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Festival de Inverno

Cultura Hip Hop mereceu programação especial no FIG 2017

Som na Rural recebeu projeto "Jornada de MC's", que reuniu MC’s, B-boys e grafiteiros num dia de louvor à cultura de rua

 

Público vibrou com os duelos de b-boys e de mestres de cerimônia promovidos pela Jornada de MC-s

Público vibrou com os duelos de b-boys e de mestres de cerimônia promovidos pela Jornada de MC’s

Por Lenne Ferreira

Pela primeira vez na história do Festival de Inverno de Garanhuns, os elementos da cultura Hip Hop ganharam o destaque que merecem na programação do maior encontro da cultura pernambucana. O último dia do Som na Rural, instalada no Parque Euclides Dourado, foi reservado ao projeto “Jornada de MC’s”, que, das 10h Às 17h, promoveu batalhas de mestres de cerimônias e b-boys reunindo jovens de várias cidades do Estado.

Ouricuri, Caruaru, Arcoverde, Bom Conselho, Saloá, Lajedo, São José do Egito. A lista de municípios era extensa. Pelo menos 40 jovens residentes na Região Metropolitana do Recife e interior disputaram a jornada idealizada pelo produtor e DJ pernambucano Big. O projeto, criado há 10 anos, estacionou pela primeira vez no FIG e demarca um divisor de águas no evento. “A inclusão de um projeto como esse no Festival significa a legitimação do trabalho de jovens da periferia em um evento que a maioria nunca teve oportunidade de conhecer, além de contribuir para a elevação da autoestima deles”, pontuou o idealizador.

A batalha de b-boys, que aconteceu durante o período da manhã, prendeu, principalmente, a atenção das crianças, que vibravam com as performances rápidas dos dançarinos de breaking. Grudada na barra do palco, Joana Vitória, de 11 anos, não piscava e saiu do Euclides Dourado garantindo que vai começar a dançar também. “Eu só conhecia pela televisão. Já pedi a minha mãe pra procurar aula pra mim”, disse a menina, que mora em Garanhuns.

Para compor a mesa de jurados, foram convidados três experientes b-boys: Victor Erick, Samuel Silva e Hugo Cheque Mate. Além da técnica e desenvoltura dos movimentos, também foram levados em consideração critérios como presença de palco e interação com o público. Monstrinho, do Jordão, e Sombra, de Águas Cumpridas, formaram a dupla vitoriosa da disputa. O segundo lugar ficou com os b-boys Fabrício (Alto José do Pinho) e Mustang (Alto Santa Terezinha).

MC Tiger (à esquerda) e DJ Big, idealizador da Jornada (à direita) acreditam nos elementos do Hip Hop como ferramentas de inclusão social

MC Tiger (à esquerda) e DJ Big, idealizador da Jornada (à direita) acreditam nos elementos do Hip Hop como ferramentas de inclusão social

O duelo mais importante do dia, no entanto, foi protagonizado pelos MC’s, que se enfrentaram sob o julgamento de dois grandes rimadores pernambucanos: Tiger MC e MC Mago. Os dois avaliaram itens como métrica, ritmo, conteúdo das rimas, desenvoltura e performance no palco.  “O MC nada mais é do que um poeta urbano, ele leva para o palco as coisas que vivencia na rua. Faz parte da cultura do nordestino assistir aos desafios dos emboladores e cantadores populares. O público gosta de ver a provocação e a resposta”, comentou Big, diante da grande receptividade do público, que torceu e vibrou com as atuações dos MC’s.

O grande vencedor da Jornada foi MC Speed, natural de Limoeiro. Cantor, compositor e vocalista do grupo D’Cara pra Rua, Speed venceu todos os duelos. Aos 22 anos, o artista demonstrou domínio de conteúdo e improvisação, boa dicção, métrica e respeito aos outros MC’s. “Essa vitória é muito importante para mim porque representa mais um degrau que subi. Toda batalha é um momento de aprendizado”, declarou ele, que além do troféu, recebeu um cachê simbólico pela participação na batalha.

Para Big, além do reconhecimento à relevância do movimento Hip Hop, a ação mostra a força dos jovens e aproxima a sociedade de uma cultura que reverbera os problemas do cotidiano urbano com criatividade.  “Todos os jovens participam de diversas batalhas ao longo do ano. Cada um no seu reduto. O papel do nosso projeto é fazer um trabalho mais focado a partir do movimento que eles fazem em seus bairros e suas cidades”, explanou.

 

Métrica, ritmo, conteúdo das rimas e desenvoltura foram os critérios observados durante a batalha de MC's

Métrica, ritmo, conteúdo das rimas e desenvoltura foram os critérios observados durante a batalha de MC’s

Breaking a serviço do social
Antes do início do duelo entre MC-s e B-boys, o palco do Som na Rural recebeu 17 adolescentes, entre 15 e 17 anos, que cumprem medidas educativas em unidades da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Funase). Todos eles, provenientes de cidades do interior, participam de um projeto de oficinas de breaking, idealizado pelo b-boy Levy Costa. A ação existe há seis anos e usa a dança de rua para promover a inclusão social e trabalhar a autoestima de jovens que entraram conflito com a lei. “As oficinas têm boa inserção nas unidades. Nosso principal objetivo é fazer com que os jovens enxerguem outras possibilidades na vida”, explica Levy.

Diretora da Casa de Semiliberdade de Garanhuns, Luciana Virgínia, prestigiou o encontro e elogiou a parceria entre a Secult-PE e o projeto por observar o envolvimento dos adolescentes com as oficinas. “Só este ano, a nossa unidade recebeu três oficinas sendo uma de grafitagem, uma de rima e outra de dança de rua. Os adolescentes aprendem muito, evoluem, participam e, agora, vão lembrar pra sempre da experiência de terem participado de um festival com o porto do Festival de Inverno”.

Este ano, a iniciativa ganhou mais um reforço. A convite de Levy, o MC Kbça, de Jaboatão dos Guararapes, começou a ministrar oficinas de rima para os jovens. A novidade já começa a dar frutos, B. Santos (nome fictício), de 19 anos, natural de Garanhuns, já curtia rap, mas nunca imaginou um dia escrever sua própria letra. A música de sua autoria fala sobre injustiça social e o cotidiano das ruas e será gravada por Kbça como forma de incentivar a veia artística do adolescente, que cumpre medida em regime semi-aberto. “Eu vou ter uma música gravada. Isso é uma felicidade pra mim”, confessou o jovem, que conta os dias para voltar à vida social e continuar rimando a vida.

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