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Espaços culturais

Estação Central da Saudade

Mais de 20 mil pessoas já passaram pela reinaugurada Estação Central do Recife. Para algumas delas, um local repleto de nostalgia, de boas lembranças da infância e dos familiares ferroviários.

Por: Marcus Fernandes

Kenza Saida/Museu do Trem

Poucos espaços na capital pernambucana são tão repletos de saudade e nostalgia como a Estação Central Capiba, antiga Estação Central do Recife. Reaberta no final do ano passado, após intervenções técnicas e na estrutura do prédio, o local, que também abriga o Museu do Trem, já colocou muita gente pra chorar de emoção. Com pouco mais de dois meses em funcionamento, não são poucas as boas histórias de pessoas apaixonadas pelo universo das ferrovias que surgiram por lá.

O senhor Carlos Vasconcelos, mais conhecido como o Comandante Mack, é um desses casos de amor incondicional pela antiga Estação Central. “Quando eu era menino, estudava no Colégio Nóbrega, e quando gazeava aula não era pra ir ao cinema ou pra bater bola. Eu ia pra Estação Central do Recife. E eu curtia muito ver aquilo, um trem atrás do outro. Eu ficava horas vendo aquela movimentação, adorava o cheiro de óleo queimado”, revela o senhor, um filho de ferroviário que conviveu de perto com todos os detalhes da profissão.

Kenza Saida/Museu do Trem

Kenza Saida/Museu do Trem

Carlos Vasconcelos, mais conhecido com Comandante Mack, é piloto de avião e maquinista de coração

Durante a reforma do espaço, Comandante Mack foi uma das pessoas que colaborou intensamente com informações históricas. O senhor de 79 anos, mas com um vigor de causar inveja em muitos jovens, é uma verdadeira enciclopédia humana quando o assunto é a história das ferrovias em Pernambuco e no Brasil. Tanto que seu nome consta na lista de agradecimentos e homenageados da placa de reinauguração do equipamento cultural.

“Como eu convivia direto com essa realidade e era autorizado a molecar em pátio de estação, fui apanhado pelo ’ferrocopus’, que é o micróbio das ferrovias”, brinca Comandante Mack, que aprendeu, ainda menino, a guiar uma locomotiva. “Meu pai era muito querido dentre os ferroviários e, por conta disso, eles me deixavam entrar na cabine, o que era algo proibidíssimo. Um maquinista, vendo a minha curiosidade e paixão pela coisa, começou a me ensinar a operar a máquina. E eu ia assimilando aquilo com muita facilidade porque eu gostava”, explica ele.

Costa Neto

Costa Neto

Fachada da Estação Central Capiba, um dos equipamentos mais visitados nos últimos meses

O tempo foi passando e o ‘ferrocopus‘ se instalou mais ainda na vida do Comandante Mack. “Quando eu cresci queria ser maquinista, mas meu pai me estimulou a seguir outra profissão, acabei entrando na Aeronáutica. Me entristeceu muito ver o desmantelamento das nossas ferrovias. Os Estados Unidos tem a maior e melhor rede rodoviária do mundo, e transporta mais de 60% da população em ferrovias. Nós que imitamos tudo deles não fizemos o mesmo movimento”, lamenta o comandante.

Outro caso de paixonite aguda pelo universo das ferrovias é o de Dona Marinete, 77 anos, nascida e criada no município de Palmares, Mata Sul de Pernambuco. “Meu pai, Seu Vicente, mais conhecido com Vincentão (por causa da altura), era maquinista de uma máquina de número 612, um trem de carga. A gente morava numa casa de ferroviários, numa rua chamada Alto da Estação, que ficava entre a estação e o depósito de conserto”, relembra.

Márcio Almeida

Márcio Almeida

Dona Marinete guarda até hoje um retrato do pai, Seu Vincentão, que foi maquinista de trens de carga

Segundo Dona Marinete, nos anos 40 e 50 não havia muitas oportunidades de profissão para quem era ‘peão. As opções eram ou trabalhar cortando cana-de-açúcar ou ir para a rede ferroviária. “Meu tio era guarda-freio e o esposo da minha prima era garçom de um restaurante-vagão. A relação era bem forte mesmo”, conta a senhora, que, segundo ela, “passou a infância a correr atrás de trem com cana, e a pegar ‘bigu’ nas locomotivas”.

Tanto o Comandante Mack como Dona Marinete se emocionaram ao revisitar a Estação Central Capiba após tantos anos. “Fiquei feliz com a reabertura desse espaço, sem dúvidas. Mas com a história que tenho, acho que posso pedir mais, né?”, brinca aos risos o Comandante. “Quem sabe a gente não tenha investimentos na ferrovia novamente? Linha a gente tem. Tem um trem no Arizona (EUA) que sai às 19h e volta um pouco mais tarde. E todos os vagões são restaurantes. Você vai, na verdade, jantar num trem. A gente não podia ter uma coisa desse tipo?”, sugere.

Já Dona Marinete não conseguiu esconder as lágrimas de saudade quando pisou na Estação. “Apesar de a minha relação maior ter sido com os trens de carga, eu visitei bastante a Estação Central quando ia viajar num trem de passageiros. Depois de tantos anos sem voltar aqui, quando encontrei o espaço reformado me bateu uma saudade, uma tristeza. Voltei ao passado, 68 anos atrás, num tempo que a gente era feliz e não sabia”, revelou Dona Marinete, com a voz embargada de emoção.

Gostou das histórias? Aproveite e conheça mais sobre a Estação Central Capiba e o Museu do Trem!

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Costa Neto

 

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