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Cultura popular e artesanato

Um brincante e bordadeiro com talento pra gritar

Entrevista com Manoelzinho Salustiano

Por: Chico Ludermir e Julya Vasconcelos

Jaqueline Maia

Jaqueline Maia

Manoelzinho Salustiano

A palavra “paixão” aparece diversas vezes nas respostas de Manoelzinho Salustiano e, na maior parte delas, acompanha “cultura popular” e “maracatu” de um jeito arrebatado. Aos 42 anos, ele foi presidente da Associação de Maracatus de Baque Solto e do Maracatu Piaba de Ouro. É também artesão reconhecido no mundo inteiro por seus bordados nos estandartes e golas de caboclo. Manoel Salu é o que podemos chamar de um cuidador da cultura popular. Abriu mão de viver nos terreiros, brincando maracatu, em nome da manutenção dessa mesma paixão. Seu pai, o famoso Mestre Salustiano, observou logo cedo que o menino Manoelzinho sabia “dar grito” dentro do brinquedo, que tinha talento pra administrar. E assim ele assumiu a função de cuidar dos grupos, dos brincantes e da memória, especialmente dos que fazem parte da cultura da Mata Norte pernambucana. “Ele soube deixar cada um com seu dom. Talvez se eu brincasse podia ter algum buraco nessa questão. Talvez eu não tivesse chegado onde cheguei, com a consciência do que é a cultura popular”, conta, falando sobre a sensibilidade do pai, Mestre Salu, e a clareza que hoje tem do seu papel nessa grande história. “Durante os três dias de Carnaval, por exemplo, meu trabalho é cuidar dos outros”.

Qual a sua lembrança de infância mais forte, mais presente?
Manoelzinho Salustiano – A minha primeira lembrança de infância é a minha mãe me levando pra brincar de Catirina. Ela colocava duas quengas de coco nos seios. No passado, na época em que eu era criança com meus 7 pra 8 anos, o pessoal dava dinheiro à Catirina, e minha mãe, no Carnaval, ganhava dinheiro brincando. Ela me levava e tirava brincadeira dizendo que o dinheiro era pra dar de comer à filha de Catirina. Então, eu ia vestido de Catirina também. Muita gente pensa que, por ser filho de Mestre Salustiano, meu início foi com meu pai, mas não foi, foi com minha mãe. Minha mãe foi a primeira esposa que se casou com ele, mas depois se separaram. Então, quando eu venho aprender mesmo com meu pai é por volta dos 14 anos, que é quando eu volto a morar com ele, e é quando eu aprendo, começo, vou pra faculdade de verdade da cultura popular. A partir dos 14 anos, é impossível não acompanhá-lo. Porque pra estar ao lado dele, era preciso acompanhar. Uma das coisas que ele sempre falava pros filhos é que se o cabra não tem um bom estudo tem que ser artista. Se não for artista, vai ser peão, vai ser empregado. Então, ele sempre passava isso pros filhos. E hoje a maioria dos filhos é artista, e dentro da cultura popular.

E o primeiro brinquedo?
Manoelzinho – O primeiro foi o maracatu, que sempre foi a minha paixão. Aí eu fui brincar de Balizeiro, que é um personagem do Maracatu de Baque Solto, depois fui brincar de Arreia-Mar, depois brinquei umas vezes de Caboclo, mas achei pesado e não quis mais. Aí fui brincar de Catita, que é a Catirina. Catirina é dentro do bumba-meu-boi e do cavalo marinho, e a Catita é dentro do Maracatu de Baque Solto. Aí fui brincar de Catita, brinquei uns seis anos. Comecei a brincar de Catita no Criança Olindense, que era um Maracatu Infantil que foi fundado pelo meu pai, e que depois eu tomei conta. Aí deixei o infantil e vim pra dentro do Piaba de Ouro já de Catita. Depois eu deixei de brincar, porque já tava muito envolvido dentro da Associação de Maracatus de Baque Solto, e não tinha mais tempo de ficar brincando Carnaval. Já estava administrando. Hoje em dia, eu só administro. Eu sou o Presidente do Piaba de Ouro, só posso bordar, e durante os três dias de Carnaval, por exemplo, meu trabalho é cuidar dos outros. Meu pai dizia que eu conseguia dar grito dentro do brinquedo. “Dar grito” é administrar.

