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Cultura popular e artesanato

O passado e o futuro do Cambinda Brasileira

Uma história de mais de um século de compromisso com a brincadeira e com o povo da Mata Norte pernambucana

PH Reinaux / Secult PE – Fundarpe

PH Reinaux / Secult PE – Fundarpe

Grupo em sua sede, no Engenho Cumbe, em Nazaré da Mata

Michelle de Assumpção

Era a primeira década do século 20, nas terras de Nazaré da Mata, com o povo quase passando fome pela falta de chuva e trabalhos. Depois chegou um inverno rigoroso e as chuvas fizeram transbordar o rio, atraindo os moradores para o pescado. Por muito tempo, o povo comeu cambinda. Um peixe pequeno que só dá em água doce. Um dia, de tanto comer cambinda, algum morador da localidade deu a ideia: vamos formar um maracatu e ele terá o nome de Cambinda Nova. E assim ficou sendo chamado, enquanto pertenceu aos seus primeiros donos. Severino Lotero, além de dono, era o mestre. Quando ele abandonou, seu primo, João Fulosino, pegou o apito e também tomou conta do brinquedo. Passou então para João Lauro, seu cunhado.  João Lauro também não aguentou por muito tempo a responsabilidade e, então, o maracatu chegou nas mãos de João Estevão da Silva, o João Padre.

Contam que foi um desentendimento que fez o maracatu sair das mãos de João Lauro e ir pros cuidados de João Padre. Tanto é que Padre tirou o maracatu de Chã de Cazumbá, localizado no entorno do Engenho Cumbe, e o levou para dentro do Engenho, onde trabalhava no corte da cana. Ali, pediu permissão a Dona Rosinha Borba, matriarca da família, dona das terras todas. Antes de liberar a brincadeira, ela fez uma exigência: que o maracatu se chamasse Cambinda Brasileira, numa reverência à pátria. Foi Dona Rosinha que deu a primeira bandeira (o equivalente ao estandarte, em outras expressões) ao Cambinda Brasileira. E naquele mesmo ano, em 1918, o maracatu saiu pelas terras do Cumbe, em pleno domingo de Carnaval.

A primeira apresentação foi para a família de Dona Rosinha, depois o maracatu ganhou outras terras da Mata pernambucana. Era como se brincava no início: nos engenhos, no meio do canavial. Com os personagens que até hoje foram preservados: Catita, Mateu, Burra, Baianas (no começo, homens vestidos de baianas. Hoje as mulheres já brincam), Arreiama, Caboclos de guiada (lança) e o mestre, a tirar os versos na hora. O conjunto é o terno, formado por mineiro, porca (espécie de cuíca), gonguê, caixa e bombo. A Catita corria na frente, abrindo caminho, pedindo permissão pro dono da casa deixar o maracatu brincar. Permissão concedida, o maracatu entrava o engenho e fazia a festa dos moradores. Ali, os folgazões podiam receber comida, bebidas, e era só.

Para viabilizar a saída do maracatu, fazer as fantasias, instrumentos, pagar transporte, João Padre dava um jeito. Vendia bichos da sua criação (bode, porco, galinha), e passava o Livro de Ouro na vizinhança. Os moradores e donos de Engenho sempre doavam algum dinheirinho, que nunca dava para o gasto, mas que sempre foi, e continua sendo, muito grande. E foi assim, criando cinco filhos, que João Padre conseguiu manter o maracatu por cinco décadas, até cair doente e fazer, em seu leito de morte, os filhos lhe prometerem que o folguedo não iria se acabar.

Em janeiro de 2020, o Cambinda estava pronto para mais um Carnaval. Além da subvenção do Governo do Estado, o grupo pode contar agora com os recursos da bolsa mensal de Patrimônio Vivo – titulação recebida no concurso de 2019. O maracatu também começa a se exercitar no turismo cultural mais uma prática para sua sustentabilidade.

