Pular a navegação e ir direto para o conteúdo

O que você procura?
Newsletter

Festival de Inverno

Sessenta mil pessoas viveram a última noite de shows do Palco Mestre Dominguinhos

Fernanda Abreu, Zé Ricardo, SpokFrevo Orquestra, Jr. Black e André Amorim foram as atrações que balançaram a multidão

Elimar Caranguejo

Elimar Caranguejo

Fernanda Abreu convidou o público para dançar em cima do palco

Por Camila Estephania

Dia de maior público do 27º Festival de Inverno de Garanhuns, o último sábado talvez tenha sido a despedida e também o reconhecimento da plateia sobre a potência desta edição. Cerca de 60 mil pessoas foram ao Palco Mestre Dominguinhos para assistir aos shows de Fernanda Abreu, Zé Ricardo, SpokFrevo Orquestra, BNegão e  Andrea Amorim em um misto de curiosidade e nostalgia por conta das atrações que já haviam passado pelo polo e surpreenderam o público. O FIG deste ano veio para lembrar que o princípio básico de um festival não reside somente em trazer grandes atrações, mas, principalmente, apresentar o que há de novo em todas as linguagens e, nesse aspecto, pode-se dizer que as expectativas foram cumpridas.

Mesmo em um ano tão alardeado pela crise, manter a programação fresca por nove dias foi um desafio superado na medida em que o polo Mestre Dominguinhos contou não só com revelações da música brasileira, como também veteranos consagrados a frente de novos projetos. Assim, a esplanada tornou-se um grande espaço de debate sobre as novas tendências da música e todos os temas de que ela trata. Vieram à tona o funk, no show de Alice Caymmi, a desconstrução do axé, com o BaianaSystem, a releitura de Dominguinhos pelo Cantoria Agreste, a tolerância religiosa na noite de samba com Mariene de Castro, o combate ao racismo com Chico César, a liberdade afetiva do disco “Amor Geral”, de Fernanda Abreu, entre outros. A síntese do momento sociopolítico brasileiro, que transparece na música através das letras e da representatividade que determinados ritmos carregam.

Elimar Caranguejo

Elimar Caranguejo

Cantora carioca apresentou o repertório do disco “Amor Geral” com muita dança

Na última noite, por sua vez, os grooves da black music deram o tom do encerramento que teve o novo trabalho de Fernanda Abreu como a atração mais aguardada da noite. Desde que saiu da banda Blitz, a cantora construiu uma carreira solo pavimentada em segmentos do funk carioca e pop, mas o seu retorno à indústria fonográfica no ano passado veio para quebrar o hiato de 11 anos sem lançar discos trazendo, desta vez, traços de funk dos anos de 1970 e R&B sob roupagem eletrônica. Títulos como “Outro Sim”, “Saber Chegar” e “Amor Geral” apresentaram o novo universo sonoro da cantora, que recriou antigos sucessos sob a nova proposta, como “Garota Sangue Bom”, “Rio 40 Graus” e “Kátia Flávia, a Godiva do Irajá”.

No entanto, o momento de maior intercâmbio com o público foi quando a artista convidou fãs para subir ao palco e dançar com ela um pout-pourri de funk carioca, demonstrando fidelidade às suas raízes. “Eu percebi desde que cheguei um movimento cultural muito potente e vigoroso, estou muito feliz de estar aqui, porque sempre quis vir. O ‘Amor Geral’ fala do amor e o pano de fundo político que é o respeito às escolhas de cada um. Um show completamente autoral, porque o artista deve trazer sempre novidades e não ficar somente acomodado aos sucessos”, resumiu a cantora sobre a apresentação histórica que fechou o Festival.

Elimar Caranguejo

Elimar Caranguejo

Zé Ricardo contou com a participação de pernambucanos como Edilza, com quem cantou “Sarará Criolo”

Mais cedo, o também carioca Zé Ricardo resgatou a energia dos bailes blacks atravessando diferentes geografias da música negra. Desde “Let’s Stay Together”, de Al Green, até “Guiné Bissau, Moçambique e Angola”, de Tim Maia, o show ainda contou com as participações dos pernambucanos Edilza, em “Sarará Criolo”, e Almério, em “Dançando com a vida”. A aproximação com o Estado ainda se evidenciou com a homenagem a Dominguinhos com a versão elétrica de “Eu só quero um xodó”, que botou a plateia para cantar assim como em outros hinos como “Como é grande o meu amor por você”, de Roberto Carlos, e “Nao quero dinheiro”, outra de Tim Maia.

“Para mim foi uma responsabilidade muito grande tocar em um festival como o FIG, mas quando vi todo mundo pulando, fiquei muito tranquilo. O festival é uma vitrine e uma forma de você se aproximar de pessoas que não estão querendo só as coisas óbvias, que estão abertas para novas possibilidades. Tem uma frase maravilhosa do Gilberto Gil que diz que o povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe. Então, um festival que tem uma curadoria de propor coisas novas em um mercado viciado, para mim é uma grande honra”, avaliou Zé Ricardo, que além de produtor e músico também é um dos curadores do Rock in Rio.

Elimar Caranguejo

Elimar Caranguejo

A frente da SpokFrevo Oquestra, o Maestro Spok assumiu também os vocais das canções

Em outro momento estético da noite, a SpokFrevo Orquestra impressionou o público com as novas roupagens orquestrais para músicas pernambucanas consagradas, como “Asa Branca”, “Lamento Sertanejo”, “Voltei Recife”, além da homenagem ao Manguebeat com “Manguetown”, “O Cidadão do Mundo” e “Quando a maré encher”, que revelaram o Maestro Spok como cantor. “Fizemos uma apresentação baseado no livro ‘Do Frevo ao Manguebeat’, de José Teles, tentando passar por vários momentos da música pernambucana. Sempre fui muito tímido, mas sempre quis me comunicar com as pessoas também. Isso está abrindo portas para futuros trabalhos que planejo fazer. Ainda neste ano começo a gravar um trabalho em que uso mais a voz”, adiantou o maestro, que é tradicionalmente associado ao frevo de rua (instrumental).

Artistas que nasceram em Garanhuns também tiveram um espaço na programação de encerramento do polo. A cantora Andrea Amorim apresentou o seu rock lírico na abertura do palco no último sábado, seguida pela mistura de ritmos de Jr. Black. “Passei minha primeira infância aqui, meus sonhos nasceram aqui, por isso há toda uma memória afetiva desta cidade. Chegar aqui após uma parada que dei na minha carreira e voltar em momento tão difícil para o País podendo me expressar nesse palco é uma chance muito importante de dizer as coisas”, comentou o compositor pernambucano que se prepara para lançar em breve o disco “Vende-se”, o mais confessional de sua carreira até agora.

Elimar Caranguejo

Elimar Caranguejo

Jr. Black aproveitou a ocasião para anunciar seu retorno aos palcos com o disco lançamento próximo do “Vende-se”

< voltar para home