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Festival de Inverno

Bailarinos com o pé no terreiro: Grupo Grial de Dança

(Foto: Eric Gomes)

(Foto: Eric Gomes)

 

Por Leidson Ferraz

Talvez a cena final do espetáculo “A barca”, do Grupo Grial de Dança, com a diretora, coreógrafa e bailarina Maria Paula Costa Rêgo depositando na cabeça do Mateus vivido pelo Mestre Martelo um chapéu em forma de uma navegação, seja a mais bela metáfora que transforma essa nau/terreiro em espaço da imaginação. Afinal, é pelo ato de navegar que a dança dos brincantes griais nos transporta para imagens oníricas sobre a tão diversa nação brasileira, essa gente que não teme sonhar. Com exercícios coreográficos que liquidificam a tradição, “A barca” é, na verdade, um trabalho assumidamente processual e a versão apresentada nesta sexta-feira, 19, abrindo a programação de Dança do 23º FIG, já é um segundo momento do espetáculo estreado em 2010, com elenco agora mais enxuto e caráter de pesquisa ainda mais acentuada. Certamente, em constante mutação.

O universo afro indígena ganha contornos mais amplos desta vez, sem desmerecer os elementos do cavalo-marinho que estiveram mais presentes em sua primeira montagem. Tanto que a disposição da cena respeitava a presença dos músicos no banco, com canções mais voltadas a este gênero e uma apresentação mais enfática de personagens da narrativa oral. No entanto, o terreiro ainda continua presente, cercado por panos que lembram, de fato, uma nau esvoaçante, que pode ser modificada ao sabor do vento e das tramas que vão adentrando a cena, cujos únicos personagens explicitamente concretos são o Mateus, o Mestre Ambrósio e um Dom Quixote em busca de sua Dulcinéa. Não há um roteiro linear a seguir, e, sim, espaços cênicos que vão sendo construídos no desenrolar da encenação, com referências à nossa transculturalidade contemporânea.

(Foto: Eric Gomes)

(Foto: Eric Gomes)

Os bailarinos brincantes, oito ao total, desdobram-se nos mais variados passos e ritmos, com referências à capoeira, ao cavalo-marinho, ao caboclinhos, ao samba de coco, ao boi, à dança dos orixás e à prática dos cortadores de cana, com o Mateus/Mestre Martelo servindo-se do seu humor e de suas narrativas e loas para costurar tanta “terra à vista”, numa mistura que é pura brasilidade. As sequências de cenas resultam bem como pesquisa do Grupo Grial, atuante desde 1997 e que já não distingue mais o que é tradição e contemporaneidade, e quer revelar que o Brasil é plural, múltiplo, com influências as mais diversas (inclusive ibéricas, eis a presença do Quixote) e que, se “navegar é preciso”, sonhar também é preciso. O melhor momento resulta de um sambar que é a cara do nosso país: aquele que sabe gozar a vida.

O mais impressionante é a desenvoltura dos intérpretes entre a teatralidade, a dança e a música executada ao vivo. Instrumentos de percussão e sopro são entremeados ao vocabulário corporal e até mesmo o canto é experimentado por todos, transformando-os em brincantes na maior significação da palavra. Estão leves e soltos em seu terreiro/barca, com uma intimidade que conquista. “Eu não chamo para o Grial bailarino que não tenha um pé no terreiro”, confessa a diretora, certa de que essa relação mais próxima com a tradição, e que já vem de longos anos, oferece menos vícios à cena que ela almeja.

