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Cultura popular e artesanato

Nação Porto Rico no baque das ondas

Maracatu centenário tem história de resistência, mas não se prende ao passado. Pelo contrário: constrói um futuro promissor para a tradição dos reis e rainhas do Congo.

Cristiana Dias/Secult-PE

Cristiana Dias/Secult-PE

Centenário, o Nação Porto Rico é um dos homenageados do Carnaval do Recife 2016

por Michelle de Assumpção

Consciente do que precisa permanecer e sem amarras para transformar aquilo que pode ser mudado, os maracatus do Recife – símbolo da identidade pernambucana, ao lado do frevo – têm no carnaval a apoteose de suas práticas seculares. Vem de meados do século XVIII a tradição de se coroar negras e negros africanos trazidos ao Brasil, na cerimônia conhecida como “a coroação de reis e rainhas do congo”. Vem daí a criação do maracatu, tal como o conhecemos hoje. “O nome foi dado pelos brancos, pelos governantes, porque tinha um sentido pejorativo, de bagunça, de reunião de negros”, comenta o mestre Chacon Viana, responsável pelo batuque de uma das nações mais antigas de Pernambuco, a Nação Porto Rico, que neste carnaval completa 100 anos de história e, por isto, é homenageada da folia de momo recifense.

O Maracatu Porto Rico tem um histórico de resistência, de idas e vindas, surgimento e desaparecimento sucessivos. Sua fundação oficial em livro de registro data de 17 de setembro 1916, na cidade de Palmares, Mata Sul de Pernambuco. Era liderado por Chico de Itá, que foi rei da nação e era remanescente do Quilombo dos Palmares. Por falta de incentivo, a Nação entrou em declínio, reaparecendo sob a tutela de Zé da Ferida, em Recife, no bairro de Água Fria, com o apoio de Pereira da Costa e da Comissão Organizadora do Carnaval.

Divulgação

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Mestre Chacon Viana lidera a tradição

“No livro de Guerra Peixe encontramos que na época eram usados ‘mulungus’, instrumentos semelhantes ao atabaque, ao invés de zabumbas”, conta mestre Chacon que, depois que passou a liderar o Porto Rico, resgatou os atabaques para formação do seu grupo de batuqueiros, o que não era comum de se ouvir nos maracatus contemporâneos do Recife. Foi inclusive criticado por outros maracatus antigos, que defendiam que tradição não poderia ser mexida. “A fundação do maracatu começou com os instrumentos do terreiro indo às ruas, maracatu é o candomblé nas ruas. No princípio não existiam também alfaias. Os ogãs iam pra rua com os atabaques. Era o cortejo dos reis negros. Isso era chamado de maracatu, que é uma palavra pejorativa, foram os brancos, o povo da cidade, do governo que chamou assim”, explica Chacon. E foi assim que ele recriou, no Porto Rico, a tradição sonora dos tambores tocados com as mãos.

BAQUE DAS ONDAS – Cada maracatu tem seu baque característico. O da Nação Porto Rico é o baque das ondas. Foi batizado assim pela babalorixá e rainha Elda Viana. O nome vem da cadência mais lenta dos seus tambores. Chacon credita à Elda, sua mãe, também o espírito renovador do grupo. “Minha mãe, na década de 80, foi a primeira a colocar a corte mirim. Depois criou armação para as saias das baianas, ninguém fazia. Ela foi muito criativa e eu sigo a mesma coisa. Porto Rico hoje não tem loas, tem músicas. Loa é mais curta, as nossas são músicas”, diferencia ele, que é o compositor do grupo. Este ano, a música do Porto Rico faz homenagem a rainha Elda:

O Centenário de Lutas e de Glórias

Ela que foi coroada
Na igreja do rosário dos pretos
Mãe Elda é nossa rainha, nossa majestade, merece respeito
Em sua coroa carrega
100 anos de tradição
Com a força do seu pai Oxossi
Mãe Elda guerreira, de espada na mão
Centenário de luta e de glória,
Porto Rico nação de valor
Mãe Elda rainha, com seu manto cobre
O axé da Nação Nagô

Na década de 50, após a morte de Zé da Ferida, o Porto Rico chegou a ser recolhido ao museu. No final dos anos 60, foi resgatado e voltou às ruas do Recife, desta vez, organizado pelo mestre e babalorixá Eudes Chagas – com o apoio do lendário mestre Luiz de França e Veludinho (o mais antigo batuqueiro de maracatu de Recife).

