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Espaços culturais

X Semana Manuel Bandeira celebrou a diversidade da poesia

Além de destacar textos femininos, o evento realizado na última semana também explorou a relação entre literatura e música e abriu espaço para novos escritores

Jan Ribeiro

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A gestora do Espaço Pasárgada, Marília Mendes, recebeu o público para saraus, recitais, debates, visitas guiadas e lançamentos de livros

Por Camila Estephania

A última semana foi marcada por dias de intensa movimentação e celebração no Espaço Pasárgada, que realizou a X Semana Manuel Bandeira, em comemoração aos 132 anos do poeta pernambucano nascido em 19 de abril. Equipamento cultural dedicado ao autor, o local contou com uma programação especial, promovendo desde visitas guiadas para estudantes da rede estadual até lançamentos de livros, bate-papos, recitais e saraus, que destacaram para a atuação das mulheres e tiveram ampla participação do público.

O Espaço Pasárgada é um espaço de arte voltado não só para a memória, pois está conectado também com o presente. Essa décima edição tem essa pegada da valorização do feminino. É uma forma de homenagear esse poeta que tantas vezes valorizou a mulher em seus poemas, de uma forma muito ousada para a época em que viveu. Acho que estamos trazendo para cá esse respeito que ele tinha com as mulheres”, comentou a gestora do Espaço, Marília Mendes, após o debate “Desobediências na gira do mundo: poesia erótica escrita por mulheres”, que apresentou um bate-papo com as escritoras Daniela Galdino, da Bahia, e Cida Pedrosa, de Pernambuco.

Jan Ribeiro

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Estudantes da rede estadual fizeram visitas guiadas ao espaço dedicado a Manuel Bandeira

Uma vez me questionaram por que as mulheres só escrevem em primeira pessoa, querendo dizer que nossa escrita é muito confessional. Foi uma crítica masculina, mas ninguém questiona a escrita de Manuel Bandeira ou Chico Buarque, só as mulheres têm de se justificar. Por isso, vejo essa escrita como uma forma de vingança e a erótica, então, é uma dupla vingança, porque nos foi interditado”, observou Daniela Galdino durante a conversa, na última quarta-feira (18), em que as convidadas falaram sobre seus processos criativos e aceitação do público sobre o tipo de texto.

Desde a juventude quando eu recitava qualquer coisa, algum homem comentava algo para me diminuir. Hoje, tenho pautado muito a sexualidade depois dos 50 anos, aí já escuto coisas sobre mim do tipo ‘além de velha, é safada’. Ao mesmo tempo, tem um público que quer muito ouvir isso, senão, ‘As Filhas de Lilith’ não teria virado filme, figurino, quadrinho… Fazer isso é necessário e se essa repercussão acontece é porque tem um espaço enorme onde a mulher deve assumir seu lugar de falar”, defendeu Cida Pedrosa na ocasião.

Jan Ribeiro

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Daniela Galdino, da Bahia, participou do bate-papo sobre poesia erótica feminina e do sarau “Belo, Belas!”

Na quinta-feira (19), dia do aniversário de Bandeira, o recital “Belo, Belo, Meu Belo”, do grupo Bacantes de Poesia, homenageou o poeta interpretando seus poemas mais emblemáticos , como “Vou me-embora pra Pasárgada”, “Neologismo”, “O Bicho” e “Arte de Amar”. “O grupo foi criado aqui no Pasárgada no ano passado, através de uma oficina que a gente fez com Ana Nogueira. Desde então, a gente vem fazendo esses recitais e, nessa ocasião, escolhemos os textos mais marcantes. Cada ator escolheu o poema que mais se identificava e que tinha uma ligação com esse momento”, explicou Eduardo Godoy, que declamou “Os Sapos”, cujos versos ficaram famosos após abrir a Semana de Arte Moderna de 1922.

Jan Ribeiro

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O recital “Belo, Belo, Meu Belo”, do grupo Bacantes de Poesia, lembrou os poemas mais marcantes de Bandeira.

Para evidenciar a relação íntima da arte de Manuel Bandeira com a canção, o músico e pesquisador Lucas Oliveira também apresentou o projeto “Bandeira de Canções” no pátio do Espaço acompanhado pelo violão. No repertório entraram os versos de “Desencanto”, em versão musicada pelo próprio Lucas, assim como “Baladinha Arcaica”, entre outras já conhecidas, como “O Rei das Sereias”, em versão de Dorival Caymmi, e “Brisa”, que, apesar de não ter rima, foi gravada por Maria Bethânia em versão de samba da roda musicada por Paquito. “Trem de Ferro” e “Cotovia” foram apenas declamadas pelo músico, que ressaltou a melodia intrínseca da escrita de Bandeira, mas também lembrou de suas versões musicadas por Tom Jobim e Capiba, respectivamente.

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Lucas Oliveira apresentou poemas musicados por ele mesmo e outros mestres da

Me propuseram fazer uma serenata com as músicas de Bandeira. Achei difícil, mas gosto do risco e fui correndo atrás, pesquisando coisas que outros já musicaram”, comentou Lucas Oliveira, sobre a construção dos arranjos e a seleção das canções que cativou o plateia que encheu o pátio e, logo em seguida, cantou parabéns para o aniversariante sempre vivo no espírito pernambucano.

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Daiane Rocha participou do sarau “Belo, Belas!” e destacou a poética do sertão

O encerramento com o sarau “Belo, Belas!”, na sexta-feira (20), abriu espaço para a poesia autoral que, em seu primeiro momento, destacou as mulheres com as declamações de Adélia Coelho Flô, Ana Rosa Wanderley, Daiane Rocha e Daniela Galdino, e posteriormente apostou no público com o microfone aberto. Natural de Brejinho de Itabira, Daiane Rocha aproveitou o espaço para valorizar a poesia sertaneja.

Por mais que a gente saia do sertão do Pajeú, ele não sai da gente. Temos um modelo bem específico de fazer poema, que é a métrica. Aqui no Recife se usa mais o verso livre, lá a gente tem todo um processo para fazer com a contagem de sílabas. É um estilo que a gente se apropria justamente por ter influência da cantoria e por viver naquele cenário poético”, explicou ela que leu não só poemas próprios como também de amigos, completando a diversidade do evento, que primou pela multiplicidade de leituras, vozes e sotaques.

Veja mais imagens da X Semana Manuel Bandeira aqui.

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