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Cultura popular e artesanato

No rastro dos estalos

Triunfenses revelam rico mistério que ronda a figura dos caretas

Ricardo Moura

As ruas de paralelepípedo de Triunfo, cercadas por casarios antigos e históricos, são a trilha de muitos caretas durante os dias de Carnaval. O chão sofre com pisadas, pulos e estalos dos relhos, mas com a folia carnavalesca e a alegria dos foliões, caretas e apreciadores desta festa genuinamente triunfense, quase não conseguem ver a pavimentação histórica que percorre a cidade.

Localizada no Sertão de Pernambuco, a cidade possui apenas 15 mil habitantes, mas esta população multiplica de tal maneira que durante os quatro dias de Momo, mais de 100 mil pessoas circulam pelo município, encantando-se com a Terra dos Caretas.

O careta é essa figura colorida de chapéu estruturado, de onde saem longas fitas de cetim. Acompanhada sempre por um relho (chicote) na mão, o personagem é cheio de mistérios, a começar pela sua indumentária.

Começamos pelo relho, acessório indispensável ao mascarado. Para entendermos um pouco da história desse instrumento, conversamos com Seu Quadrado, ou Arnaldo Antônio da Silva, de 63 anos. Há mais de 30 ele confecciona relhos. “Eu gosto dos caretas, porque é uma animação. É uma tradição que a gente tem aqui todos os anos e se não tiver o relho pra eles, não tem nada. Se sair o camarada mascarado e não tiver o relho para dar um estalo, não tem careta”, comenta o artesão. Mesmo diante da deficiência visual que veio logo cedo, desde criança, ele não encontra obstáculos para fazer seus chicotes.

“Desde pequeno eu faço esse trabalho e quando eu fazia, era para brincar. Depois eu levei a sério, comecei a fazer relhos em corda de agave. Aí apareceu o relho de couro e depois passamos a fazer com corda de cera”, descreve Seu Quadrado. Mas quando indagado se ele se contentou apenas em fazer relhos, o mestre falou que por muitos anos, também saiu de careta pelas ladeiras de Triunfo. Uma das boas lembranças que tem desta época são as brincadeiras. “Quando eu brincava de careta, a gente chateava os caretas, chamando eles de perna manca, essas coisas. E não dava noutra, eles corriam atrás da gente dando lapada com seus relhos e a gente subia nas escadarias das casas por aí com tudo”, fala Seu Quadrado, entre risos constantes.

A alegria com que Seu Quadrado faz os relhos e as tabuletas – plaquinhas que também compõem a fantasia com dizeres populares criados por eles – é contagiante. Percebe-se claramente que a cultura dos caretas é forte e vive intimamente no cotidiano dele e de sua família. Assim como Seu Quadrado, outros moradores de Triunfo também trabalham para que a cultura popular não se desgaste com o tempo e as mudanças culturais. O careta (e artesão) Nino Abraão, 40 anos, é um deles. Há dez anos ele mantém uma oficina e é responsável pela Treca Alto Astral. “A gente, desde o início, tem o trabalho de base com crianças e não existe outro modo de manter a cultura viva, porque estas crianças vão ser o que vai nos substituir e dar continuidade a esta história”, enfatiza Nino.

Como manda o costume, as trecas se reúnem todos os anos para confeccionar suas indumentárias, colaborando para que cada um dos integrantes possa ajudar o outro e, o principal, manter acesa a chama do mistério que circunda a figura do careta. “Os caretas usam essa indumentária colorida, com calça, camisa, máscara, chapéu, botas e luvas, para se esconder durante a brincadeira. Até a voz o careta disfarça para que ninguém o reconheça, porque se a identidade do careta for relevada, perdeu-se o carnaval”, fala o careta Nino Abraão.

AS MULHERES

Uma brincadeira que exige fôlego do brincante, além de força para poder relhar ladeiras abaixo de Triunfo, soa como uma tradição apenas masculina, mas não é. Em 1975, Fátima Dantas quebrou o reinado dos homens, ainda criança, e abriu caminho para as mulheres participarem da brincadeira. “Meus irmãos sempre foram caretas, é uma tradição de família na qual eu sempre quis participar, mas que me era negada, porque diziam ser uma brincadeira só de homens. Foi aí que, outro dia, um deles da treca faltou e eu fui. Aproveitei o traje, inclusive a tabuleta, e me vesti. Meus irmãos ainda queriam me proibir de sair, mas outros integrantes da treca os convenceram a me deixar entrar”, disse a careta, que mesmo ainda não sabendo relhar, foi pra rua e continua indo até hoje, durante o Carnaval.

A mãe de Fátima, Dona Expedita, foi, aliás, a primeira e única mulher a fazer máscaras para os caretas. Devido ao Mal de Parkinson, suas mãos tiveram que abandonar o ofício. Sua técnica era diferente, com molde de madeira. Ela fazia as máscaras e o marido pintava. “Os caretas de antes saíam sempre com a pior roupa que tinham. Hoje, não. Os caretas de Triunfo são lordes”, compara Dona Expedita, de 86 anos.

A participação das mulheres no Carnaval dos caretas de Triunfo não fica por aí. Maria da Penha é um exemplo desta tradição familiar, que coloca os caretas como seu grande legado. “Meu pai, Mestre Zuza, foi um dos fundadores dos caretas de Triunfo e foi por conta disso que desde meus 14 anos aprendi com minha mãe a costurar as roupas dos caretas. Antes era só uma brincadeira da família, mas hoje virou meu ganha-pão. Além de gostar do que faço, virou meu meio de vida”, fala a costureira, que costuma ter sua sala cheia de panos coloridos, linha e paetês, enquanto exerce uma das atividades que mais lhe dá prazer na vida.

Durante a viagem que fizemos a Triunfo para mergulhar um pouco neste universo que circunda os caretas, também conhecemos o ex-careta Ednaldo Magalhães, de 74 anos. E foi ao som dos estalos dos relhos da Treca Alto Astral que descia a ladeira da igreja da cidade que Ednaldo falou dos tempos em que brincava: “Fui careta até não aguentar mais, gostava muito de me vestir e sair com o grupo do Alto da Boa Vista a estalar relhos por aí. Lembro-me que marcávamos para no Carnaval nos encontrarmos com o grupo da Borborema, para trocar relhadas.”, acrescenta o ex-careta, ao revelar que antigamente as trecas mantinham a tradição de se confrontarem.

A HISTÓRIA

Toda a magia que vela a história dos caretas se deve à sua origem no reisado, com a figura do Mateus. O careta Nino Abraão conta a história popular que marca o nascimento dessa figura: “Certa vez tinha uma apresentação na rua durante o reisado e Mateus estava muito empolgado. Já na prévia ele começou a encher a cara, aí então quando chegou na rua, ele já não tinha condições. Acabou sendo expulso e saiu brincando pelas ruas. Foi então que ele pegou um chicote de mangalheiro (usado para conduzir os animais) e continuou a andar brincando pelas ruas, tomando umas e outras. Aí os jovens da época tiveram a ideia de se fantasiar deste personagem durante o Carnaval”. Pelos ditos populares, foi assim que nasceu o careta, essa figura típica do Carnaval triunfense cuja história, imersa entre o sagrado e o profano, ainda guarda muitos mistérios.

 

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