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Cultura popular e artesanato

Um homem, um boi e uma cidade

E a história de uma paixão carnavalesca no Sertão do Moxotó

Por: Chico Ludermir

Ricardo Moura

Ricardo Moura

Jymmywebb, um apaixonado pelos bois de Arcoverde

Esta é a história de um homem de nome difícil: Jymmywebb, que não bastando dois “ípsilons”, um “dáblio”, ainda tem registrados no seu vocativo dois “emes” e dois “bês”. Esta é também a história de um boi de nome fácil: Cafuné, palavra que só de ouvir já dá vontade de receber. Esta é a história de uma cidade, se preferir. Arcoverde, que muito antes de ser a terra de Lirinha e do Cordel do Fogo Encantado, já era a terra dos bois.

Como município, tem apenas 70 anos de fundação, de onde já remontam as memórias dos primeiros bois na região. Um certo Luiz Preto, já falecido; um certo Boi Lavareda, que arrancava faísca das fogueiras do século passado, quando ainda se juntava gente com intuito de dançar em cima das casas recém-construídas para festejar e assentar a terra. Jimmywebb tem 40 e, assim como sua cidade natal, também escreveu sua história junto ao folguedo popular.

De dentro do carro, o esperamos, no final da tarde de uma quinta-feira. Enquanto o sol se punha dentro do automóvel, escutei pelo telefone Jimmy dizer que estava chegando. E demorou mais uns 40 minutos. Chegou sentado na garupa de um mototáxi, arrastando pra dentro de casa um bocado de criança que, assim como eu, esperava por ele.

Mas não deu pra chegar antes. Claro que não. Jimmy trabalha como servente em uma empresa. É homem comum que tem que dar expediente todo dia. O boi é sua paixão, mas não é sua fonte de renda. O dono do Cafuné dá duro de segunda a sexta. E não lhe falta energia pra botar o boi na rua. De jeito nenhum.

Dos cinco anos de idade vêm as primeiras lembranças de brincadeira, vestido de boneca filomena. “Quando eu era pequenininho, tinha todo tipo de troça. A da Filomena, a do Urso Preto, Urso Branco e o morto carregando vivo. Eu pequeno me apaixonei. Vem no sangue”, conta no mesmo momento em que elege o Carnaval a melhor festa. Era coisa de guri mesmo. Assim como podia se ver nos meninos encantados que estavam na casa do carnavalesco durante toda a entrevista.

Mas, para Jimmy, sua estreia aconteceu mesmo em 1983, quando ele saiu com o Boi Jurema. Boi de madeira, cabeça de pano… e por isso 2013 para ele é data fechada. Comemorativa de 30 carnavais. Se tivesse como fazer da folia uma data ainda mais especial, esta seria. Mas parece que nem tem. “Todos os carnavais são especiais para mim”, diz.

Não se sabe se foi o bairro de São Cristovão que fez com que Jimmy fosse tão apaixonado por boi, ou se foi a paixão de Jimmy que faz um bairro inteiro se dedicar à folia. O que se sabe, se vê e se sente são ruas inteiras mobilizadas para botar o bloco. É menino vestido de burrinha. É menina de Jaraguá. Tem homem que é Catirina, tem outro que é Mateus. Tem ainda Bastião, tem diabo, tem anjo, tem caboclas e caboclinhas…

E sai todo mundo arrodeando o bairro inteiro. Todo Carnaval é assim. “Aqui em São Cristóvão tem essa vantagem. O pessoal dá muito valor. Rebola para ajudar o boi”, conta com carinho pelo local, situado na periferia de Arcoverde. “Teve ano que o Boi Faceiro ficou em 5o lugar na competição de bois da cidade, mas mesmo assim a gente desceu com alegria, como se a gente tivesse sido campeão”, narra com orgulho, tocando no assunto dos desfiles que acontecem sempre no Domingo de Carnaval.

Jimmy e os demais não se importam muito em ganhar. Não é esse o ponto. Para ele, não tem por que ser. “Disputar eu não tenho muito interesse, não. Mas quando a gente veste a fantasia e desce com a agremiação, é o melhor momento da minha vida. Eu já fico ansioso que chegue o Carnaval”, conta, enquanto falta menos de um mês.

Ricardo Moura

“No interior é muito diferente. Aqui é uma periferia pobre e o pessoal todinho se junta. Faz uma rifa, faz um bingo. Só quem participa é quem sabe”, se esforça para explicar, sabendo que existe emoção inexplicável. Talvez essas que a gente não encontra palavras sejam as mais fortes. Mais verdadeiras.

Não dá para falar, mas dá para ver. Perceber a movimentação nas ruas, com todo mundo nas calçadas já comentando os assuntos de Momo. E no quartinho dentro de sua casa, Jimmy mostra tudo que ele guarda. Só boi, mesmo, são três. Mas o carnavalesco mostra burrinha, ema, jaraguá e a “cobra da bexiga lixa”. Jimmy segura também o estandarte vermelho com letreiro brilhoso de lantejoulas: Boi Cafuné. Desde 1984. Brilho no olho que se via de longe.

Encontrar Jimmy foi encontrar com a paixão. Isso é raro. É precioso. Mas, se por um lado, é uma sorte singular, por outro é quase corriqueiro ver olhos brilhando nos brinquedos populares Pernambuco afora. São sortes. Um lugar, um brinquedo, um brincante. Uma cidade, um boi, um homem. E ninguém sabe quem fez quem.

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