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Festival de Inverno

Mais do que livros, experiências de coletividade

O I Encontro Internacional de Literatura Cartoneira, experiência inédita, reune múltiplas iniciativas de editoras cartoneiras e realiza oficinas de produção de livro artesanal

(Foto: Pri Buhr)

(Foto: Pri Buhr)

Por Maria Peixoto

 

“Muito mais do que livros”, diz o slogan da Eloísa Cartonera. Intrigado com a frase, o francês Nicolas Duracka, em viagem pela América Latina, procurou saber do que se tratava ao passar por uma oficina cartoneira. O europeu acostumado a ver os livros como objetos sagrados, num país onde não existem as figuras dos catadores de lixo, encantou-se ao conhecer a experiência argentina.  O que lhe sensibilizou, conta, foi “a dimensão social, coletiva, comunitária por trás do universo cartoneiro”. Voltando à França, Nicolas fundou o selo Cephisa Cartonera, voltado para acolher jovens autores e descobriu que, “sim, na França o livro de papelão também funciona”, diz. Ele explica que apesar de haver uma grande disponibilidade de livros baratos em seu país, o livro cartoneiro faz sentido porque “não é só literatura, é amor, felicidade”. “Eu não entendo por que na França as pessoas preferem estar sozinhas do que fazerem as coisas juntas, compartilhar”, questiona. Dessa maneira, os livros feitos de forma colaborativa possibilitam momentos de “solidariedade, amor, alegria”, afirma.

O fundador do selo Eloísa Cartonera, Washington Cucurto acrescenta que os livros cartoneiros também têm a função de ensinar a consumir literatura a partir de outros valores, a partir “da lógica comunitária, dos afetos”. Ele menciona os altos preços dos livros nas livrarias e sugere que o movimento deve promover uma boa relação das pessoas com os livros, torná-los acessíveis.

Experiência vizinha a de Cucurto, Juan Malebrán, do selo chileno Canita Cartonera não trabalha com catadores, mas com outros indivíduos também invisibilizados pela sociedade, os presidiários. Juan conta que no Complexo Penitenciário de Alto Hospício, no Chile, já havia uma experiência de presos que faziam literatura. Ele resolveu se aproximar do grupo e juntos fundaram o selo. “É muito bonito encontrar-se com eles. Para muitos deles, nos transformamos em sua família”, afirma. Juan conta que os presos ficam muito felizes quando recebem notícias sobre a circulação dos livros, “é a liberação das ideias a partir da poesia. É a poesia servindo a algo mais do que somente lê-la, como ferramenta, como arma”, diz.

Aqui no Brasil, mais precisamente em Garanhuns é de “severinos” que se trata. O selo Severina Catadora, homenagem ao livro de João Cabral de Melo Neto, casa bem com a “vida severa, bruta, difícil” dos catadores de papelão, diz Hélder Herik, um de seus fundadores. Hélder diz que viu a humanização que um livro cartoneiro pode realizar ao observar a produção feita aqui, quando os catadores paravam um pouco de sua rotina corrida para estar juntos, fazendo arte. No fim de sua fala, Hélder lembra um poema escrito por um poeta de Garanhuns, André Luiz de Castro, que está no livro “Severina Catadora”. Vai um trecho:

“De tudo se tem, por assim dizer, um museu de tudo: plásticos, latas, vidros, papéis, resíduos alimentares, animais mortos, carne humana e sonhos. Sonhos também. Enfim, tudo que é humano. Aliás, o que é o lixo senão uma parte da vida humana que escondemos com vergonha do que somos e fedemos. Lixo é também uma intimidade”.

Leia mais sobre o I Encontro Internacional de Literatura Cartoneira, AQUI.

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