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Festival de Inverno

Homenagem a Hermilo Borba Filho emociona público do FIG

Dentro da programação da Praça da Palavra que leva o nome do escritor homenageado, Leda Alves e Carlos Carvalho revisitam memórias e obras do autor

Por Clara Albuquerque

Todos os dias, a Praça da Palavra Hermilo Borba Filho, nome do escritor homenageado do 27º Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), oferece uma programação recheada de apresentações, contações de histórias e rodas de diálogo para o público visitante de todas as idades. Ontem (27), programação foi encantadora e emocionante com direito a contação de histórias com origamis, lançamento de livro e uma conversa sobre a vida e a obra do escritor.

Jan Ribeiro

Jan Ribeiro

Conversa sobre vida e obra do homenageado

O diálogo contou com a participação da atriz Leda Alves, viúva de Hermilo, e do dramaturgo Carlos Carvalho, que adaptou várias de suas obras para o teatro, e teve ainda a mediação do diretor teatral João Denys, que fez uma introdução trazendo suas impressões sobre o homem e o escritor Hermilo. “Ele foi um pernambucano de Palmares muito importante para a literatura. Era um homem orquestra porque lidava com muitas atividades e nunca deixou de levantar o artista popular. Viveu a labuta de um artista como se quisesse se santificar pela palavra, de onde o podemos conhecer”, diz ele. Antes de passar a palavra para Leda Alves, João Denys faz uma leitura do texto Louvação de Julho, de Hermilo.

Emocionada, Leda Alves toma a palavra e inicia seu discurso dizendo que o referido texto foi escrito há cerca de cinquenta anos, contudo continua jovem e que através dele é possível conhecer a história da cultura pernambucana. “Importa que nós como depositários da semente de Hermilo possamos plantá-la em quem não o conhece”, diz ela. Leda se diverte contando histórias da convivência que teve com Hermilo e diz estar, naquele momento, proferindo um testemunho de uma mulher que teve o privilégio de viver a maior parte de sua vida com ele.  “Não só de cama e mesa, mas à frente das lutas políticas religiosa e cultural. Neste caminhar, tudo é vida, nem sorte, nem tristeza, nem azar. Falar em Hermilo é alimento, vigor e alento. Dele fui discípula, atriz, companheira e mulher amada, testemunha de sua vida. Ele tinha uma infinita capacidade de compreender e amar. Ele não tinha preconceitos e muita obstinação no serviço de escritor e encenador. Estava, sempre, de plantão a serviço das ideias. Sua postura continua em mim como bandeira empenhada. Seu amor pela vida fazia dele um homem de fascínio social. Hoje ele está no conhecimento absoluto da fé e do amor de Deus”, diz ela. Leda conta que, cinco dias antes de sua partida, Hermilo teve uma conversa com um padre e revelou que se sentia pronto para se deparar, cara a cara, com Deus, porque era um homem conferido, isto é, sua existência conferia com sua essência. Ela disse, ainda, que ele escreveu até três dias antes de ir. “Sua energia era tão forte que passava para a gente. Sinto-me depositária das obras dele, um vaso condutor. A missão ainda está na minha frente e eu a irei cumprir. Viva a vida e viva a Hermilo!”, diz ela. Leda foi aplaudida com entusiasmo pelo público.

Jan Ribeiro

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Leda Alves compartilhou momentos vividos com Hermilo

Em seguida, o dramaturgo Carlos Carvalho que se disse interessado na obra de Hermilo como encenador, cidadão, homem e pesquisador que há mais de trinta anos trabalha com as obras dele. “Não dá para não ler Hermilo. Especialmente, essas duas obras reeditadas pela CEPE, Os ambulantes de Deus e o livro Contos. A literatura hermiliana é o engendramento da vida e da vida ficcionada. Ele conta com maestria o que foi vivido ou não. É difícil para um ator interpretar o texto dele, tanto a respiração quanto a sintaxe são difíceis. Nesse fantástico ele permitia o maravilhoso. Ao mesmo tempo, ele era a fonte de sua narrativa e se reinventava em sua memória”, conta ele. O dramaturgo também falou de suas experiências adaptando obras de Hermilo. “Eu costumo dizer que traduzir é, sempre, trair. Trair por bem mas, ainda assim, trair. Adaptar as obras de Hermilo é algo difícil”, diz ele. Carlos, também, fez algumas leituras de alguns textos de Hermilo Borba Filho. Sua leitura envolvente prendia o olhar de todos.