Em fevereiro, antes do Carnaval, dois ônibus cheios de turistas desembarcaram na sede do maracatu, no Engenho Cumbe, para assistir a uma apresentação exclusiva. Os visitantes quase derretiam com o calor e seus olhos brilhavam de encantamento. Sacavam máquinas e celulares para deixar tudo devidamente registrado. Familiares dos atuais dirigentes venderam água, cerveja e alguns salgados. Ainda não foi possível, mas está nos planos a compra de uma máquina de moer cana, para vender o caldo, com bolos e outros quitutes.

PH Reinaux / Secult PE – Fundarpe

PH Reinaux / Secult PE – Fundarpe

Em 2019, o Cambinda Brasileira foi eleito Patrimônio Vivo de Pernambuco

PATRIMÔNIO VIVO – Edilamar Lopes é a atual presidente do Cambinda. Nunca imaginou tal posto. Primeiro, por ser uma mulher, depois, pelo fato de ser, o maracatu, uma sociedade um tanto fechada, cujos cargos de liderança são geralmente confiados a pessoas da família. Edilamar, no entanto, tornou-se um membro de extrema confiança. Foi ela que, em 2005, elaborou e aprovou um projeto para transformar o Cambinda Brasileira num Ponto de Cultura. Sua força ao grupo continuou com Edilamar à frente da ecretaria de Cultura de Nazaré da Mata.  Em 2019, a gestora foi a responsável pelo projeto inscrito da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – Fundarpe, que deu ao grupo o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco.

Geógrafa com especialização em Turismo, Edilamar tenta agora uma gestão que, para além de considerar os aspectos simbólicos presentes na expressão, e na tradição do Cambinda, também estimule e incentive sua dimensão econômica. “Hoje o grupo está conseguindo se estruturar na questão financeira, com toda diretoria, nas condições de estrutura física, com bar, banheiro. Estamos conseguindo fazer um trabalho voltado para sustentabilidade futura do grupo. Queremos fazer uma agenda a cada final de mês, com atividades, divulgar com as agências. Para fazer um trabalho voltado para o terreiro do maracatu, com uma renda para eles, através de um local com comidas e bebidas típicas, oficinas e apresentações”, planeja a diretora.

A entrada de pessoas com perfil técnico vai fazendo diferença na gestão do Cambinda. Numa segunda sede do maracatu, que fica na cidade, o grupo elabora projetos na área de gestão, informática, entre outros que dialogam com os moradores da comunidade. O longo tempo e a brincadeira ininterrupta contribuíram para a produção de um expressivo material de mídia em torno do Cambinda. O grupo tem livros, reportagens especiais em jornais, um perfil atualizado nas redes sociais, e um documentário que está sendo finalizado sobre sua história. Tudo isso fortalece a tradição.

“A política para os Patrimônios Vivos, desde quando foi desenhada, surgiu para que a representatividade dos grupos e mestres fosse estendida. É preciso que haja disseminação da informação sobre eles para que esse legado seja entendido e repassado. A ideia é a transmissão de conhecimento, para que ele alcance cada vez mais um número maior de pessoas. A bolsa favorece a manutenção cotidiana desse grupos, mas ela precisa ser conduzida, aproveitada. A gestão dessa política, na unidade em que trabalho, na Fundarpe, busca continuar em contato com os grupos para saber se eles continuam desenvolvendo atividades que cheguem às comunidades. A gente monitora e diagnostica, visitando esses territórios, percebendo possíveis complicadores e fomentando outras formas de mídia”, avalia o historiador Marcelo Renan, coordenador de Patrimônio Imaterial da Fundarpe.

Ele explica uma condição específica da lógica de funcionamento dos grupos de maracatu da Zona da Mata, que serve para uma reflexão importante sobre o funcionamento, a manutenção das atividades e a própria existência dos grupos. “As comunidades de maracatu no interior festejam muito e fazem de suas sedes pontos de convivência. Não é uma situação de existir apenas no evento. Eles não perderam a condição da brincadeira. Os grupos de maracatu de baque solto têm um nível de organização invejável. A associação deles, por exemplo, tem mais de 30 anos. Eles agregam, tanto coletivamente quando individualmente”, conta Marcelo.

