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Festival de Inverno

Bené Fonteles aborda questões índigenas em roda de conversa no FIG 2017

O encontro reuniu representantes das tribos Fulniô (PE), Xukuru (PE) e Kaiowá (MT) na Galeria Galpão, integrando a programação da 32ª Bienal de Arte de São Paulo em Garanhuns

Representantes de etnias indígenas falaram sobre as dificuldades enfrentadas pelos povos indígenas

Representantes de etnias indígenas falaram sobre as dificuldades enfrentadas pelos povos indígenas

“A terra é nossa vida”. A declaração é de José Carlos Lopes, quilombola de Castainho, comunidade localizada em Garanhuns, que participou de uma roda intitulada “Conversas para adiar o fim do mundo”, mediada pelo pesquisador paraense Bené Fonteles. O direito ao território e o reconhecimento da importância dos povos indígenas e negros na formação do país foi o tema central do encontro que aconteceu na quarta-feira (26), na Galeria Galpão. O espaço também aderiu à programação da 32ª Bienal de Artes de São Paulo, da qual Bené faz parte com a obra OcaTaperaTerreiro (exibida em catálogo virtual).

O ciclo de conversas, iniciado na segunda-feira (23), será encerrado nesta quinta-feira (27) e faz parte das ações do festival em parceria com o Sesc de Garanhuns, que recebe a Bienal. Na programação, Bené explorou a relevância da contribuição do homem negro, indígena e nordestino para a cultura popular brasileira. Para conversar sobre os problemas que ainda são enfrentados por pelos povos negros e indígenas, além de José Carlos, o pesquisador convidou Genito Gomes Kaiwoá (Mato Grosso), Guilherme Xukuru (Pesqueira, PE), Raony Fulnió (Águas Belas, PE) e Ana Carvalho (Vídeo nas Aldeias).

Há mais de 500 anos, a luta pelo direito à terra continua sendo travada pelos povos indígenas e quilombolas. E é uma luta solitária, inivisibilizada, mas que não dá trégua. Acontece na resistência. Resistir, aliás, é o verbo mais conjugado por essa parcela da população a qual foi negada direitos básicos como o direito à identidade. “Querem apagar a nossa história, mas nós não vamos deixar. Vamos resistir como sempre fizemos”, garantiu Genito Gomes, que relatou as várias formas de opressões vivenciadas pelo povo Kaiowá, que desde 1945 ocupa a fronteira entre o Brasil e o Paraguai, no Mato Grosso, e enfrenta a tirania de latifundiários. “Não temos nada para deixar para os nossos filhos a não ser a terra para que eles possam plantar e colher”.

A demarcação e revisão das terras ocupadas por etnias indígenas e quilombolas tem sido uma preocupação constante. Além de problemas como a expansão urbana, poluição, e o avanço do agronegócio, o direito de continuar ocupando as áreas onde sempre estiveram presentes ainda é o maior desafio para estas comunidades. Em 2016, um decreto do Governo Federal provocou a reação do movimento indígena, organizações indigenistas e defensores dos direitos humanos.  A minuta do decreto, intitulada “Proposta de Regulamentação da Demarcação das Terras Indígenas” prevê revisões e posse de territórios até mesmo já homologados, afetando diretamente 600 terras indígenas.

Jan Ribeiro

Jan Ribeiro

Indígenas finalizaram o encontro com uma demonstração do toré

No Quilombola Castainho, primeira comunidade pernambucana a receber esse título da Fundação Palmares, as tensões são constantes. José Carlos, que já precisou ficar sobre os cuidados do Programa de Defensores de Direitos Humanos do Estado, ainda sofre ameaças. “Só queremos o direito de ocupar as nossas terras, criar nossos filhos e manter as nossas tradições”, declarou o quilombola. A história de luta e resistência de Castainho serve de inspiração para outras comunidades que ainda lutam pelo reconhecimento de suas identidades e demarcações de seus territórios.

“Mais de cinco milhões de índios foram mortos pelo homem branco. Isso é mais do que o que Holocausto matou na Alemanha. No Brasil, no México e na Colômbia o processo foi parecido e a culpa é toda nossa, que não prestamos atenção em quem estava aqui antes de nós. Precisamos respeitar os donos dessa terra”, pontuou Bené Fonteles. E encerrou fazendo menção a frase do guerreiro Aimberê, símbolo da resistência indígena: “Eles nos destruirãomas um dia renasceremos no coração do homem branco”.

Urgências e poéticas

Pernambuco foi o primeiro estado brasileiro a oficializar uma língua indígena. Pelo menos 3 mil pessoas fala o Iatê da tribo Fulniô, de Águas Belas. A língua tem até um dicionário concebido pelo índio Aluízio Caetano, que faleceu recentemente. Caetano vivia no Recife há quase 50 anos, onde atuava como barbeiro, ofício que aprendeu em sua tribo. A contribuição de Aluízio é um marco para o povo Fulniô, que continua buscando formas de registrar a sua própria história.

Durante a conversa, Raony Fulniô falou sobre o vídeo produzido dentro da tribo, intitulado “Yoonahlê” (que significa cotidiano em Iatê). O filme foi possível graças ao projeto Vídeos nas Aldeias, que estava representado pela pesquisadora Ana Carvalho. A iniciativa faz o registro cultural das populações indígenas por meio de seus próprios olhares. “Os vídeos promovem o diálogo entre as novas gerações e sua ancestralidade, além de servir como arma de defesa para os territórios indígenas e posicionamento contra a narrativa oficial do homem branco”, destacou Ana.

Em Pesqueira, a tribo Xukuru, que reúne 24 aldeias e possui cerca de 10 mil habitantes, também tem ensaiado formas de resistência lançando mão das novas tecnologias. Guila, que pela primeira vez representou seu povo numa roda de conversa, participou do encontro ao lado de David, Diogo e Kleber, todos da sua tribo. Guila falou sobre o trabalho de empoderamento realizada dentro da aldeia com o objetivo de manter fortalecer a identidade da etnia e manter vivos os cultos e tradições de sua tribo.  Os jovens xukurus encerraram o encontro apresentando o Toré, ritual presente nas manifestações culturais de indígenas nordestinos,  é um ritual que une dança, religião, luta e brincadeira.

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