Ao finalizar a conversa, Leda Alves agradeceu a presença de todos, à Secretaria de Cultura de Pernambuco e à Fundarpe pelo apoio, ao FIG e ao centenário de Hermilo. “Este é um espaço salutar e fértil. Sinto que, daqui, vai nascer muita arte. Gostaria, também, de agradecer à CEPE pela permanência da obra de Hermilo”, finaliza ela.

A programação da Praça da Palavra Hermilo Borba Filho contou, ainda, com variadas atrações, a exemplo da leitura dramatizada da obra A moça do Trapézio, do escritor garanhuense Luiz Jardim, realizada pelo Grupo de Teatro do SESC de Garanhuns, uma conversa com o sobrinho neto do referido autor, Luiz Afonso Jardim e a escritora Ivonete Batista sobre vida e obra de Luiz Jardim e o lançamento do livro O Reino Encantado, da pesquisadora Débora Cavalcante, uma reedição da obra de Alencar Araripe Júnior cuja existência de exemplares era muito rara.

MAIS ATIVIDADES

Durante a tarde, as crianças se deliciaram com a contadora de histórias paulista, Irene Tanabe. Todos ficaram encantados com o desvendar das histórias que ela contava através das dobraduras que iam tomando vários formatos. A cada nova história, Irene utilizava o seu “plim”, uma espécie de sino que produzia um som agudo e as intercalava. Irene contou três histórias: Abrapracabra, de Fernando Vilela, Caso das Bananas de Milton Célio de Oliveira Filho e A Cobra Sissa, de sua autoria. Através de seu talento com as expressões, entonação vocal e o mistério a respeito do formato dos origamis, as crianças foram ficando curiosas e, logo, estavam envolvidas com as histórias. “A princípio, elas ficaram tímidas mas à medida em que fui apresentando, elas foram participando e a ideia é essa mesmo, fazer as histórias acontecerem com participação, isso é contação de histórias. Eu acho o festival muito importante porque traz uma variedade cultural para o interior do estado e isso é importante para a cidade vivenciar essas diversas linguagens. Foi um prazer estar aqui”, conta ela. Irene tem 14 anos de contação de histórias. É o segundo FIG do qual ela participa, o primeiro foi em 2012, para uma oficina de formação em origamis.

Em seguida, o público pôde participar de uma conversa com a escritora e ilustradora pernambucana Rosinha, por intermédio de uma parceria entre o FIG e o Festival Internacional de Literatura Infantil de Garanhuns. Na ocasião, Rosinha falou de suas experiências profissionais e de sua carreira. “Meu pai era um grande leitor e passava isso pra a gente. Esse diálogo com ele deve ter me ajudado a chegar no livro. Meu primeiro livro eu escrevi para meus filhos, para eles aprenderem, através do recurso visual, a cantar uma música na escola que eles não sabiam”, conta ela. Rosinha tem mais de cem livros publicados, iniciou seus lançamentos no Recife. Arquiteta de formação, apaixonou-se pela literatura enquanto ofício em 1994 e nunca mais parou. “Na primeira vez em que fiz participação em uma bienal, eu senti, pela primeira vez, o sentimento de pertencimento. Pensei: aqui é o meu lugar”, lembra ela. “Meu maior desafio é encontrar, sempre, o que dizer para as crianças. Tive a sorte de realizar vários desejos e este é um: espero chegar a escrever para várias classificações etárias para crianças”, diz ela. Os trabalho mais recente de Rosinha é uma homenagem à poetisa Cecília Meireles e, segundo ela, é um convite para que as crianças conheçam a obra dela. “Acho que o que eu quis registrar, até hoje, foi a minha infância para que ela não fugisse de mim. É muito importante que nós educadores reafirmemos a importância do livro, que é a tecnologia que mais deu certo, até hoje. Ele funciona e é fácil, temos a obrigação de acreditar e entregá-lo nas mãos da criança. A criança lê imagens e eu percebo que é através das imagens que ocorrem as manipulações, ou seja, a leitura de imagem ajuda a ter um olhar crítico”, alerta Rosinha.

 

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