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Economia Criativa

Plano Estadual de Cultura aponta pra o desenvolvimento das cadeias criativas

Compromissos com a promoção da economia da cultura em Pernambuco é uma das conquistas recentes do setor cultural no Estado.

Rodrigo Ramos

Rodrigo Ramos

O Plano Estadual prevê incentivo ao empreendedorismo cultural através de ações como feiras comerciais. Realizada pela Secult/Fundarpe, a ExpoCarnaval, na Torre Malakoff, é um exemplo que já vem sendo colocado em prática.

Por Camila Estephania 

Em 2012, no mesmo final de semana em que Chico Buarque e o ex-beatle Paul McCartney se apresentariam no Recife, o festival Abril Pro Rock também estava no páreo para entrar na programação do público nordestino. O duro desafio para encontrar uma brecha na agenda e no orçamento dos espectadores foi surpreendentemente superado logo na primeira das três noites do evento. A noite de abertura reuniu 15 mil pessoas no Chevrolet Hall, marcando um recorde na história do Festival que, naquele ano, comemorava duas décadas e, segundo levantamento da  produção, contava com 30% da plateia formada por turistas.

Os ônibus das caravanas que vêm de outros estados e estacionam em frente aos espaços que já acolheram o Abril Pro Rock – desde o seu início até os dias de hoje -, reiteram esse dado. Uma imagem reveladora do potencial que os eventos culturais pernambucanos possuem para atrair visitantes, ainda que não contem com maiores apelos turísticos. Há uma década na produção do evento, Guilherme Moura passou a integrar, em 2014, o Conselho Estadual de Política Cultural. Como conselheiro de música, tem buscado novas medidas que promovam o crescimento da linguagem. Entre suas mais recentes contribuições, Guilherme participou intensamente do processo que resultou na elaboração do Plano Estadual de Cultura e, através dele, enxerga novas perspectivas para o setor.

Costa Neto

Costa Neto

Eventos como o Festival de Cinema de Triunfo são exemplos de como a cultura também pode movimentar o turismo no Estado.

“Integrar a cultura ao turismo é um dos passos muito grandes que a gente pode dar com esse Plano. O circuito de música atrai turistas para as cidades em que ele acontece e a ideia do Plano colocar isso como um dos vetores da sua política abre a possibilidade de surgir editais específicos para eventos que abranjam tanto o turismo como a cultura, por exemplo. Precisamos assumir que os festivais têm uma relação muito forte com o turismo, pois cada um deles não só traz pessoas de outros lugares, como essas pessoas também podem conhecer nossos artistas e levá-los para eventos de suas cidades. É um efeito multiplicador muito forte”, avalia ele sobre o Objetivo Estratégico 4.4, que prevê a promoção do turismo cultural, dentro do Eixo da Economia da Cultura.

O produtor audiovisual Rafael Barreira lembra o número crescente de festivais de cinema pelo interior, como o Festival de Cinema de Caruaru, Festival de Cinema de Carpina e a Mostra Pajeú de Cinema, como uma conquista importante para a difusão, que também pode ser impulsionada pelo turismo. “São eventos de pequeno, médio e grande porte que, se entrarem dentro de uma agenda cultural de turismo, podem potencializar a sua região. Um exemplo de como isso pode funcionar é o próprio MIMO, que atrai um público interessado nos shows, mas que também aproveita para conhecer as nossas praias. Acho que o turismo pode ser um grande aliado da cultura e juntos podem movimentar as regiões o ano inteiro, independente de períodos festivos específicos”, observou ele, que também está a frente do Ponto de Cultura de Cinema de Animação, em Gravatá, e atuou como Delegado de Audiovisual na IV Conferência Estadual de Cultura.

Rodrigo Ramos

Rodrigo Ramos

Eventos também trazem autonomia criativa para o Estado quando investem em atividades formativas, como as oficinas ministradas durante o Festival de Inverno de Garanhuns. Na foto, Elias Vitalino dá aula de artesanato durante o FIG de 2015.