Na escolha do elenco, a presença de dois Mestres de longa data, Gilson Santana (Meia-Noite), figura símbolo da capoeira no Recife, e Sebastião Pereira de Lima (Martelo), corporificação do mais autêntico cavalo-marinho da Zona da Mata pernambucana. Nessa mistura entre a tradição e o que a diretora chama de “formação mais erudita” (já voltada à cena), vale conhecer um pouco mais sobre a trajetória dos atuais integrantes do Grupo Grial de Dança:

(foto: Eric Gomes)

(foto: Eric Gomes)

*Maria Paula Costa Rêgo começou na improvisação corporal. Indicada por Ariano Suassuna, passou a fazer parte do Balé Popular do Recife, grupo que pesquisou uma escrita de dança a partir das tradições. Na França, onde estudou por 11 anos, sua perspectiva era mais reflexiva, mas já interessada numa dança popular que podia ser nascente de uma dança contemporânea. Com Ariano Suassuna fundou o Grupo Grial de Dança, para o qual desenvolveu metodologia em que estes dois universos não estão separados.

*Sebastião Pereira de Lima (Mestre Martelo), natural de Nazaré da Mata, tem a brincadeira de terreiro como o seu próprio respirar. É uma referência do cavalo-marinho, tendo o irreverente Mateus quase como o seu duplo. Desde 2006 integrou-se às produções do Grupo Grial de Dança, mas reclama que os cavalos-marinhos atualmente estão perdendo sua autenticidade.

*Gilson Santana (Mestre Meia-Noite), natural da Bomba do Hemetério e criado em Chão de Estrelas, desde pequeno envolveu-se com a cultura presente nestes dois bairros populares do Recife, especialmente o caboclinhos e o samba de coco e de roda. Aos 30 anos descobriu a capoeira que transformou sua vida. Desde 1998 mantém o Centro de Educação e Cultura Daruê Malungo, referência especialmente no dançar afro. É um brincante em sua maior originalidade.

*Orunmilá Santana, filho do Mestre-Noite, desde criança está inserido no universo dançante-musical do Daruê Malungo. Foi ainda integrante da Compassos Cia. de Danças, com foco no dançar contemporâneo, e já passou por muitos terreiros para exercitar-se no cavalo-marinho, maracatu, ciranda, afoxé e caboclinhos. Atualmente é aluno de Dança na UFPE.

*Rodrigo Félix é ator, bailarino, circense e músico percussionista. Cresceu na Bomba do Hemetério, frequentando terreiros de candomblé e experimentando a capoeira, o Maracatu de Nação e o caboclinhos. Recentemente concluiu o Curso Acupe de Formação do Intérprete-Pesquisador em Dança.

*Anne Costa ligou-se à dança em 2001 com aulas no Grupo Experimental, onde estreou profissional. Tem formação clássica pelo Studio de Danças e popular pelo Maracatu Nação Pernambuco. Olindense, traz o carnaval no sangue. Atualmente participa da Cia. de Dança Artefolia e do grupo percussivo Conchitas. Formada em Artes Cênicas pela UFPE, possui especialização em Dança pela Universidade Angel Vianna/Compassos Cia. de Danças.

*Dayse Marques decidiu desde jovem pesquisar o Maracatu Piaba de Ouro, do Mestre Salustiano, e tornou-se uma brincante com participação ativa, chegando a interpretar figuras no cavalo-marinho. Desde 2004 foi convidada para a Cia. Trapiá de Dança, com foco na dança popular, e integra ainda o Caboclinhos Sete Flechas e o Rabeca Encantada.

*Aldene Nascimento, natural de Abreu e Lima, desde 1997 passou a dedicar-se profissionalmente à dança, inicialmente no Grupo Galante, hoje extinto. Foi convidado por Emerson Dias, um dos elementos do Grupo Grial (que não veio ao FIG por conta de outra viagem de compromisso). Filho de uma família de músicos, desde pequeno dança ciranda, coco, caboclinhos, maracatu e, especialmente, o frevo no carnaval.

*Priscilla Borel estreou no espetáculo “A barca” nesta apresentação do 23º FIG. Descobriu a dança popular através da professora Célia Meira, com passagens pelo Balé Brincantes e Brasílica. Como atriz, atuou junto ao Véio Mangaba, participando de diversos shows como atriz/cantora. Formada em Artes Cênicas pela UFPE, há cinco anos mudou-se para a França, onde dá aulas de dança popular em Paris.

 

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