Você sente falta de brincar?
Manoelzinho – Sinto, sinto. Muita falta. Pra mim, uma das coisas que eu mais queria era só bordar e brincar, mas infelizmente cada um tem sua função, e meu pai soube fazer isso com os filhos. Ele foi embora, mas os filhos todos se respeitam, cuidando do que ele deixou. Ele soube deixar cada um com seu dom. Talvez se eu brincasse podia ter algum buraco nessa questão. Talvez eu não tivesse chegado onde cheguei, com a consciência do que é a cultura popular.

João Rogério (divulgação)

João Rogério (divulgação)

Brincante, mestre e bordadeiro

E como começou a sua história com o bordado?
Manoelzinho – O bordado é minha paixão, é o que eu não consegui deixar até hoje. E eu tive sorte nisso, porque eu tive um amigo que era fundador do Piaba de Ouro. Ele não era um bom artesão do bordado, mas ele era um cabra cuidadoso. Um dia eu estou na sede, moleque, e ele está lá enfeitando um chapéu de baiana com lantejoula e miçanga, e me chama pra ajudar. Ele botava muita cola no chapéu, e quando eu ia botar lantejoula eu furava os dedos, achava ruim. Era o Manoel Mauro. Meu primeiro contato com o bordado foi com ele. E aí quando foi um tempo depois, eu o vi fazer uma gola, e a gola dele era com uns quadrados. Pensei: se alguém desenhar pra mim, eu vou conseguir bordar. Aí pedi pra meu tio desenhar uma arara numa roupa de Arreia-Mar, que era o meu personagem na época. “Minha gola vai ser uma arara”, eu disse. Quando eu bordei, foi aí que meu pai me deu o maior incentivo. Ele disse: “A partir de agora você não vai trabalhar mais na pá do caminhão”. Porque meu pai tinha um caminhão e a gente trabalhava enchendo com metralha, era um serviço pesado. Aí ele disse: “Não, você não vai fazer isso mais não. Você é um artista. Você vai fazer a gola do Piaba”. E aí o que eu ganhava em cada gola equivalia a três semanas no caminhão, porque ele incentivava, pagava bem. Ele era muito esperto com essas coisas. Então com o incentivo do meu pai, com o apoio das pessoas que estavam ali ao redor, eu comecei a desenvolver técnicas de gola. Meu pai me levava pra ver João Calumbi, o rei da gola! O homem que melhor bordou gola no mundo foi João Calumbi! É um cara que tem uma técnica de precisão. Onde colocar cada lantejoula você não via brecha.

Você costuma dizer que o melhor horário para bordar é das 10 da noite às 5 da manhã. Por quê?

Manoelzinho – Porque a sua mente está calma. Eu acho que a noite é o melhor horário pra se concentrar. Quando você consegue ter inspiração, é quando seu corpo está pronto, está limpo. Durante o dia um telefone toca, alguem lhe chama, mas à noite não. À noite é o silêncio. Se você se concentrar ali, acabou. Depois que você for dormir lá pras 6, 7 da manhã, se você dormir seu sono tranquilo e ninguém atrapalhar, à noite você volta de novo. É que a arte requer calma. Porque não pode estar agitado. Se estiver agitado, não produz. Você pode ser o bordador mais fera do mundo, mas se você não estiver calmo, a gente encontra falha.

Qual a lembrança mais forte que você tem do seu pai?
Manoelzinho – Rapaz, são muitas. Meu pai era muito presente com os filhos, que eram 15. Eu tenho lembrança de ele chegar de 8 horas da manhã na minha porta, me chamando: “Negão, negão, passarinho não deve nada a ninguém e essa hora já tá acordado!”. Isso é uma coisa que eu nunca me esqueço dele. Uma das coisas fortes é que a paixão dele era a rabeca. Ele tinha uma paixão muito forte pela rabeca. Pro meu pai, se tivesse uma pessoa pra ouví-lo tocar, pra ele era como se tivesse uma multidão. Ele tinha prazer de tocar. Então, quando eu via meu pai sentado na frente de casa com uma rabeca, era uma coisa muito forte, porque mostrava pra gente a paixão que ele tinha pela cultura. São lembranças de ver meu pai numa Quarta-feira de Cinzas comer peixe salgado com farinha, e ter botado um maracatu tão rico na rua. Como é que o homem tinha todo dinheiro ontem e hoje não tem o que comer? São coisas fortes, e isso fortalece os filhos. E isso ajuda a manter o que ele fez.

