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Economia Criativa

Objetos em cena: cinema pernambucano estreita parcerias com o mercado de coleções e antiguidades

Tiago Montenegro

Encontrar objetos que ajudem a contar uma história, a apresentar uma personagem, a enriquecer uma narrativa. São algumas das missões da área de produção de objetos que, na cadeia do audiovisual pernambucano, conta com aliados apaixonados por relíquias, móveis ou peças de decoração que guardam a estética de um determinado momento histórico e, em muitos casos, também memórias afetivas e familiares: os colecionadores e proprietários de lojas de antiguidades.

Still/Aquarius

Still/Aquarius

Sala do apartamento de Clara, personagem de Sonia Braga em Aquarius

No mais recente filme do diretor recifense Kleber Mendonça Filho, o longa-metragem Aquarius, um pesadelo leva a protagonista Clara (Sônia Braga) a “reencontrar” Juvenita (Andrea Rosa), uma antiga empregada doméstica que fora dispensada do serviço após roubar joias da família. A caixa de joias em madeira marchetada, estilo anos 1950, é uma das peças do acervo de Marília Benevides, do Bons Tempos Antiquário, no Recife. Já uma poltrona utilizada por Clara e que remete à década de 1980, integra a coleção do artista plástico Manuca Vieira, que também alugou a peça para a produção do filme.

Divulgação

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A produtora Gabriela Miranda, que integrou a equipe de arte do longa

“A ideia de conforto precisava estar muito evidente no apartamento de Clara, acho que a equipe de arte conseguiu fazer isso, foi maravilhoso descobrir essa época”, conta Gabriela Miranda, produtora de objetos de Aquarius, cuja direção de arte é assinada por Thales Junqueira e Juliano Dornelles.

Sobre o caminho usual desse tipo de produção, Gabriela explica que “começa com apresentação do universo do filme, visitas a locações, produção de levantamentos que baseiam um projeto inicial de intervenções cenográficas”. A partir daí, é realizada a pesquisa de referências sobre os objetos que vão compor os espaços. “Aqui no Recife ainda não existem acervos dedicados ao aluguel de peças para cenografia, então a gente recorre a colecionadores, a pessoas que tem o perfil parecido com determinado personagem e que podem ter aquele objeto ou, no caso de peças mais raras, buscamos os antiquários”, complementa.

Em Aquarius, obras de arte contemporânea também contribuíram para apresentar o universo de Clara. “O contato com artesãos e artistas plásticos pernambucanos que emprestaram algumas de suas obras fez muita diferença”, destaca Gabriela, agradecendo a artistas como Tiago Amorim, José Patrício, Rinaldo e Joelson Gomes.

Divulgação

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Criação em cerâmica e luminária foram emprestadas pelo artista plástico Joelson Gomes

Parceiros do cinema

Há dez anos, em uma das ruas mais boêmias do Recife – a Mamede Simões -, resiste, exuberante, o Bons Tempos Antiquário. “Meu pai sempre foi um colecionador apaixonado, nossa casa parecia um museu e eu gostava muito daquele clima. Nossa ideia sempre foi atrair também um público jovem, que não frequentava o ambiente de feiras, mas que pudesse se sentir acolhido e capaz de adquirir uma antiguidade”, conta Marília Benevides que, ao lado do pai, Carlos Benevides, administra o empreendimento.

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Luiz

Marília apresenta a caixa de joias marchetada dos anos 1950, também utilizada em Aquarius

Com mais de 2 mil objetos à venda, entre bibelôs de porcelana, louças Baccarat, peças decorativas do movimento art nouveau e móveis de diferentes épocas e estilos, o antiquário também passou a prestar o serviço de locação para projetos cinematográficos, atendendo a uma demanda que, segundo Marília, tem crescido nos últimos anos. “Vejo isso como um reflexo do aumento na produção de cinema aqui em Pernambuco. Particularmente, gosto muito de trabalhar com o pessoal (do cinema), me sinto lisonjeada em contribuir de alguma forma com esse momento, ver uma peça nossa associada a um filme como Aquarius é muito bacana”, comenta.

