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Cultura popular e artesanato

Tradição escondida

Carnaval de Paudalho tem mais de um século e continua vivo

Por: Olívia Mindêlo

Pelas contas de João Artur, são três clubes tradicionais, três blocos líricos, 58 blocos, 38 bois, três caboclinhos, sete maracatus e oito escolas de samba, sem contar outros grupos e troças. João Artur é artista plástico, carnavalesco, amante-pesquisador da cultura popular e agora também gerente de Turismo. Os números que ele lista podiam ser de um bairro de Olinda ou do Recife, mas não são; são do Paudalho, cidade da Zona da Mata Norte de Pernambuco que costuma ferver no período carnavalesco.

Isabella Valle

João nasceu, cresceu e viveu muitos carnavais na terra da romaria, onde atualmente mora e trabalha. Mesmo assim, até hoje fica “besta com a cultura enraizada no local”. E não é preciso ele falar muito pra gente também ficar admirado. Paudalho tem um desses carnavais surpreendentes no estado, a questão é que “a imprensa não divulga muito”, como dizem por lá. Eu mesma, foliã desde o útero, nunca tinha sequer ido a Paudalho nesta época e bastou eu pisar na cidade alguns segundos para ouvir os primeiros clarins de Momo. “Ah, o Carnaval do Paudalho já começou faz tempo”, me disse uma funcionária da prefeitura.

Cheguei à cidade na sexta-feira de abertura oficial da folia pernambucana, junto à chuva que entoava seus primeiros sinais e anunciava, até então, lavar foliões ladeira abaixo, ladeira acima. Em Paudalho, também tem subida e descida. E enquanto eu descia a avenida principal, os primeiros pingos escorriam na minha cabeça e na dos brincantes que seguiam um bloco uma esquina adiante. Apressei o passo para chegar mais perto e a chuva também apressou. Açougue, farmácia, padaria, loja, tudo parou pra ver a trocinha de funcionários públicos municipais. As fitinhas coloridas, penduradas de um poste a outro da rua, já sacudiam mais forte quando fui surpreendida por uma sombra-abrigo sobre minha cabeça. Era um guarda-chuva que um senhor, de bigode e chapéu, teve a gentileza de compartilhar comigo.

- Opa, obrigada!
- De nada (sorrindo)
- E esse Carnaval de Paudalho é mesmo animado? (perguntei)
- É, parece que esse ano tá bem animado mesmo! A senhora é daqui?
- Não, sou do Recife.
- Então aproveite, seja bem-vinda, minha filha.

Segui meu percurso com alegria e tentei reparar mais na cidade, sabendo que não iria ficar no restante dos dias. Em meio aquele buruçu de comércio, carro, chuva, Carnaval, reparei numas casas antigas, com azulejo e janelas de estilo mouro. Paudalho é curiosa…

Fui à procura de João Artur e conversando com ele sobre a relação da cidade com o Carnaval, fiquei ainda mais curiosa. Ele me contou que Paudalho tem um tal de Banho de Frevo nos dias de folia. “Como assim?”, perguntei. “As pessoas ficam ali, logo embaixo, no Parque Beira Rio, tomando banho de água perfumada, enquanto ficam rolando os shows”. E me confessou que o nome é Banho de Frevo, porque Banho de Cheiro a cidade de Chã de Alegria, bem perto dali, já tinha e eles não podiam copiar o nome.

Quando o banho foi criado, em 2006, o Carnaval do Paudalho estava um pouco desanimado. A frevança na água perfumada veio para substituir a Manhã de Sol, um mela-mela que já não cabia nos clubes lotados. Hoje, o Banho de Frevo acontece a céu aberto, nas tardes do domingo, da segunda e da terça de Carnaval, ao som de atrações como o cantor Almir Rouche, por exemplo. Trio elétrico? Nem pensar, ele não passam por lá. Pela manhã, nos mesmos dias, desfilam bois, caboclinhos, maracatus, troças e outros grupos do Paudalho e de cidades vizinhas. À noite, é a vez dos desfiles mais esperados da cidade: o das escolas de samba e, principalmente, dos clubes carnavalescos, a maior marca do Carnaval paudalhense.