Vale destacar que festivais, eventos e espaços culturais também podem contribuir de maneira determinante para trazer mais autonomia para a produção cultural pernambucana, já que grande parte deles também investe em atividades formativas. “Temos bons profissionais, tanto produtores executivos, quanto diretores e roteiristas, mas quando se vai fazer um longa-metragem, há dificuldade para fazer uma produção inteiramente local, por exemplo. Ainda carecemos de mais escolas técnicas e outras experiências formativas para capacitar fotógrafos, iluminadores, profissionais para pensar cenários, entre outras coisas. Muitas vezes, essa turma tem que vir de fora”, continua Rafael, sobre uma das reivindicações da área debatidas durante as reuniões e contemplada no Objetivo Estratégico 4.2, que busca promover o empreendedorismo cultural oferecendo suportes para iniciativas culturais.

Delegado de Design na IV Conferência, o produtor cultural Arthur Braga também aponta que uma das principais conquistas para a sua área de atuação seria o suporte para empreender. “A questão jurídica que envolve as marcas é algo que a gente não perpassa quando está na Academia. São deficiências que dificultam quando você quer investir em alguma coisa. A gente precisa falar mais sobre os diversos mecanismos que existem nesse sentido e fazer intercâmbios com outros estados e países que tenham amadurecido nesse aspecto”, comenta ele, que também gerencia o espaço Ceça, no Centro do Recife.

Como Coordenador de Design e Moda da Fundarpe, Flávio Barbosa acredita que “o Plano Estadual de Cultura, no que se refere à economia da cultura, configura-se como uma estratégia de desenvolvimento em ativos econômicos inovadores, em especial no que busca o fortalecimento da Economia da Cultura, a promoção do empreendedorismo cultural e e o estímulo à circulação, acesso e consumo dos bens e serviços culturais (objetivos estratégicos 4.1, 4.2 e 4.3). É um progresso, não apenas para os negócios criativos, mas a todos aqueles que ganham competitividade meio da ‘culturalização’ dos negócios, ou seja, agregando-se valor a partir de elementos intangíveis e culturais“. Desta forma, “acreditamos que com a aplicação do Plano Estadual de Cultura, alcançaremos maior transparência e melhoraremos o planejamento das ações voltadas à linguagem, tais como: fomentar inovação; ampliação do investimento em design e moda; crescimento da produção autoral; ampliação da incubação de projetos e estímulo ao empreendedorismo“, observa o coordenador.

Jan Ribeiro

Jan Ribeiro

O Pernambuco Criativo é uma parceria com o Ministério da Cultura e está por trás de atividades como a formação para jovens circenses, que aconteceu em 2017.

HISTÓRICO DO SETOR

A inclusão de ações estratégicas pensadas especificamente para o desenvolvimento desse Eixo representa um avanço a nível nacional. Por ser um tema relativamente recente no debate brasileiro de políticas públicas culturais, a Economia Criativa, muitas vezes, não teve destaque nos Planos de Cultura elaborados anteriormente em outros estados. Essa discussão entrou em vigor no País somente em 2011, quando Cláudia Leitão assumiu a Secretaria de Economia Criativa, dentro do Ministério da Cultura, na época sob o comando de Marta Suplicy, durante o primeiro mandato da Presidente Dilma Rousseff.

O projeto inicial de Cláudia recebeu o título de “Criativa Birô”, que buscava implementar gabinetes para assessoria, orientação, promoção de informação dentre outros atendimentos para os realizadores culturais e artistas. “Aqui em Pernambuco já havia uma preocupação com esse tema. Posso dizer que, desde 2011, começaram atividades relativas a ele e logo se iniciaram as negociações com o Ministério da Cultura para trazer o Criativa Birô para cá. Mesmo sem muitos recursos, conseguimos realizar logo algumas ações, como os Armazéns da Criatividade, que debatia sobre Economia da Cultura e mercado durante o Festival de Inverno de Garanhuns”, relembrou Tarciana Portella, Gerente de Projetos Especiais da Secult-PE.

Eric Gomes

Eric Gomes

No FIG de 2012, o Ambiente Criativo era um espaço voltado para o debate sobre economia da cultura e já evidenciava o interesse do Estado se aprofundar na área.

