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Festival de Inverno

Encontro de mestres encerrou programação do Palco de Cultura Popular

Reisado de Inhanhum (Foto: Costa Neto)

Reisado de Inhanhum (Foto: Costa Neto)

Por Maria Peixoto

Praça é lugar de quê? Pombo, velhinho, criança, gente vendendo picolé, catavento e bolas coloridas, algodão doce… E quando tudo isso se soma a um palco reunindo a mais pura expressão da cultura popular? A praça vira também lugar de festa e alegria. Foi assim o Palco de Cultura Popular do FIG. Bem localizado, no Centro da cidade, tomando como público os avisados e os desavisados, que apenas iam por ali fazer suas compras, o palco é uma oportunidade de o povo ali na praça se ver, ver sua cultura sendo valorizada.

Quem estava por ali, na plateia, neste sábado (27/7), foi ninguém mais ninguém menos que o homenageado do espaço, o Mestre Benone, do Reisado Três Reis do Oriente. E ele não veio pra se apresentar, isso ele fez no sábado passado. Neste dia, o Mestre Benone foi prestigiar o Reisado de Inhanhum, distante 600 km dali.

Bem diferente do de Mestre Benone, o Reisado de Inhanhum não traz aquelas vestimentas coloridas e brilhantes, as roupas foram muito mais simples: um chapéu na cabeça enfeitado de flores, um chocalho na mão. Essa é a versão quilombola do reisado. Vindo do Quilombo Inhanhum, em Santa Maria, no Sertão, o reisado é formado só de mulheres com exceção dos dois Mateus, que aqui são mascarados, lembrando o mesmo personagem no cavalo-marinho.

A história do reisado “é muito comprida, começou com um senhor que Jesus já levou há mais de 20 anos, João Preto”, diz Maria Emília Lopes, de 66 anos, hoje mestra.  Quando Maria Emília aprendeu a brincadeira ela tinha 12 anos, era ela e uma “ruma de menina” que aprendia juntas. João Preto ensinava junto com sua irmã Dona Xandô, que ainda é viva, “deve ter perto de 80 anos”, diz Emília. “Mas ela já tá popó”, querendo dizer que a velhinha não tinha mais a lucidez de antes.

Maria Emília decidiu tomar o prumo do reisado pra ele não se acabar, “eu num tinha nada na vida, só a boa vontade, porque eu gosto de brincar”, diz a senhora. Hoje, elas treinam uma vez por semana, pra não esquecer as letras do Mestre João Preto. Mas não cantam mais na casa do povo, como faziam antigamente: “a gente cantava pra ganhar farinha, rapadura. Aí a gente deixou porque tá tudo velha”.

Um dia que num pode deixar de ter o reisado é  6 de janeiro, quando elas dançam na igreja pra pagar suas penitências. “A gente dança, celebra missa pra quem ensinou a nós”, disse Emília.

Estávamos nós ali conversando, quando chega Mestre Benoni. Veio trocar ideias com as brincantes. De repente estou eu ali, no meio de dois mestres, separados 600 km um do outro, mas ambos mestres de reisado. Ele se desculpa por ter atrapalhado a entrevista, mas não faz ideia de que se alguém poderia estar atrapalhando ali era eu, o encontro dos dois. Então tratei de deixá-los tranquilos para conversarem, super feliz de ver aquilo acontecer. Eles se abraçaram, ele deu um DVD a ela no qual tem a apresentação do seu reisado. E comentou sobre as diferenças entre eles. Elas, sorridentes, prometeram mandar material pra ele também.

Um medo que me deu foi de o reisado acabar; afinal, é formado só de senhoras. Mas Dona Maria Emília garantiu que pretendem começar a ensinar aos mais novos.

Hoje (27/7) foi o último dia do Palco de Cultura Popular, que além do reisado de Inhanhum contou com apresentações das mais variadas: Givaldo Gino e Zé Inaldo – os brincantes da vaquejada, que tocaram forró, xote e fizeram aboio em homenagem a Dominguinhos; o Projeto Batuque, da ONG Nadesg (Núcleo de Apoio ao Desenvolvimento Social de Garanhuns), que foi do afoxé ao funk, passando pelo samba e pelo coco; A Cia São Caetanense Arte Dança Pernas de Pau, que dançam forró nas alturas; O pastoril infantil Lapinha de Jesus, de Goiana; o GRE Gigante do Samba, de Recife; A troça Carnavalesca Mista O bagaço é meu, de Olinda; O Grupo cultural Boi Glorioso, de Bonito. Ainda hoje tem Belo cirandeiro e a ciranda do povo, de Limoeiro e o Coco trupé de Arcoverde, encerrando a programação.

 

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