Pular a navegação e ir direto para o conteúdo

O que você procura?
Newsletter

Festival de Inverno

Milhares de pessoas pulam ao som da BaianaSystem no FIG

Banda baiana foi a atração mais aguardada da terça-feira, que ainda teve Eddie, Lucas Santanna e Neander

Rodrigo Ramos

Rodrigo Ramos

BaianaSystem encheu a Praça Mestre Dominguinhos

Por Camila Estephania

“A mais de mil decibéis, virado numa goteira”, diz o verso que é a síntese do grupo BaianaSystem, a atração mais aguardada de ontem no palco Mestre Dominguinhos. Isso porque não é preciso ser fã ou nem mesmo conhecer a banda para se envolver com seu show, cujos graves parecem provocar uma espécie de reação espontânea e involuntária no corpo. Foi assim que a esplanada começou a tremer sob os pulos instintivos de um público em frenesi, que encheu o polo em plena terça-feira, logo nas primeiras batidas da abertura com a música “Lucro”.

Em seguida veio a faixa-título do elogiado segundo álbum do grupo, chamado “Duas Cidades”, levando a plateia a cantar junto no refrão. Ocasionalmente, o fundador da banda Roberto Barreto solava na guitarra baiana, propondo a desconstrução do axé e retomando as raízes da música soteropolitana, sedimentada por diferentes manifestações como o ijexá, afoxé, samba reggae e blocos afros, também representados pela percussão orgânica em um show que destaca as pancadas das programações. Músicas como “Barra Avenida” eram estendidas por rimas improvisadas pelo vocalista Russo Passapusso, que versava sobre igualdade e democracia.

Nesse contexto também foram cantadas músicas como “Matuto”, da carreira solo de Passapusso, e “Invisível”, que fala sobre a segregação social reiterada pela postura negligente de políticos e camadas da população. A canção também faz crítica aos blocos de Salvador que usam o cordão de isolamento, dividindo o Carnaval por poder aquisitivo. Donos do seu próprio trio elétrico durante a folia baiana, o grupo não usa cordões e se tornou símbolo da cultura de resistência não só na cidade natal, como também no resto do Brasil. Por isso, uso de elementos instrumentais que ficaram popularmente conhecidos como componentes do axé é, na verdade, o resgate da cultura baiana de raiz associada a abordagem pop do soundsystem.

“Tocar nesse palco é uma vitrine e é uma possibilidade da gente dialogar cada vez mais. É um prazer tocar na mesma noite da banda Eddie, por exemplo, porque a música baiana e a pernambucana têm se aproximado muito”, observou Roberto, após o apresentação encerrada pelo hit “Playsom”, que incendiou a praça Mestre Dominguinhos. Prova dessa afinidade entre as propostas musicais dos dois estados, a banda Eddie contou com a participação da Orquestra de Frevo Henrique Dias no show que antecedeu o grupo soteropolitano, buscando evidenciar o trabalho da Escola de Música Henrique Dias, que fica em Olinda, e sua importância para a preservação do frevo.

Rodrigo Ramos

Rodrigo Ramos

Banda Eddie contou com a participação da Orquestra de Frevo Henrique Dias

Antes de se dedicar ao ritmo pernambucano tocando clássicos, como “É de fazer chorar”, a banda apresentou um balanço da carreira com músicas como “Na beira do rio”, “Ela vai dançar”, “Pode me chamar”, sempre tendo a dança como resposta do público. “O Baile Betinha” foi dedicada à memória de Erasto Vasconcelos, que faleceu em outubro do ano passado, como mais um sinal de respeito a cultura popular pernambucana. “Eu acho que a banda Eddie faz música popular brasileira urbana e uma das percelas maiores dessa música foi justamente essa escola com seu frevo, juntamente com o mestre Erasto e outros, que nos deram autonomia e credibilidade para a gente frequentar esse território da música brasileira. A programação do FIG privilegia as coisas boas autorais e estar associado a isso é um orgulho pra gente”, disse o vocalista Fábio Trummer.

Rodrigo Ramos

Rodrigo Ramos

Lucas Santanna teve momento funk

Mais cedo, o baiano Lucas Santanna chamou atenção da plateia ao interromper seu rock tropical com um momento pancadão, que teve seu ponto alto com a música “Funk dos Bromânticos”, dedicada a Ney Matogrosso na ocasião. “Ele é um cara que levantou a bandeira da liberdade sexual em um momento mais difícil que o de hoje e não merece ser massacrado porque foi mal interpretado”, comentou ele, sobre a entrevista em que o cantor destacou ser humano antes de qualquer classificação sobre sua sexualidade. O poprock da banda garanhuense Neander foi a responsável pela abertura do palco Mestre Dominguinhos, somando o público no início da noite.

PÚBLICO

O dia também foi marcada pela chegada de caravanas de outras cidades que se planejaram para aproveitar a programação do Festival ontem. Com a abertura do Palco Instrumental, Palco Pop, Palco Forró, na terça, e o início do VIII Virtuosi na Serra no dia anterior, os visitantes passaram os dia circulando pelos ambientes da cidade e se encontraram no início da noite no Palco Mestre Dominguinhos.

Foi o caso da estudante Bruna Medeiros, de 24 anos, que chegou do Recife ontem para retornar após os shows. “Eu achei massa o show de BaianaSystem aqui, porque foi super tranquilo e organizado. O pessoal todo de Recife veio para assistir a apresentação”, opinou ela, que organizou uma maneira de poder conferir a programação durante a semana sem interromper as atividades na cidade natal. “O BaianaSystem é um show que eu jamais imaginaria aqui agora, talvez só anos depois. Eu gostei da programação, se você prestar atenção em todos os polos sempre tem algo legal pra fazer. Muita gente só olha o que vai ter no palco principal, mas independente disso a programação tá rolando”, falou a empreendedora Maysa Lins, de 27 anos, que também veio de Recife para curtir o FIG.

Quem veio de fora do estado e ainda não conhecia o evento também aprovou a Festival. “Eu fiquei bem impressionado com a programação. Já tinha visto um show de BaianaSystem no festival Bananada, de Goiânia, e fiquei super animado quando vi que ia ter aqui. Ainda não conhecia Garanhuns e fui surpreendido com um evento desta dimensão”, disse o bailarino Junior Leite, de 27 anos. Entre o público natural de Garanhuns, o técnico de laboratório Wallace Maia, de 36 anos, foi um dos que se dispôs a ir conferir as atrações que ainda não conhecia. “Eu vim aqui só pra conhecer e achei bom demais. Quando peguei a programação, falei para as pessoas de tudo de bom que tinha, até que alguém veio me falar do BaianaSystem, que eu nunca tinha ouvido falar. Cheguei aqui e amei, tanto que acabou e ainda continuo aqui na praça”, divertiu-se ele, que acredita que festivais tem também o papel de apresentar o novo. “Belchior deixou a mensagem: o novo sempre vem”, brincou.

 

< voltar para home