E qual a importância dele pra sua formação como artista?
Manoelzinho – O incentivo, a educação. Ele soube me educar. Eu agradeço a Deus todos os dias por ter me dado um pai e uma mãe como eles. Apesar dos dois terem se separado, eles souberam educar os filhos. Minha mãe era muito rígida em relação a responsabilidade, e meu pai era muito mais. Os dois não alisavam, eles souberam fazer. Uma das frases do meu pai quando ele estava perto de ir embora, no hospital, era que o maior orgulho que ele tinha na vida era nunca ter tido que buscar um filho na delegacia. Isso não é fácil. Eu quero que alguém diga assim: “Vi alguém fazendo alguma coisa errada dentro da cultura popular”. A cultura popular é pura, não tem maldade, não. As pessoas é que fazem maldade. Mas a cultura popular é uma coisa que vem de berço, é sangue. Dentro da cultura popular você se torna gente de verdade. Porque dentro da cultura popular hoje você é uma Catirina, amanhã tu é o Mateus, mas depois tu pode ser um rei, uma rainha, tu pode ser um presidente. A gente é polícia, capitão, coronel. A gente cria nossas fantasias e aí a gente se torna autoridade. A cultura popular é uma coisa muito boa pra quem nasceu dentro. Cultura popular não é pra quem quer ir pra ela, você tem que ter no sangue. Se você não tiver não tem paciencia, não. Porque nós somos muito ricos, as pessoas não percebem.

Quando é que uma pessoa se torna mestre?
Manoelzinho – Ninguém se torna mestre, não. Isso é uma coisa criada. A pessoa se torna brincante, sabe? E o brincante tem a obrigação de repassar um ao outro, que é pra gente não deixar morrer a nossa história. Aí dizem que o cara que repassa é mestre. Mas eu não vejo dessa forma, não. Aí às vezes o pessoal me chama: “Mestre, mestre!”. Eu não. Agora meu pai, sim, era um mestre, pronto. Meu pai era um mestre. Meu pai ensinava muito, ele tinha prazer de repassar. Eu não me considero um mestre. Me considero um brincante, um apaixonado pela cultura. Às vezes, tem gente que me chama de mestre, principalmente depois que meu pai se foi. Mas eu não aceito, não. Manoelzinho, só isso. Eu sou só Manoelzinho.

E como você se sente sendo uma peça tão importante, como um cuidador dessa cultura, um articulador? Como é esse papel que você assumiu?
Manoelzinho – Quando eu tô fora do terreiro é muito triste, quando eu tô dentro do terreiro, eu me sinto forte, porque eu sei que não tô sozinho.

Me parece que a Mata Norte é um lugar que tem muita cultura popular, que é muito rico.
Manoelzinho – Dentro da Associação de Baque Solto, nós temos 115 maracatus. Aí você vai encontrar Mestre Zé Galdino, que é um mestre de maracatu que canta ciranda e canta viola. Você vai encontrar Bio Caboclo, que canta coco e canta viola. Você vai encontrar Messias, mestre de maracatu que toca sanfona. Você vai encontrar Biu Passinho que canta ciranda. E aí vai. Você vai encontrar Borges Lucas, que é mestre de cavalo marinho. Mestre Grimário, que é mestre de cavalo marinho, e ele é de maracatu. Como a Mata Norte é muito rica e o folguedo mais forte é o (maracatu de) baque solto, você tem um contato com todo esse povo e a conversa é a mesma. Só muda que no Carnaval a gente faz o maracatu. Quando passa o Carnaval, a gente vai falar de mamulengo, de forró, porque tá chegando o São João. E aí vão se passando os folguedos e a gente vai falando, e são as mesmas pessoas! São simplesmente 12 mil brincantes de baque solto, e esses caras são que fazem os folguedos da Mata Norte.

O que faz da Mata Norte um terreno tão fértil, com tantas manifestações diferentes de cultura popular?
Manoelzinho – Eu acho que tem dois motivos: a mistura do índio que já tava ali, com o negro e o branco, e por estar próximo ao litoral. Eu acho que isso foi que fez essa cultura tão forte ali, dentro dos engenhos, essa mistura do branco com o negro e com o índio.

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