Uma satisfação que o artista plástico Manuca Vieira também sente. Colecionador desde os anos 1960, trabalha com antiquário e garimpo de peças desde 1988, focando em móveis, lustres e objetos de uso pessoal que datam a partir do início do século XX. Há dez anos, também está inserido na cadeia do audiovisual no estado. “É muito interessante, uma área do mercado muito agradável. É fantástico poder colaborar com projetos de cinema, pois vejo como uma maneira de fomento à cultura, sinto prazer e orgulho ao ver uma peça que amealhei há quinze anos participando de um filme com projeção internacional”, revela Manuca, referindo-se à poltrona com puff maralunga alugada para Aquarius.

Jan Ribeiro/Fundarpe

Jan Ribeiro/Fundarpe

O artista plástico Manuca Vieira e a poltrona alugada para o filme

Para os diversos agentes desta área, a formalização das parcerias é um caminho importante. “As produções aqui em Recife são sempre muito difíceis, nem todo mundo quer locar, até pelo risco de perda ou quebra de uma peça, por isso é importante fazer um contrato, combinar prazos de entrega, alimentar uma relação de confiança entre as partes”, destaca Marília, revelando ainda o desejo de “ter um fluxo intenso de locação e uma organização mais segmentada e datada das peças, com o objetivo de cooperar ainda mais com o trabalho de diretores e produtores de arte”.

Tudo tem história

Gerenciar um negócio que preserva a história dos objetos e considera aspectos simbólicos e de afeto. Característica comum aos personagens desta reportagem e um sonho que João Cerqueira também vem realizando há pouco mais de dois anos. À frente da Pepita Garimpo, o jovem de 28 anos, criado em um ambiente cercado por coisas antigas, encontrou no trabalho de garimpar e vender peças raras uma forma de canalizar o vício de colecionar objetos.

Jan Ribeiro/Fundarpe

Jan Ribeiro/Fundarpe

João Cerqueira e alguns objetos do acervo da Pepita Garimpo

“As compras passaram a ter outro significado, busco conhecer a história das peças, marcas, referências estéticas, compro objetos com os quais me identifico, que possuem um valor afetivo para mim e para os outros”, conta.

Frequentador de antiquários desde os 14 anos de idade, João ainda não possui um espaço físico próprio para comercialização de suas peças. Participa de bazares coletivos e conta com a atualização constante de perfis em redes sociais para manter a relação com clientes e praticar a “ideia de preço justo”, que orienta o empreendimento. “Se eu não puder vender por um preço justo, eu nem compro. Meu garimpo é mais focado em coisas úteis, de escritório, rádio, televisão, câmeras fotográficas, coisas que eu sei que os antigos proprietários usaram e que outras pessoas vão poder usar novamente, não apenas ter, possuir o objeto”.

Para manter o acervo renovado, que atualmente conta com cerca de 400 peças, vale fazer viagens pelo país, especialmente para cidades como Belo Horizonte, e alimentar uma boa rede de relações. “Compro muito pouco pela internet, gosto de tocar antes, reparar em arranhões, nas marcas do tempo, é muito comum também a indicação para avaliar heranças”, comenta João.

Sobre o perfil da clientela no Recife, João destaca a procura por peças kitsch, “bem casa de vó”, e aponta para o aumento nas vendas, mesmo em um cenário de recessão econômica: “de uma maneira geral, o mercado ainda tem muita resistência pra absorver a atividade, mas tem crescido o número de pessoas interessadas, que valorizam a antiguidade porque se lembram de uma história marcante ou de alguém e isso é o que a gente quer, incentivar essas lembranças”.

Conheça melhor:

BONS TEMPOS ANTIQUÁRIO

Jan Ribeiro/Fundarpe

Jan Ribeiro/Fundarpe

Marília Benevides administra o espaço, integrado ao cotidiano da área central do Recife

Rua Mamede Simões, 144, loja 02 / Boa Vista – Recife | (81) 3222.7944
Perfil no Instagram: @bonstemposantique
Página no Facebook

 

PEPITA GARIMPO

Jan Ribeiro/Fundarpe

Jan Ribeiro/Fundarpe

Pratos e outros objetos de decoração também integram o acervo da Pepita

João Cerqueira
Instagram: @pepitagarimpo
Página no Facebook
Algumas peças à disposição na Me Poupe Loja Colaborativa (Rua Conselheiro Portela, 417 – Espinheiro/Recife)

MANUCA VIEIRA

Jan Ribeiro/Fundarpe

Jan Ribeiro/Fundarpe

Colecionador de arte, escultor e artista plástico com obras espalhadas por diversos países. Locação de peças para decoração e projetos artísticos.

Contato: (81) 9.9757-2291

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