo IPHAN, em 2014.

História - Nilo Oliveira, o fundador e presidente do Maracambuco, recebeu a equipe do Cultura.PE na própria sede do Maracambuco, um sala pequena, mas aconchegante, localizada em plena Av. Presidente Kennedy. “Gosto de espaços pequenos porque assim consigo ter o controle da garotada”, brinca ele, para depois contar que foi em 1989 que tudo começou, quando ele criou um fã clube da Nação Pernambuco.

“Esse grupo encantava a geração da época e inspirou ícones da música, como Chico Science. Me apaixonei quando os conheci, foi impactante. Eu era de Jaboatão dos Guararapes e na época vim morar em Olinda, no beco do Pavão Misterioso (Vila Popular, Olinda). Tinha vontade de montar um projeto dentro do bairro, foi quando percebi no maracatu essa possibilidade. Ai em 1993 fundamos o Maracambuco, e no começo fazíamos apresentações mais simples, em feiras de ciências, aberturas de jogos escolares, essas coisas”, explica Nilo.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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A Sede do Maracambuco funciona no endereço Av. Pres. Kennedy, 1228, Peixinhos, e serve, além de ponto de encontro para as reuniões da Noite Para os Tambores Silenciosos de Olinda, como base de apoio a outros grupos que precisem de uma assessoria jurídica para editais e contratações

Sobre a ligação religiosa do maracatu, o presidente do Maracambuco despista e tenta ser discreto sobre o assunto. “A minha sócia é católica e eu sou espírita. O zelador do maracatu sou eu, e sou filho de Iemanjá. Eu prezo muito pela privacidade em relação a isso. Quem chega aqui sabe que tem que respeitar. Eu respeito a religião do próximo, mas eles sabem que aqui tem que acender uma velinha pra Iemanjá, porque ela é nossa mãe”, conta ele, que revelou ter esperado a chegada da sua calunga, feita pelo Mestre Roberto, para fazer o primeiro cortejo em 1998.

Elo com Peixinhos - Desde sua gênese, mas com ainda mais força a partir dos anos 2000, o Maracambuco atua durante todo o ano oferecendo no bairro oficinas de percussão e danças populares para jovens da região. Além das aulas, os participantes podem participar dos cortejos do maracatu, dependendo do comportamento e da regularidade nos ensaios.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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“O maracatu pra mim é isso. Não é só arte e espiritual. Eu prezo muito pelo social, é algo importante dentro do trabalho”, reforça Nilo Oliveira

“O maracatu pra mim é isso. Não é só arte e espiritual. Eu prezo muito pelo social, é algo importante dentro do trabalho”, reforça Nilo, detalhando que os encontros acontecem toda quinta-feira, das 18h às 19h30. “São oficinas de percussão e danças populares, e quem quiser participar deve nos procurar porque existe um cadastro. Se for menor de idade, precisa de autorização de um responsável, apresentar a frequência da escola e ter um bom comportamento. É ainda onde entra a parte espiritual. Iemanjá é mãe e quer saber como os filhos estão. Não adianta ser bonzinho aqui e lá fora não, e isso vai acabar repercutindo contra todo mundo“, explica o presidente do maracatu, enquanto que do lado de fora da sede do Maracambuco cerca de vinte jovens se preparavam para começar um ensaio.

“Uma das bases da cultura é o envolvimento com a comunidade, não vejo de outra forma. Às vezes os meninos chegam aqui e me pedem um padrão de time de futebol pra eles jogarem bola, e a gente investe nisso. E vou lá assisti-los, porque ali é uma extensão do maracatu”, pontua Nilo, explicando que o Maracambuco reserva uma parte do seu orçamento para patrocinar eventos esportivos dos jovens que participam do grupo. “Eu gosto que os meninos estejam bem vestidos. Eles tem blusão, esquente, tudo que vocês imaginarem. Adoro padronização e aprendi isso com o pessoal do Olodum. Você chega lá na Bahia e eles são completamente organizados neste sentido, conseguem sobreviver com a renda de um trabalho sem depender tanto da iniciativa pública”, opina.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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“Não gosto quando chamam eles de vulneráveis. Eles são artistas também. Sabem tocar de um jeito que deixa muitos de queixo caído”, ressalta o presidente do grupo

Uma das ordens dentro deste maracatu é que os integrantes não podem usar nenhum instrumento que não seja do grupo. “Na verdade, eles trazem nada. Aqui eles só recebem. Ainda tem um pagamento pra cada um, como artista. Fora isso tem a alimentação, estrutura, todas essas coisas. É um incentivo pra que eles vejam que a cultura é também uma profissão. Queria poder dar mais, mas tem que dividir bem pra quantia sobrar pra todo mundo”, revela Nilo. “Não gosto quando chamam eles de vulneráveis. Eles são artistas também. Sabem tocar de um jeito que deixa muitos de queixo caído”, ressalta. Ao todo, 146 pessoas fazem parte do grupo, entre dançarinos e percussionistas.

Dentro desta lógica de disciplina e respeito ao grupo, 60 jovens foram selecionados para participar de uma confraternização no próximo domingo (10), numa chácara em Aldeia. “Vamos ter uma programação com brincadeiras, gincanas, bingo, um monte de coisas, e a ideia é fazer com que quem não foi, fique em casa querendo muito ir na próxima vez”, conta Nilo. Ainda em junho, segundo ele, o grupo entra num ritmo de ensaios preparativos para eventos como o Festival de Inverno de Garanhuns (o Maracambuco é uma das atrações que passaram pela habilitação artística do Festival e pode ser contratado).

Jan Ribeiro/Secult-PE

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Os ensaios abertos ao público do Maracambuco acontecem sempre às quintas-feiras, a partir das 18h, na sede do grupo

Uma das mais recentes apresentações públicas do grupo foi durante a última Noite para os Tambores Silenciosos em Olinda, evento realizado há 18 anos com apoio da Fundarpe e que, segundo Nilo, as reuniões de organização acontecem na sede do Maracambuco. “Juntar maracatus antigos e novos é um processo complexo, mas somos transparentes, e acho que é isso que fez a gente ser reconhecido. Além deste trabalho, muitos grupos vêm até nós para tirar certidões, e a gente dá toda a assistência e assessoria nessa parte jurídica. E por que eu faço isso? Porque se um grupo desses cair, a gente cai juntos. Não foi à toa, por exemplo, que indicamos alguns maracatus para também receberem o prêmio da Ordem de Mérito Cultural, através do MinC”.

Outros títulos que o Maracambuco recebeu foram o Troféu Abebé de Prata Mãe Dadá, em 2015; Troféu Cabeça de Galo em 2013, 2014, 2015, 2016 e 2017; Titulo de Cidadão de Olinda em 2007, dedicado ao presidente do Maracambuco; e a Homenagem do Carnaval 2014 de Olinda.

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