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Cultura popular e artesanato

Maracatu, palavra feminina

Mulheres mudam história da brincadeira mais famosa da Zona da Mata

Por: Chico Ludermir

Chico Ludermir

Há oito anos Givanilda Maria da Silva mudou uma tradição e, num universo onde era vedada a participação de mulheres, virou mestra. Desde 2004, por acasos da vida, Mestra Gil está à frente do Coração Nazareno, único maracatu rural feminino de que se tem notícia até hoje.

Por acasos da vida, porque tudo aconteceu muito tarde, quando nem mais ela mesma acreditava que seria possível. Aos 35 anos, depois de cinco filhos criados, ouviu falar de um maracatu, em criação, com caboclas de lança mulheres, o que pro imaginário da brincadeira, chegava a ser revolucionário.

“Então eu vou lá e vou brincar de cabocla, que era meu sonho”, disse ela. Mas, quando chegou lá não tinha mais vaga pra carregar o surrão (sinos) nas costas. Só tinha vaga para bandeirista. “Mas rapaz, que sina. Eu doida pra brincar de cabocla, vou brincar de bandeirista. Mas eu vou querer mesmo assim”, persistiu.

Certo dia, a bandeirista chegou cansada na sede do maracatu e correu pro banho. Sem saber que estava sendo escutada, começou a cantar uma toada do mestre João Paulo, do Leão Misterioso, que dizia:

“Em Nazaré, na cultura
ninguém quebra seu tabu
porque já é batizada
terra do maracatu”
Mas acabou emendando uma versão:

“E Amunam, na cultura
ninguém quebra seu tabu
que Eliane Rodrigues
fez um lindo maracatu”

Aí todo mundo gostou! E foi um rebuliço. “Próximo ano é ela que vai ser a mestra. Ela sabe cantar”, diziam. Aí juntou o pessoal. Xoxa, Mariinha, Marinalva…, “agitando” para Gil ser a mestra.

“Eu disse ‘eu não vou’, porque eu não sei cantar”, lembra de sua insegurança. Aí as meninas diziam: “Dá pra você cantar”. “Dá, não dou, dá não dou. Foi aquela cachorrada”, brinca, soltando uma gargalhada, repetida diversas vezes durante a narração.

A Amunam que Mestra Gil cantou é a Associação de Mulheres de Nazaré da Mata, criada em 1988, por Eliane Rodrigues, para tratar de questões do gênero, como violência e educação sexual. Foi de lá que surgiu, há oito anos, a ideia de quebrar o tabu da participação da mulher no maracatu rural.

O espaço destinado às mulheres no baque solto, tradicionalmente, era a cozinha. Mesmo as baianas, no começo, eram homens fantasiados. “Até a criação do Coração Nazareno, só sabemos de uma cabocla de lança. O maracatu de baque solto era um ambiente muito masculino e por isso é uma quebra de paradigma poder tirar a mulher deste lugar”, conta Rosângela Lima, 26 anos, educadora da Amunan. “As mulheres crescem ouvindo que mulher não pode isso, não pode aquilo, mas elas vieram para mostrar que podem, sim”, se orgulha.

Marinalva Freitas, com 49 anos, é a cabocla mais velha do grupo. Com dois tios caboclos, nunca tinha tido oportunidade de brincar e conta que morreu de medo que o maracatu feminino fosse rejeitado. “Disse pro meu marido e ele nem acreditou”, lembra. “Tu vai aguentar?”, perguntou ele. Faz sete anos que ela dá a mesma resposta.

No caso da Mestra Gil, o maracatu trouxe ainda outra novidade. Enquanto aprendia a fazer marcha, samba e galope (toques), com outros mestres, conheceu mestre Zé Duda, do Estrela de Ouro, com quem é casada há cinco anos. Além de companheiro, foi ele, um dos poucos que deixou de lado o preconceito e aceitou passar o que sabia para as mulheres.

Hoje em dia, a mestra tem reconhecimento Brasil afora. Já ganhou prêmio no Rio de Janeiro, foi aplaudida de pé em Brasília e, em Goiana, integrantes de outro maracatu se declaram seus fãs.

“Não vou dizer que me orgulho, não, mas eu me sinto muito feliz. Estou representando todas as mulheres do Brasil. Represento minha mãe e outras mães”, conta com humildade. “Estou honrada em poder cantar maracatu e mostrar que mulher também é capaz. Só me faltava um empurrãozinho para provar que mulher pode ser tudo, inclusive mestra de maracatu”, se alegra Gil.

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