De fato, numa sambada de maracatu de baque solto – eventos que eles promovem ao longo do ano, espécie de batalha de versos, que dura uma noite inteira – é comum que mestres e folgazões de grupos diferentes se encontrem e compartilhem da mesma festa. Mesmo morando em municípios diferentes, os brincantes frequentemente estão em contato um com o outro. É uma dinâmica que não é percebida, por exemplo, entre os brincantes do maracatu de baque virado, ou Nação, que são mais fechados para as atividades do seu próprio grupo, ficando quase que restritos aos períodos de Carnaval.

PH Reinaux / Secult PE – Fundarpe

PH Reinaux / Secult PE – Fundarpe

Mestre Veronildo é quem comanda as sambadas do Maracatu Cambinda Brasileira

MESTRE E RELIGIÃO – Existe uma rotatividade entre os mestres de um maracatu rural, o que retroalimenta a disputa – hoje pacífica e saudável – entre eles. Atualmente, o mestre de apito do Cambinda Brasileira é Veronildo, ele que comanda o terno e canta das loas, improvisa os versos. É a voz do maracatu. Ele conta que existe de fato um mercado de mestres de maracatu e o contrato firmado com o dono, ou a diretoria do grupo, é que define a relação.

“Muitos maracatus não cumprem o acordado, atrasam pagamento, isso faz com que a gente vá aceitando convite de outros. Eu mesmo já brinquei em dez maracatus, mas não gosto de ficar trocando. Mas tem diretoria que não se agrada, prefere pegar outro. Neste ano mesmo, eu fui convidado por três maracatus e me ofereceram até mais, mas não vou quebrar o contrato. Às vezes tem isso, oferecem mais e o mestre vai”, conta o mestre. Veronildo conta que pretende continuar muitos anos no Cambinda, grupo pelo qual já passaram grandes mestres. Só dos que Veronildo consegue recordar foram:  Antônio Paulo Sobrinho, Barachinha, Antônio Roberto, Zé Flor, Biu Passinho, Carlos Antônio, Mestre Anderson, Mestre Davi e Canário Voador.

Mas não é a decisão do mestre, de ficar ou não, que define o destino de um maracatu rural. Acima de tudo, quem define é a espiritualidade. Pois todo maracatu tem seu guia, que está presente desde a sua fundação. Mesmo que, por alguma dificuldade, passe um tempo sem sair ou se apresentar, o maracatu continua existindo, guardado no segredo de suas lideranças encantadas. No Cambinda Brasileira, a missão de guardar e proteger o grupo está com Dona Biu, que também é a costureira e a bordadeira do grupo, desde os tempos de João Padre.

PH Reinaux / Secult PE – Fundarpe

PH Reinaux / Secult PE – Fundarpe

Dona Biu, costureira e rezadeira do Cambinda, recebeu a função de João Padre, fundador do maracatu

“Quando começa janeiro, já começo os preceitos do maracatu. Cada ano tem uma mudança, porque cada ano é um santo. Esse ano quem domina é Iansã, a mulher do fogo, do trovão. Está muito agitado, está muito quente. Então, eu tento controlar, botar água, flores, ervas, manjericão, macassá, arruda. Isso traz força, força de paz. Eu saio, então, na calma, tenho controle. Quando chega um sujo no maracatu (que não fez as obrigações, nem guardou o corpo de sexo e bebida, antes do Carnaval), eu tiro, de corpo sujo não entra na agremiação. A agremiação está calçada com Jesus. Se chegar uma baiana, que fez uma coisa errada, quando chega dentro do maracatu, ela cai. Onde tem Deus, tem tudo, e a força primeiramente”, ensina Mãe Biu.

O que ela diz corrobora com a visão do historiador Marcelo Renan sobre o motivo de existir de um maracatu. “O maracatu não existe para se apresentar. Ele existe para a comunidade se organizar em torno dele. Ele não existe em função do palco. Maracatu Nação existe em função de um culto a uma entidade. Se o grupo quiser deixar de se apresentar em concursos, a religião vai dizer que o maracatu continua existindo. Essa dimensão simbólica não tem preço”, coloca Marcelo.

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