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Festival de Inverno

A primeira vez de Caetano a gente nunca vai esquecer

Após grande expectativa, o cantor baiano veio ao 23º FIG, com o seu show “Abraçaço”

Caetano foi performático do início ao fim (Foto: Pri Buhr)

Caetano foi performático do início ao fim (Foto: Pri Buhr)

por Leonardo Vila Nova

“Abraçaço“. Neologismo criado para significar abraço grande, imenso. O mais adequado para definir, então, o abraço inteiro de uma cidade em torno de um artista? Garanhuns foi privilegiada ao dar e também receber um desses abraços, daqueles que não se esquece tão fácil assim. Privilegiado maior o homem que, nesse entrelaçar único de braços, soube retribuir o mimo com o seu melhor: música e poesia vestidas de rock, samba, maracatu e muitos tropicalismos mais. Foi assim a primeira vez de Caetano Veloso no Festival de Inverno de Garanhuns… e foi inesquecível. Na noite deste último sábado (20/7), adentrando na madrugada do domingo, o músico que se diz “baiano-pernambucano” recebeu um abraçaço inteiro, há muito guardado. E, acarinhado pelo imenso público, surpreendeu expectativas.

Para a sua estreia no 23º FIG, Caetano trouxe o show da turnê do seu mais recente álbum, “Abraçaço”, que vem até agora sendo apresentado em casas de show pelo País. Esta foi a sua quarta passagem por Pernambuco este ano (anteriormente, se apresentou no Carnaval do Recife e mostrou o show “Abraçaço” em Petrolina e, depois, voltou à capital pernambucana). O disco foi responsável por fechar uma trilogia festejada pelo seu público, onde o artista mais uma vez ousou se arriscar no campo das imprevisibilidades. A Cidade das Flores teve, então, o prestígio de ter o acesso livre e, não por acaso, a Esplanada Guadalajara ficou lotada.

 

Público da Guadalajara sábado, dia 20/7 (Foto: Pri Buhr)

Público da Guadalajara sábado, dia 20/7 (Foto: Pri Buhr)

 

A atitude rock e o próprio rock como formato para vestir as suas canções poderia parecer inadequado para um “senhor” de 70 anos, mas foi mais uma oportunidade de o artista passear, desenvolto, no limiar dos riscos, como ele gosta de fazer e onde parece sempre estar mais à vontade. Acompanhado da bandaCê – Pedro Sá (guitarra), Ricardo Dias Gomes (contrabaixo e teclado) e Marcelo Callado (bateria) – ele subiu ao Palco Guadalajara sob olhares atentos. Os comentários sobre a expectativa de ver esse show há um bom tempo já corriam à boca miúda na cidade (e fora dela), indicando que sua presença no FIG era uma das mais aguardadas nesta edição do festival.

À primeira vista, o jovem senhor parece frágil, pequeno. Mas ao abrir o show com “A Bossa nova é foda”, Caetano já faz cair por terra qualquer impressão antecipada a esse respeito. Um rock realmente. Uma porrada sonora que o faz vigoroso em palco. E, a cada canção,  ele parece se comunicar diretamente com o desejo de juventude que emana de cada um de nós. Cada sílaba e respiração da sua voz passeia certeira por entre os grunhidos da guitarra, contaminados de efeitos e “viagens”. Mas, muito além do rock, Caetano e a bandaCê refazem, em linguagem própria, todo um universo que está ao alcance do seu tão amplo lastro de inspiração: lá estão os sambas que falam de amor (e sexo), o pop dançante, o funk carioca, a “suingueira”, os momentos de calmaria, as baladas ácidas, as dedicatórias mais íntimas.

Caetano é desses tropicalistas adepto da antropofagia até de si mesmo. No show, além do repertório do disco “Abraçaço”, ele se reinventa em algumas canções mais antigas, readaptadas à sonoridade rock. Do aclamado disco “Transa” – recorrente referência a esse momento atual do artista – ele pinçou “Triste Bahia”, onde as batidas de agogô são simuladas pela guitarra. Mas Caetano também evoca outros momentos, quando ataca de “Eclipse oculto”, “De noite na cama” – com direito a um desabotoar de camisa que pretende atiçar ainda mais a plateia -, “Odeio você”, já concebida nessa sua fase roqueira. E do “Abraçaço”, o balanço malicioso da canção-título do disco, o balanço diferente de “Parabéns”, o maracatu de “Império da lei”, momentos introspectivos como “Estou triste”, e o “Funk melódico”, para descer até o chão com guitarras distorcidas.

Do início ao fim do show, o público se viu diante de um habilidoso provocador de sensações. Um Caetano que emociona no que tem de mais simples e certeiro, mas sempre dotado de uma capacidade de dialogar com tendências e experimentalismos, e uma rebeldia estética incomum nos ditos “medalhões” da música. É esse sabor de novidade a cada canção do show que faz o público delirar e cantar junto. Com certeza, há algo de misterioso e muito bonito nessa relação tão apaixonada entre Caetano e as pessoas que o assistem. Mas essa zona de conforto é construída à base de muitos riscos. Qualquer passo em falso pode lhe render as mais duras críticas. No entanto, ele não se amedronta diante disso e segue firme, se jogando, de braços abertos para o que der na telha. A noite foi linda. Caetano mereceu esse caloroso abraçaço. O festival também.

Um novaiorquino de Garanhuns

Ao fim do seu show, uma surpresa trouxe ainda mais emoção. Caetano convidou ao palco o músico Arto Lindsay. Novaiorquino de alma garanhuense (Arto viveu na cidade dos quatro aos 17 anos), ele é responsável pela sonoridade de discos como “Estrangeiro” e “Circuladô”. Após 41 anos, ele se reencontrou com o seu lar pernambucano. Um sorriso emocionado no rosto, guitarra em mãos, ele mandou ver em noises  - que são sua marca registrada – na canção “Você não entende nada”.

“Abraçaço” entre Arto Lindsay e Caetano (Foto: Pri Buhr)

“Abraçaço” entre Arto Lindsay e Caetano (Foto: Pri Buhr)

Da última vez que se apresentou ao lado de Caetano Veloso, ele disse não se recordar. Mas lembra que foi muito bom, como sempre é. A intimidade e a amizade entre ambos esteve presente no palco, seja tocando música de um ou do outro. Para Arto, a felicidade dobrada, triplicada. Ele também participou do show da Orquestra Contemporânea de Olinda e aproveitou a rápida passagem pela cidade para rever o que há muito deixou apenas na memória. Em um rápido passeio por Garanhuns, ele se deparou com algo curioso: a casa onde morava se tornou a Galeria das Artes, que está abrigando exposições e oficinas durante o FIG 2013. No seu antigo quarto, fotos da exposição fotográfica “Na trilha do cangaço: um ensaio pelo Sertão que Lampião pisou”. A velha pitangueira já não está mais no quintal. As primeiras aulas de piano ficaram registradas com afeto. A cidade mudou. Mas as imagens continuam lá.

Um reencontro que reapresentou a Garanhuns um filho seu que se jogou no mundo para dar cria a uma música incomum e admirável. Foi no abraçaço de Caetano Veloso, durante o show deste sábado, que Arto se reencontrou com parte de sua história de vida, tendo como elo fundamental a música.  Após o show, de 1h30, Fafá de Belém deu continuidade à noite.

21/07/2013 | Compartilhe: Facebook Twitter

 

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