CLUBES

Em Paudalho ninguém é simplesmente folião; é “vermelho e branco”, “vermelho e preto” ou “verde, vermelho e branco”. As cores não são de time de futebol, mas a paixão é bem semelhante, quando se trata de escolher de que “lado” se está no Carnaval da cidade: se no lado alvirrubro do Clube Estrela do Paudalho; se no rubro negro do Clube Lenhadores do Paudalho; ou se no lado tricolor do Cruzeiro do Sul.

O Lenhadores tem 106 anos. De acordo com a agremiação, é o segundo mais antigo, depois do Lenhadores do Recife. E o Estrela, o vermelho e branco, está prestes a completar 98 anos. Corri para conhecê-los, na companhia gentil e generosa de João Artur.

Em Paudalho, não tem Mangueira, Portela, Pitombeira ou Elefantes de Olinda. Rio de Janeiro ou Recife podiam nem existir. Só dá Lenhadores, Estrela e Cruzeiro do Sul. Estão no sangue dos paudalhenses. Tanto que além do apoio da prefeitura – que, em 2012, liberou uma verba de R$ 25 mil para cada um preparar seu desfile –, os clubes também recebem patrocínio espontâneo de seus seguidores, geralmente comerciantes, profissionais liberais e outros cidadãos mais abastados. Essas colaborações chegam a ser, inclusive, motivo de competição.

“Interior é muito engraçado… Se o comerciante da rua tal deu tanto pro Lenhadores, então o outro comerciante tem que dar mais pro Estrela. É aquela rivalidade boa”, conta João.

Como outros carnavalescos do Paudalho, ele diz que a disputa já viveu seus dias mais acirrados. A rivalidade já foi tanta que ninguém, além do presidente e do carnavalesco do clube, sabia o tema do desfile de cada clube antes da esperada noite de domingo de Carnaval. “Às vezes, o tema acabava vazando. Uma vez descobrimos que o Lenhadores ia desfilar em homenagem ao Japão, então a gente se vestiu com uma roupa japonesa e passou de carro, buzinando e debochando na frente do clube”. A lembrança é de Johnny Welisson Batista, presidente atual do Clube Estrela do Paudalho. Ele tem 28 anos e acredita muito no Carnaval da sua cidade, apesar de achar que está um pouco ameaçado.

DIVISÃO

Como todo grupo, os clubes do Paudalho guardam marcas de distinções sociais. O Lenhadores, por exemplo, é conhecido por ser de elite, embora não haja mais lá muita pompa. Foi criado por quatro rapazes foliões, depois que voltaram do Carnaval do Recife, e hoje muitas senhoras paudalhenses procuram cuidar dele.

“Não tem julgamento oficial, com competição. Mas tem o do povo, né? Este é muito importante”. A fala é do carnavalesco e figurinista Carlos Barbosa, responsável, no ano passado, pelas fantasias do Cruzeiro do Sul, nascido na periferia da cidade, em 1952. Ele conta que já trabalhou para os três clubes. Sabe bem como são essas diferenças. Ainda que a prefeitura dê a mesma quantia de dinheiro para os três clubes, o status muda de um pro outro.

Mesmo admitindo ser vermelho e branco, admira a história do Cruzeiro. “É um clube humilde. Hoje está muito melhor, mas antes quase ninguém queria desfilar nele. Hoje já quer”, conta Carlos, enquanto me mostra as fantasias temáticas do Egito, a inspiração do Cruzeiro do Sul para o Carnaval 2012. Com sede no Alto de Dois Irmãos, todo ano o clube desce a ladeira para chegar à rua principal e desfilar. O percurso dura uns 40 minutos. Não é muito longe, mas o peso dá a medida do tempo.

De cima ou de baixo, os três clubes seguem resistindo pela vontade dos foliões-torcedores de tantas gerações. À margem dos grandes holofotes midiáticos, o Carnaval paudalhense também segue seu percurso. João Artur acredita nisto: “A cultura do Paudalho sobrevive sem dinheiro. Se a prefeitura não der dinheiro, pode até cair o padrão dos desfiles e as fantasias serem menos luxuosas, mas não acaba a cultura. O pessoal faz rifa, arruma dinheiro, o que for, pra ir pra rua”.

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