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Festival de Inverno

‘Experimento Pezinho de Galinha’ atrai grande público à 2ª Mostra de Teatro Alternativo do FIG

Inspirada em obra proibida pela censura, o espetáculo aborda o mundo da prostituição, da hipocrisia religiosa e das drogas através de uma linguagem coloquial e cheia de gírias

A atriz Nínive Caldas interpreta a prostituta Nanda, em peça na Mostra de Teatro Alternativo. Foto: Fer Verícimo/ Secult-PE

A atriz Nínive Caldas interpreta a prostituta Nanda, em peça na Mostra de Teatro Alternativo. Foto: Fer Verícimo/ Secult-PE

Por Xavana Celesnah

A Galeria Galpão teve mais uma noite de casa cheia para prestigiar a peça de teatro Eu Gosto Mesmo de Pezinho de Galinha Porque eu Como a Carninha e Limpo o Dente com a Unhinha, apresentada durante a 2ª Mostra de Teatro Alternativo do FIG. Apesar do título um tanto cômico, o espetáculo aborda situações de violência ainda muito presentes nas grandes cidades de países subdesenvolvidos, como a violência contra a mulher, o abuso da fé das pessoas e as relações em torno do tráfico de drogas. Em cena, os atores Nínive Caldas e Eric Valença, do Experimento Pezinho de Galinha (PE), dão vida a vários personagens, com destaque para “Nanda”, a prostituta, interpretada por Nínive e “Tiago Menelau”, o pastor evangélico, interpretado por Eric Valença, que vivem situações ora cômicas, ora dramáticas, levando a plateia das risadas soltas a momentos de tensão e compaixão pelas misérias vividas por seus personagens.

A peça foi inspirada no livro “Navalha na Carne”, de Plínio Marcos, escrito em 1967 e proibido pela censura. A obra retrata de forma realista a vida do submundo marginal, com suas opressões e relações humanas violentas. “Eu estava em circulação pelo norte do país com o espetáculo Terra, quando vi muitos pastores evangélicos desrespeitando a cultura indígena. A partir dessas observações, surgiu a ideia de montar o espetáculo. Depois, já fazendo aulas de teatro com Nínive, lemos o ­“Navalha na Carne” e fomos escrevendo o texto conjuntamente, inspirados no livro que mostra de maneira crua as injustiças sociais e os jogos de poder entre os seres humanos”, explica o ator e diretor da peça, Eric Valença.

Para compor o texto de maneira mais realista, os atores fizeram laboratórios em igrejas evangélicas, além de leituras de boletins de ocorrência e visitas a delegacias do Recife, onde puderam pegar depoimento de quatro delegados. “Nas escutas que fizemos nas delegacias, os depoimentos que ouvimos em torno da mulher eram bizarros. A questão da mulher “rotulada”, “posta no lugar” ainda é muito presente no cotidiano das nossas cidades, estamos vivendo um momento alarmante onde o feminicídio não pode ser ignorado. E resolvemos abordar essa questão da violência contra a mulher no espetáculo”, afirma Eric.

Fer Verícimo

Fer Verícimo

Público lotou mais uma sessão da 2ª Mostra Alternativa do FIG

O pastor evangélico Tiago Menelau rouba a cena com sua falsa fé, escancarada pela maneira como deseja se aproveitar financeiramente dos fiéis. No início da peça, o ator recria um culto, ironizando a maneira como os pastores conseguem retirar dinheiro do “rebanho” em frases como “vamos abençoar seu cartão de crédito”.

A violência contra a mulher é posta em cena por Nanda, a prostituta aparentemente bem resolvida e que se identifica com a profissão, mas que, por trás daquele trejeito altivo, esconde  sentimentos de angústia e indignação relativos ao passado traumatizante que viveu. Um dos momentos mais marcantes do espetáculo é quando Nanda lava suas calcinhas, fazendo um monólogo sobre as lembranças de sua adolescência, quando foi abusada sexualmente, teve uma gravidez precoce, foi obrigada a ir para casas de passagens e iniciada no universo das drogas, por influência de um de seus amantes, entrando, inclusive, para o tráfico na esperança de casar com aquele que se dizia ser seu homem. O desabafo de Nanda é uma síntese do que acontece com muitas “novinhas” da periferia dos grandes centros urbanos, que são abusadas, violentadas e acabam entrando para a prostituição e para o tráfico, sem muita consciência a respeito do rumo de suas vidas.

“Participar dessa mostra é maravilhoso pra gente que faz teatro porque fazer teatro continua sendo muito difícil e momentos como esse são importantes para mostrarmos nosso trabalho”, declarou Eric ao final do espetáculo. “A mostra também vem incentivar o público de Garanhuns e de pessoas das demais cidades que teatro pode ser feito qualquer lugar, queremos estimular a produção teatral”, disse Nínive. Nesta quarta-feira (26), a mostra continua às 22h com o espetáculo Que Muito Amou, da Cênicas Cia de Repertório (PE).

Serviço:

2ª Mostra de Teatro Alternativo

Local: Galeria Galpão. Av. Dantas Barreto, 34, Centro. Garanhuns-PE

Horário: 22h

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