Pular a navegação e ir direto para o conteúdo

O que você procura?
Newsletter

Cultura popular e artesanato

O caboclo Zé de Carro

E o sentido dessa “brincadeira” chamada maracatu

Por: Chico Ludermir

Chico Ludermir

Quando Zé de Carro começou a sambar maracatu, tinha só 15 anos. Mas já era um sonho antigo, que tinha sido diversas vezes tolhido pelo pai. Nascido e criado no Engenho Gambá, em Tracunhaém, na Zona da Mata, Zé via todos os homens da família brincando com uma ansiedade sem tamanho.

Caboclo de lança experiente, o feitor do mato Mané de Carro sabia que a brincadeira era violenta demais para uma criança e segurou a vontade do filho até que ele virasse homem. “Logo mais chega a sua oportunidade”, dizia.

Meses antes do Carnaval de 1969, Zé começou a observar que seu pai estava criando alguns animais para vender. Com o dinheiro, pouco a pouco, ia comprando os acessórios de duas fantasias. Num certo dia, quando o menino já não segurava mais de curiosidade para saber se a segunda fantasia era dele ou do irmão mais velho, o pai disse: “Este ano tu vai brincar comigo”.

O menino não se aguentou. Depois de ter colhido as rações dos animais, ficou tão contente que deu um abraço e um beijo no pai, bem durão. Era o que ele mais queria, brincar maracatu. Até chegar o Carnaval, Zé não largava o pé de Mané.

Quando chegou a sexta-feira, o pai preparou o banho pro filho e pediu para que, depois da água limpa, se molhasse com a água “preparada” e não se enxugasse. Zé fez tudo precisamente como o pai mandou. Tomou banho e não se enxugou, colocou o “celorão” (meião que fica por baixo da roupa), a fofa (bermuda colorida com franja) e a camisa, que foi cuidadosamente abotoada pelo pai. Colocou também o surrão nas costas (os sinos) e depois, com a tinta vermelha da semente seca de azacão, teve o rosto pintado por Mané. O cravo, “preparado” por um pai de santo, foi trazido embrulhado em um lenço branco para que ficasse macio e verde até o fim da brincadeira. “Ele mandou que eu saísse primeiro. Disse pra eu colocar o pé direito na frente. Depois ele saiu, fez a exibição na frente de casa. Nos juntamos e ganhamos o mundo”.

Zé lembra como se fosse hoje, mesmo depois dos 44 anos que se passaram. Naquele ano, assim como em vários outros que se sucederam, foi com o pai se apresentar nos engenhos vizinhos até a hora que chegava o transporte do Maracatu Cambindinha. Três dias de brincadeira, como manda a tradição. Domingo, segunda, terça e voltar pra casa ainda batendo sino.

Andou por muitos sítios respondendo as loas tiradas pelo mestre. O dinheiro o povo botava na bandeira. Cinco mil réis, dez mil réis, que eram contados na frente de todos. De comida, uns peixinhos miúdos chamados cambindas, que eram comidos misturados com farinha e sal. “A gente comia e brincava satisfeito. Brincava por amor. E hoje, esse tempo todo depois, continuo brincando maracatu, com orgulho”, conta Zé.

O tempo em que Zé virou caboclo de lança foi o mesmo em que o pai começou a mandá-lo pra palha da cana. Como o trabalho era muito pesado, arrumou suas malas silenciosamente e fugiu pra Olinda. “Quando pai foi trabalhar, eu recolhi a ração, peguei uma bolsa e fui embora. Nem avisei. Naquela época era ‘couro’, mesmo. Aí eu saí escondido. Quando ele chegou em casa, teve uma grande surpresa. Porque eu só ia voltar pra fazer visita”, lembra.

Em Olinda, Zé trabalhou como pedreiro no começo, depois em empresa de ônibus e, em seguida, numa firma de revestimentos, durante 17 anos. Mas não tinha um ano sequer que não ia pra Nazaré da Mata brincar Carnaval.

Aos 59 anos, Zé se prepara para o seu 44º ano de surrão nas costas. Muita coisa mudou desde que o menino brincou pela primeira vez. O maracatu ganhou a cidade, ficou mais enfeitado. As mulheres passaram a participar e a tradição de violência deu lugar ao maracatu como expressão artística.

Ele já é aposentado por motivo de saúde. Tem gastrite, úlcera, fez uma cirurgia de retirado do baço, tem diabetes e problema de fígado. “Eu sou impedido de fazer esforço. Mas o maracatu não é trabalho…”. Hoje ele também não precisa mais fugir da firma para brincar Carnaval, como fazia…

Nesse cenário, Zé de Carro herdou de João de Padre, em 1991, o mais antigo maracatu de baque solto. “Fiz um trato com o dono de que levaria o maracatu até a morte. Antes de ele morrer, ele me confiou essa responsabilidade”. Fundado em 5 de janeiro de 1918, o Cambinda Brasileira é a maior paixão de Zé.

Desde então, se esforça para manter o bloco erguido. Ao lado da mulher, Lúcia, administra as fantasias, a banda e os brincantes, para que tudo corra perfeitamente. Já está quase tudo pronto para a abertura do Carnaval do Cambinda Brasileira, que há quase cem anos acontece, no domingo, no Engenho Cumbe, zona rural de Nazaré da Mata. É lá onde seu Zé espera todos os componentes chegarem.

De lá, os 180 integrantes do grupo vão, em três ônibus e dois caminhões, se apresentar no Marco Zero, no Recife. E será mais um chance para Zé realizar seu maior sonho: ter seu maracatu como campeão do grupo especial do Carnaval. “Eu queria parar de brincar maracatu com esse prazer”, confessa. “Sentiria ainda mais orgulho por ser frenteiro da Cambinda.”

< voltar para home