De lá para cá, o Sistema Secult/Fundarpe passou a oferecer uma série de cursos e oficinas através de convênios com o Ministério da Cultura, como o PE Criativo, entre outras parcerias, além de ter impulsionado iniciativas relacionadas à Economia da Cultura através do fomento do Funcultura. “Agora, com o Plano de Cultura, a gente vai analisar, fazer proposta de estudo das cadeias produtivas, dos gargalos e das potencialidades, visando políticas que atendam isso de uma maneira integrada. É importante frisar que o documento aponta para a criação de um plano para formação e um outro para economia da cultura. Isso quer dizer que ele prevê não só questões de formação técnica como também irá promover a economia criativa”, adiantou ela, que acredita que o Plano vem para aprofundar ações e identificar os atores que já contribuem com o Eixo.

Esse mapeamento, proposto no Objetivo Estratégico 4.1, que prevê o fortalecimento da economia da cultura, é o que abre espaço para a criação de um plano estadual específico de desenvolvimento do setor. “Primeiro vamos mapear e na sequência realizar um plano, que tem o objetivo de diminuir as diferenças regionais e as diferenças entre os produtores que já tem suas empresas e os outros que trabalham de forma mais artesanal, investindo onde mais precisa. A ideia é conhecer, potencializar, interiorizar e dinamizar essas ações como um todo. Esse é o grande ganho dessa discussão toda”, pondera o Coordenador de Audiovisual da Secult-PE, Matheus Lins, que acredita que a cultura pode alimentar uma série de atividades econômicas que tendem a se multiplicar a partir do Plano, quando se iniciarem os primeiros estudos mais detalhados sobre o impacto do setor na cadeia econômica de Pernambuco.

“Quando a gente fala de economia da cultura, a gente fala de um mercado global, que equivale a cerca de 7% do PIB mundial. Aqui no Brasil, apesar da diversidade cultural, e do potencial que a gente tem ainda não explorado, a gente consegue movimentar cerca de 2,5% do nosso PIB com a cultura e essa economia é responsável por 800 mil empregos formais, segundo a FIRJAN. Então, mostra uma potencialidade muito grande, mas também um caminho muito grande pra percorrer”, continua ele.

 

Jan Ribeiro

Jan Ribeiro

Os fazedores de cultura acreditam que o Plano Estadual aprovado pelo Conselho de Cultura após a Plenária Final da IV Conferência Estadual de Cultura deve garantir a participação social nas políticas culturais.

Apesar da estrada até o pleno rendimento da economia da cultura ainda ser longa, o Plano Estadual vem trazendo otimismo para os fazedores de cultura. “Depois que o Plano for implementado com os Conselhos das linguagens e o Fundo funcionando bem, a perspectiva é de que essas necessidades sejam supridas nos dez anos em que ele estiver em vigor. Mas isso também depende de como a legislação se adequará a nossa realidade para atender à cadeia produtiva”, ressalta Rafael Barreira, ao defender a desburocratização na captação de recursos e na prestação de contas, prevista nas Ações Estratégicas 76 e 77. “Quanto mais incentivo tiver, haverá mais condições de investir, e quanto mais próxima da gente a legislação tiver, haverá mais qualidade. Se a gente conseguir montar um modelo de negócio estruturado que esteja conectado com as cadeias, conseguimos manter Pernambuco em destaque”, aponta o produtor.

Reforçando a expectativa por uma legislação mais aproximada com cada linguagem, Arhur Braga também aposta na integração da cultura com outros setores da economia. “A gente imagina que o Plano deve trazer mecanismos que estimulem a criação de novos projetos e possibilitem uma convergência entre as redes”, comenta ele, ao destacar que a área de Design e Moda, por exemplo, pode se articular com diversos ramos de investimento. “Criar o Plano foi um momento ímpar e renovador, que agora precisa de muito cuidado para efetivá-lo com garantia de participação da sociedade civil e com ferramentas para unir essas pessoas”, finaliza, evidenciando o protagonismo social para concretizar as propostas.

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