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Cultura popular e artesanato

Sem deixar a pretinha cair

Brincantes da Zona da Mata resistem como memória viva de uma tradição secular

Por: Chico Ludermir

Depois de uma hora e meia de viagem, saindo do Recife, chegamos a Goiana, na Zona da Mata Norte de Pernambuco. Nos encaminhamos para o Baldo do Rio, um bairro de casas pequenas, ribeirinhas onde, conta-se, surgiram as Pretinhas do Congo, em 1936. À beira do Rio Goiana, encontramos o senhor de olhar um pouco baixo, mas que não demora em soltar seu primeiro de muitos sorrisos. É ele que lembra que, aos 10 anos, viu de dentro de sua casa sair, pela última vez, um grupo de moças vestidas de preto, branco e vermelho, dançando ao som de uma percussão africana, relembrando a escravidão que, na época, ainda era muito recente na história daqueles negros.

Chico Ludermir

É verdade que as datas, os nomes e os lugares estão muito incertos nas lembranças de Edvaldo Ramos. Aos 75 anos, não é tão fácil precisar os fatos e, ao buscar na memória, Mestre Val sempre acaba se confundindo nas contas. Bem vivos na cabeça, no entanto, estão os resquícios de uma tradição popular, passada oralmente através de letras de músicas que são cantadas há quase um século.

Depois da morte de Mané de Pirrixiu, antigo mestre do bloco, passaram-se anos. As pretinhas “caíram”, como conta Mestre Val, mas a saudade da brincadeira ficou. Perto dos 18 anos de idade, junto ao irmão Lenildo, Val “levantou” o bloco e assim estão até hoje. “No começo, tinha ano que eu tinha até que vender minha canoa de pesca pra comprar as roupas e os bombos. Eu me virava, mas as pretinhas saíam na rua todo ano”, lembra, esacancarando o riso. “Se a gente faz pelas pretinhas, por amor, logo depois elas devolvem ainda melhor”.

Na casa que ele divide com Pelada, sua atual companheira, fica evidente a ligação com o candomblé, que ele também chama de jurema. Devoto do orixá dos trovões, Xangô, Mestre Val tem em sua sala uma coleção de imagens africanas, que se misturam com santos católicos, evidenciando o sincretismo religioso, comum nas nossas expressões populares. É lá que muitas vezes vão procurá-lo para que, com sua mão e sua fé, traga de volta a saúde dos doentes. Contando isso, ele me dá de presente um leite tirado, naquele dia, do peito de uma jumenta. “Este cura gastrite, úlcera, tuberculose. Só não pode tomar se tiver muito fraco, que cai duro no chão”, me diz, ao me oferecer um copo. “Até pro Hospital da Restauração mando esse leite”, se orgulha.

Mas é na casa de Dona Iraci, sua primeira esposa, que sentamos pra conversar. No final de uma casa cumprida, toda a família se reúne para compartilhar as vivências de um costume que é, claramente, passado de geração a geração. Atualmente, é a filha Rosa Maria dos Santos a presidente do bloco. Ela já foi bandeirista, escrava, baiana e pretinha na agremiação. Hoje é ela também que ajuda na confecção das fantasias e que comanda os ensaios dançados de uma brincadeira que pratica desde os 10 anos de idade. Quase meio século depois, ela garante que, quando seu pai se for, vai fazer de tudo pra perpetuar a dança das Pretinhas.

Ao som de cachorros, gatos, patos e galinhas, criados no quintal, Rosa, Dona Iraci e Mestre Val explicam, tintim por tintim, os personagens da brincadeira. E lá vem a lista: rei, rainha, vassalos, senhor e senhora de engenho, mucama, capitão do mato, baianas, bandeirista, escravos e escravas, numa evocação ao que acontecia na época em que Pernambuco mantinha os pés bem fincados na vida em volta da cana-de-açúcar, protagonista no cenário da Zona da Mata do estado.

Nenhum dos três aprendeu a ler. Viveram da pesca durante toda a vida. Fumando um cigarro enrolado na hora e um cachimbo, eles me contam, contudo, que a música não precisa ser escrita para que eles lembrem. “Quando eu penso que não, os espíritos dos escravos antigos cantam no meu ouvido. Aí no outro dia eu digo pros outros integrantes, que é pra eu não esquecer. A gente esquece uma e aparece outra tão diferente…”, conta Mestre Val, sem medo de ser desacredito. E emenda logo cantando uma toada:

“No tempo da escravidão
preto velho também trabalhou
assentado na sua senzala
Saravá, Ogum e saravá, Xangô
Bate nagô e bate macumba
Santo Antônio é de congo dançando macumba
ai senhor senhorzinho que aqui está
a corrente é pesada não posso arrastar
Lhe peço por Deus e por Nossa Senhora
livrai-me esta dor que está nessa hora”

“Os escravos cantavam. Eles incorporavam e cantavam. Aí o povo aprendia”, explica o mestre.

Na casa de Dona Iraci, os sete filhos foram criados com o dinheiro da pesca no Rio Goiana. Chilapo, Choia, bagre, camarão, amoré, caranguejo e siri. Até hoje, a conselheira das Pretinhas do Congo sai no seu barquinho para pescar no “copo” feito de ripas de dendê. De sua família, quatro ainda saem na agremiação, entre filhos e netos. Verônica, de apenas 11 anos, já é a rainha. Pensou até em ser crente uma época, mas gostava tanto da brincadeira que acabou herdando o trono da tia, Popó, que deixou a coroa para casar. “A gente brinca, porque tem amor à brincadeira, à nossa cultura”, conta a pequena e logo a avó Iraci emenda: “Bem dizer, meu filho, é a família toda. Vai nascendo, vai crescendo e vai saindo (no bloco)”.

OXUM

O mesmo rio que sustenta a comunidade do Baldo levou, em 1961, casas inteiras feitas de palha. Foi a maior cheia da história da cidade. Foi justo no dia 14 de abril daquele ano que Iraci e Val se conheceram. “A cheia maior que teve trouxe meu amor”, brinca o mestre, logo retrucado com graça por Rosa. “E quantos corações o senhor tem pra amar tanta mulher? Dez é?”

A cheia do passado, apesar de maior, é bem mais leve nas lembranças da família do que outra mais recente. No ano retrasado, a sede das Pretinhas foi mais uma vez levada pela correnteza. Fantasias, instrumentos, tudo se foi com as águas do mês de julho. “A cheia foi grande, mas não destruiu a dignidade da gente”, se emociona Rosa. “A gente arranja força pra sair e brincar. A vontade de botar as Pretinhas na rua é tamanha que você não sente nem doença. Não vai dar pra sair do jeito que a gente queria, com carro alegórico, mas a gente tá muito feliz, porque estamos vivos”.

É verdade que o corre-corre é grande. Fica todo mundo estressado, não consegue se alimentar direito, mas parece que existe algo maior que sustenta essa tradição. “Eu mesmo não sei nem explicar. Às vezes eu pensava: ‘Vou acabar, vou acabar’. Mas quando ia chegando perto ia me dando aquela quentura. Eu fazia seja lá o que fosse pra botar ela pra frente. Tomava dinheiro emprestado, vendia minhas coisas…”, conta o mestre. “As pretinhas fazem parte da nossa vida. Dos nossos antepassados. É nossa família. Se a gente sair dela a gente morre. Se um dia meu pai morrer, eu vou tomar conta e não deixo ela cair”, anuncia Rosa.

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