Em 1978, com a morte de Eudes, mais uma vez o maracatu retorna ao museu, ressurgindo em 1980. Foi quando houve a coroação da última rainha coroada dentro da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos: a ialorixá Elda Viana. Depois, este tipo de cerimônia, dentro da igreja, foi proibida pelo Vaticano por causa da sua ligação com o candomblé.

PONTO DE CULTURA – A Nação do Maracatu Porto Rico está, desde 1980, na Macaia do Oxóssi, no Bairro do Pina, à Rua Eurico Vitrúvio, 483. O compromisso social e a solidariedade que marcam as atividades de nações de maracatu dentro de suas comunidades transformaram o Porto Rico, no ano de 2011, em Ponto de Cultura. O grupo fortalece seu viés educacional e formativo através de oficinas de corte e costura, adereços, confecção de instrumentos, dança, baque, edição de imagens, além de um constante trabalho de intercâmbio musical. “A comunidade é muito forte, promovemos uma troca com grupos de outros lugares e países, que estimula os mais jovens a quererem permanecer e colaborar, promovendo a sustentabilidade e o surgimento de outros grupos”, explica Chacon.

Clara Gouvea/Secult-PE

No Porto Rico não existe essa preocupação – que se manifesta em outros grupos – de que um dia a manifestação pode acabar, pois não haverá descendentes que queiram dar continuidade. Pelo contrário. Mestre Chacon conta que recebe ajuda dos governos, mas não depende disso. “Sempre trazemos grandes projetos aqui pra dentro, oficinas, a Noite do Dendê (mês de setembro), levamos o grupo para projetos em outros estados, com palestras, oficinas, workshop, participamos o ano todo de editais. Corremos atrás dos recursos”, relata.

O intercâmbio cultural do Nação Porto Rico tem sido a base de criação artística para novas formas de expressão musical, em outros estados e países. No grupo, não existe o debate (polêmico) de se pode, ou não, chamar de “maracatu” os novos conjuntos percussivos. “Eles são maracatus sim. Não são uma nação, mas são grupos percussivos de maracatu”, defende Chacon, ele mesmo, fundador de dezenas de novos maracatus Brasil adentro e afora. Esses novatos carregam consigo o modelo padrão dos maracatus que conhecemos – instrumentos, batuques, personagens e até mesmo o culto e as obrigações aos orixás – mas seguem livremente com seus próprios sotaques.

Chacon contabiliza em torno de cinquenta grupos que constantemente estão vindo estudar com o Porto Rico. A contribuição já proporcionou a formação de maracatus no Canadá, Japão, França (Paris e Nantes), um em Hamburgo. Dentro de Pernambuco, eles creditam ao Porto Rico a formação do Afro Batuque (Floresta), de um grupo em Arcoverde, dos recifenses Axé da Ilha, Várzea do Capibaripe, Maracatu Atômico, Quebra Baque e o Baque Mulher. Também existem formações no interior de São Paulo: Quioa (Santos), Navegantes (Ribeirão), Pedra de Raio (Ribeirão Preto) e Maracatucá (Campinas). No Rio de Janeiro foram responsáveis pela fundação do Baques do Pina e Palmeira Imperial. Em Cuiabá, o Buriti Nagô também é “filho” do Porto Rico. Tem mais batuques em Londrina (Sementes de Angola), Porto Alegre (Maracatu Trovão), entre outros que vão perdendo a conta.

Ainda segundo Chacon, a dinâmica da formação é parecida. Os percussionistas interessados em maracatu vêm pro Carnaval, estudam o baque, a formação, as músicas, a religião, desfilam no Carnaval. Ao longo do ano, ele e outros batuqueiros também visitam a cidade dos que vieram e, assim, os grupos vão sendo formados. Além de tocar, os novos percussionistas também fazem obrigações religiosas no Ilê Axé Oxossi Guangoubira, que é a sede do Porto Rico. “São todos filhos do axé, estudam, cultuam, faço questão que eles assumam a religiosidade, maracatu e religião é uma coisa só”, define. “Eu costumo dizer nas minhas palestras que maracatu não é uma manifestação popular, é uma manifestação candomblecista”, completa.

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