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Cultura popular e artesanato

Papando angu

O calor e a liberdade de ser um dos mascarados de Bezerros

Por: Chico Ludermir

Ricardo Moura

Nem bem amanhecia quando os primeiros papangus começaram a aparecer nas ruas de Bezerros, no Agreste. O dia de sol, depois de muita chuva, alimentava a disposição dos foliões que desfilavam suas máscaras e roupas. A 107 Km dali, eu acordava no Recife, pronto para virar também mais um desconhecido na multidão.

Cobri meu corpo inteiro com a cafta, túnica usada pelos brincantes. No rosto, uma máscara feita da mistura de papel machê com grude. Com a fantasia completa, estava irreconhecível e misturado a tantos outros, que preservam essa tradição. Subi e desci várias vezes as ladeiras da cidade. Ao som do frevo, o sol, que antes havia sido motivo de comemoração, já começava a castigar. Por debaixo da máscara sentia o suor pingando. Arrisco sentir o vento no rosto, mas sou imediatamente repreendido por um semelhante. “Não pode tirar a máscara!”, falou um papangu com voz visivelmente disfarçada. Essa me pareceu ser a única regra da brincadeira: manter o disfarce.

Ricardo Moura

Há mais de 100 anos, na zona rural de Bezerros a regra era a mesma. Alguns amigos se juntaram para sair mascarados e não serem reconhecidos pela família e pelos amigos. Para se manter escondido, valia tudo. As máscaras eram feitas de cabaça ou de papel de pão. O corpo era coberto com paletós, saias, meias. A fala e o andar também mudavam para manter o sigilo da identidade do brincante.

Nessa época, virou costume passar de casa em casa, onde eles comiam e bebiam de graça. Nas casas das famílias pobres, o que se servia era o angu acompanhado de carne de bode, boi ou galinha. Aos poucos, todos passaram a associar as visitas dos dias de Momo à comida de milho. “Chegaram os papa angu”, diziam as crianças. E assim foi ficando.

A tradição foi mantida e, ao lado da Igreja Matriz da cidade, encontro Mileide dos Santos Silva, de 45 anos, na Barraca do Angu. É ela que me explica como é feita a iguaria típica da festa: xerém, coco, leite de coco, manteiga e sal. “Fazer angu é uma tradição que eu aprendi desde pequena, com minha mãe e minha avó. Até hoje eles comem o angu para aguentar o rojão dos três dias de folia”. Como aquela papa e saio abastecido.

Na subida da prefeitura até a Praça São Sebastião, arquibancadas lotadas esperam as passagens dos blocos e observam as fantasias. De mansinho, vinha Solange Santos, de 52 anos. Quase não conseguia subir, tamanho era o assédio. Com a alegoria “Tradição é assim: do início à atualidade, o papangu é só felicidade”, todo mundo queria tirar foto com ela.

Desde os 15 anos, Solange confecciona suas fantasias e já ganhou, inclusive, mais de dez concursos de melhor figurino. Este ano, as cinco máscaras que ela exibe penduradas representam a evolução da brincadeira. “No começo, era papel de pão. Depois, foi pro papel misturado com grude. A minha atual (que ela usa no rosto) é feita de couro”, explica, se despedindo para ir a mais um concurso de melhor traje.

As ruas já estavam lotadas, quando vejo, de bengala, descer a ladeira, Luiz Gonzaga. Aos 64 anos, o senhor conhecido por Lula das Melindrosas brinca desde os sete. Junto com o filho, Fábio Brainer, de 36 e outros 15 amigos, está sempre presente e fantasiado nos carnavais da sua cidade. “A máscara faz você ficar escondido. A gente brinca e ninguém sabe quem somos. E assim a gente vai descendo e subindo…”. Lula é a prova viva da vontade de brincar Carnaval. Sem um dedo, por causa da diabetes e cego de um dos olhos, confessa: “Enquanto Deus me permitir andar, eu vou brincando”.

A essas alturas, eu também já estava sendo fotografado. Me sentia com uma liberdade sem tamanho. Sem rosto, me entreguei e me permiti ser apenas mais um. Depois de dançar o tradicional forró dos papangus, ao lado da Igreja matriz, achei que já podia voltar pro Recife. Suado e cansado, também voltava pra mim.

 

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