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Festival de Inverno

Grupo Galpão amplia seu teatro erudito/popular

Mineiros do Grupo Galpão são exímios intérpretes (Foto: Renata Pires)

Mineiros do Grupo Galpão são exímios intérpretes (Foto: Renata Pires)

Uma das equipes mais queridas do teatro brasileiro conquistou com espetáculo reflexivo, plástico e musical

Por Leidson Ferraz

Sabe quando você espera alguém querido que não é da sua família, mas é como se fosse? O Grupo Galpão desfruta dessa intimidade com o público pernambucano. Até mesmo em Garanhuns, terra que a equipe visitou pela primeira vez neste 23° FIG, o clima na plateia era este: o de reencontrar um quase parente, daqueles que deixa nossa respiração em suspenso, doido para vê-lo. No pátio do Mosteiro de São Bento, a elogiada trupe mineira apresentou “Os gigantes da montanha”, seu mais novo trabalho, até então inédito em Pernambuco, uma montagem corajosa que, permeada pela já reconhecida plástica do encenador Gabriel Villela e pela musicalidade sempre presente destes grandes intérpretes, ousa trazer à linguagem popular a erudição do dramaturgo e poeta italiano Luigi Pirandello. Valoriza palavra, música e reflexão, junto a uma direção de arte impecável.

É na voz de Elis Regina, com “Fascinação”, que os atores, exuberantemente coloridos, postam-se em cena num tablado desenvolvido com diferentes planos. No elenco, dois núcleos de personagens, aqueles que são fantasmas de uma vila abandonada e os integrantes de uma trupe teatral mambembe que chega ao local. A questão central é o desejo da primeira atriz, esposa do dono da companhia, em encenar uma trama escrita por um poeta que a amou e se matou, mas o trabalho só os levou à ruína. Um mago que se permitiu mostrar-se fantasma de si mesmo tem a solução: usar seus companheiros como complemento do elenco e ter na plateia os tais gigantes da montanha, como uma possibilidade de reconhecimento àquela obra e àquela equipe. Será?

O texto discute o fazer teatral e sua importância para este mundo. Foi escrito em 1936, na véspera da morte do autor, que o deixou inacabado. O final, dizem, foi narrado a um filho e, pelo Grupo Galpão, ganhou contornos de mímica à contraluz bem humorada, ainda que com gosto cruel. O término deixa claro que, muitas vezes, é preciso se dilacerar para cumprir a função no teatro, assim como a atriz principal dos mambembes, estraçalhada pelos gigantes bestiais, “duros de cabeça”, que descem do mundo acima dos outros e não gostam da fábula que ela representa. É uma despedida trágica, e nos faz pensar se ainda é possível sobreviver à invasão destes gigantes em tempos de confecção de projetos, captação e contrapartida social, três atualidades ironicamente presentes na peça e que atormentam qualquer artista nos dias de hoje.

Se por um lado a opção por valorizar um texto repleto de metáforas, com bem menos ação e humor do que em outras montagens da equipe, é uma ousadia e tanto, o diretor, responsável por outros sucessos da trupe como “Romeu e Julieta” e “A rua da amargura”, mais uma vez soube como ninguém conduzir marcações e imagens que são um deleite aos olhos, ainda mais com trilha sonora executada ao vivo, toda composta por canções italianas que, se não abrem exceção ao público para compreensão maior da trama (o que seria uma possibilidade), dão espaço para a contemplação à beleza. É assim que, onírica, “Os gigantes da montanha” celebra a vida e a arte como elementos indissociáveis.

Afinal, como diz Pirandello, “somente os poetas para dar coerência aos sonhos”. Se a vida é mesmo sonho!

OBS: Uma graça no término foi a canção “Não se vá”, de Jane e Herondy, utilizada com o elenco passando o chapéu para o público, como manda a tradição do teatro popular.

21/07/2013 | Compartilhe: Facebook Twitter

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