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Festival de Inverno

Magiluth derrama reminiscências do Nordeste

Espetáculo “Luiz Lua Gonzaga” pôde ser visto ao ar livre nesta sexta-feira

Grupo Magiluth em cena (Foto: Renata Pires).

Grupo Magiluth em cena (Foto: Renata Pires).

 

Por Leidson Ferraz

O Grupo Magiluth tinha um desafio e tanto. Aprovou projeto concebido em homenagem a Luiz Gonzaga pelo seu centenário, e quando todos das artes cênicas esperavam que lá vinha mais uma biografia com licença poética do Rei do Baião, os rapazes saíram pela tangente, acertadamente. Preferiram explorar suas próprias reminiscências de meninos nordestinos – três deles, inclusive, nascidos ou criados no interior –, claro que permeadas não pela presença em si do Gonzagão, mas do rico universo que ronda sua musicografia. E, melhor, não se distanciaram do estilo que os vem consagrando como um dos destaques do teatro pernambucano na atualidade, com cena ainda borrada, suja, irreverente.

Apresentado na rua, em frente ao Palco Cultura Popular do FIG, nesta sexta, 26, o espetáculo “Luiz Lua Gonzaga”, texto de Giordano Castro, certamente costurado a partir dos diversos laboratórios que o grupo deve ter empreendido, conta com direção de Pedro Vilela e direção musical coletiva. Os atores já chegam cantando e, nos seus primeiros momentos, avisam: “Não sabemos cantar”. No desenrolar da peça, pontuada por canções clássicas de Luiz Gonzaga como “Pagode russo”, “Assum preto”, “Olha pro céu, meu amor” ou “O cheiro de Carolina”, entre outras, pouco importa se não são exímios cantores. As músicas, por si só, já trazem tanta empatia com a plateia, que todos ajudam acompanhando.

São diversas as tramas apresentadas, quase sempre com algumas frases ditas ao pé do ouvido do público, como um turbilhão de informações onde o que vale é despertar o sentimento de ser nordestino, esse mundo onde dor, esperança e alegria andam juntas. Assim, pode-se contar história real da infância ou fictícia, explorar objetos os mais diversos – como peneiras, fogueira, garrafa de cachaça, imagens de santos –, criar cenários que vão das plantações às cozinhas de casa num piscar de olhos, e até mesmo derramar graça, respeito e ironia por esse Nordeste em seu viés mais folclórico. O resultado é uma profusão de estados de alma e memórias que, para quem nasceu ou já experimentou passar um São João em terra nordestina, fica impossível não identificar-se.

Único não pernambucano do elenco, o músico João Tragtenderg (Foto: Renata Pires)

Único não pernambucano do elenco, o músico João Tragtenderg (Foto: Renata Pires)

Quase todos do elenco são pernambucanos (Giordano Castro, Lucas Torres, Erivaldo Oliveira, Pedro Wagner e Mário Sérgio Cabral como atores, além dos instrumentistas Pedro Vilela na zabumba; João Tragtenberg na sanfona e Pedro Cardoso na percussão), há apenas um “importado” na equipe. “Eu não contribuí com dados sobre a minha infância, mas pude conhecer um outro lado do grupo e acabei trazendo esse Nordeste para mim, como memória afetiva a partir deles. Lá em Florianópolis, onde nasci, o São João era apenas de colégio, com as quadrilhas estilizadas, e alguma referência popular com o Boi de Mamão e o Forró. Mas muito pouco. E até mesmo a sanfona entrou na minha vida não por Luiz Gonzaga, mas como extensão ao piano, quando decidi, junto a um grupo amigo, tocar nos ônibus choro e baião”, recorda o sanfoneiro João Tragtenberg, que há dois anos mora no Recife.

Em ritmo alucinante e com uma simpatia inegável, a peça traz como interessante metáfora poética de fundo a do príncipe que ganha o status de rei e, longe da sua terra, não esquece de divulgar e cantar o seu lugar, olhando por ele como incentivador à festa (que já é própria dessa gente e, também, do Magiluth), ainda que seja difícil sobreviver à brasa torrente do sertão. A apresentação neste 23° FIG contou com trechos especiais em homenagem a Dominguinhos, parceiro que, como disse o ator Giordano Castro ao final, “agora está junto de Luiz Gonzaga” e que, continuando na memória desse povo, faz a vida ser cheia de fé e alegria, assim como quando bate a chuva, e tanto a Natureza quanto o homem nordestino respiram aliviados. Ao som das músicas compostas por eles, essa resistência fica mais fácil…

O professor Michelângelo Rodrigues, de 32 anos, natural de Cachoeirinha, achou bem interessante a proposta do grupo. “Eles falam de tradição, mas de um jeito bem diferente, com irreverência. E não deixam esquecer esse Nordeste que ainda tá dentro de cada um de nós. Preservar aspectos dessa cultura é muito importante, ainda mais brincando como fazem, interagindo com o público”, concluiu. Acidália Claudino, veterinária de 26 anos, natural de Garanhuns, também aprovou o trabalho. “Gostei muito porque uma história vai surgindo por cima da outra. Não é monótono, e bem diferente. Foi um amigo meu que me indicou essa peça e já quero conferir o próximo trabalho deles”, disse referindo-se à apresentação de “Viúva, porém honesta”, neste sábado (26), 19h, no Teatro Luiz Souto Dourado.

É dose dupla do Magiluth no FIG. Basta aproveitar.

Leia mais sobre o Magiluth AQUI.

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