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Festival de Inverno

‘Literatura na Cena’ reúne atores e dramaturgos no FIG

Projeto estreou no FIG 2017 debatendo a integração entre Literatura e Artes Cênicas. Programação segue hoje com conversa sobre a obra de Cervantes

Fer Verícimo/Secult-PE

Fragmentos de textos de Caio Fernando Abreu e suas personagens femininas inspiram a produção do ator Rodrigo Lima

Fragmentos de textos de Caio Fernando Abreu e suas personagens femininas inspiram a produção do ator Rodrigo Lima

Por Lenne Ferreira

Cada trago que Alice dá no cigarro tira o fôlego da plateia. A personagem, interpretada pelo ator Rodolfo Lima em “Réquiem para um rapaz triste”, fala de dor e delícia, morte e vida, amor, gira na contramão da roda da existência normativa e transmuta angústia em resiliência.  Mas não uma resiliência passiva. Alice é reação pura. Crua. Sem subterfúgios nem arrodeios assim como os fragmentos dos textos do escritor Caio Fernando Abreu, que fundamentaram a peça apresentada na 1ª edição do Literatura em Cena. O projeto estreou na noite deste sábado (22) e segue com sua programação hoje, na Galeria Galpão, no 27ª Festival de Inverno de Garanhuns.

A palavra em movimento. Literatura encenada. Expressada em gestos e silêncios. O Literatura na Cena, que conta com a curadoria de José Neto, assessor de Teatro e Ópera, e Mariane Bigio, da Coordenadora de Literatura, ambos da Secult-PE, nasce com a proposta de debater sobre a construção dramatúrgica a partir da literatura. E foi sobre os processos de construção de “Alice” e de “Seu Alceu”, outro personagem interpretado por Rodolfo no monólogo “Bicha Oca”, inspirado em contos homoeróticos do autor pernambucano Marcelino Freire, que girou a conversa inédita mediada pelo ator e diretor Breno Fittipaldi – antes das apresentações das duas peças.

Durante o bate-papo, Rodolfo falou sobre a relação do seu trabalho com as letras e de sua própria história com os personagens que dá vida. Fundador do Teatro do Indivíduo, o ator revelou os percursos que percorreu para formatar mais do que a narração de um texto, mas digerir e transmutar aquilo que a palavra escrita nem sempre diz. “Eu admiro muito o ofício do ator. É ir ao inferno sem concessões e trazer notícias de lá. Rodolfo lê nas entrelinhas, sai da superficialidade e mergulha fundo”, observou Marcelino Freire. “Não é uma questão de dar voz a quem não tem voz porque todos têm vozes. É ouvir”, completou o autor, inspiração recorrente no trabalho do ator paulista que há 15 anos usa o palco como confessionário.

O escritor Marcelino Freire e o ator Rodrigo Lima bateram um papo com a mediação do diretor Breno Fittipaldi

O escritor Marcelino Freire e o ator Rodrigo Lima bateram um papo com a mediação do diretor Breno Fittipaldi

A conversa também contou com a participação da plateia, que fez questionamentos e apontamentos sobre os processos criativos do autor e ator, fomentando um intenso debate sobre os caminhos que cruzam Literatura e Arte Cênica. “O lugar da arte no contemporânea é um lugar que ultrapassa as barreiras e as definições. É um lugar que ultrapassa os rótulos e muito mais fala do ser humano e do humano”, opina o curador e assessor de Teatro e Ópera da Secult-PE, José Neto.

É justamente o lado mais humano, em toda sua vulnerabilidade, paixão, crença e descrença, que assistimos Rodolfo se despir diante de nós seja em “Réquiem …” ou “Bicha Oca”. “Eu só queria nascer feliz”, diz a personagem Alice. Chora Alice. Traga Alice. Transforma angústia em reflexão. Essa mulher de meia idade, que narra seus amores e dissabores, entre um cigarro e outro, entre uma gargalhada e outra, questiona a normatividade, o senso comum do que é felicidade, a pateticidade dos que giram e fazem girar a roda do individualismo capitalista inertes às paixões, desejos e experiências libertárias. Alice tece a sua própria roda com fios de uma história que já se deparou com muitos “nãos”, mas não lhe tira a busca por “sims”. Que mulher.

Bicha Oca é um monólogo criado a partir de contos homoeróticos do escritor pernambucano Marcelino Freire

Bicha Oca é um monólogo criado a partir de contos homoeróticos do escritor pernambucano Marcelino Freire

Em “Bicha Oca”, texto inspirado nos contos de Marcelino, que fez questão de assistir à encenação, Rodolfo nos apresenta às relações homoafetivas vividas por Seu Alceu, um homem ora louco, ora tão consciente de si que a insanidade parece a única salvação. O amor por um certo “Edvaldo”, encarnado pelo ator Alexandre Acquiste, serve de mote para injetar na plateia temas relacionados com liberdade e sexualidade, solidão e submissão. É um passeio pela nostalgia melancólica de alguém desde a infância predestinado ao luto de viver camuflado. Rodolfo liberta Seu Alceu. Não lhe dá voz, lhe dá ouvidos.

Nas duas peças, o ator, a partir das obras de dois escritores transgressores, bate forte. Sem dó. É que ele, na sua dedicada busca por dizer o indizível, “traz notícias do inferno”. Mas traz também notícias de si, de sua formação, das suas frustrações e anseios. Não é só sobre a obra de Caio Fernando Abreu nem Marcelino Freire, é sobre si que ele também fala. Sobre os seus afetos e percursos. É sobre Patrick, seu sobrinho de 16 anos, que um dia sonhou dançar balé. Um sonho minado pelo preconceito fundamentado numa heteronormatividade que beira à morbidez. Alice, Seu Alceu, Edvaldo, Patrick, Caio e Marcelino. Rodolfo se transveste de todos eles e outros (as) mais em cena. “Meu coração está cansado de maquiagem”. O nosso também.

Confira a programação do Literatura na Cena deste domingo (23)
Galeria Galpão
20h – Bate-papo “Cervantes Contemporâneo”, com Ivaldo Vasconcelos (PE) e Maksin Oliveira (RJ)
22h – O incansável Dom Quixote
Magnifica Trupe de Variedades (RJ)  Maksin Oliveira

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