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Festival de Inverno

“Meire Love”, entre o risível e o trágico

Peça do grupo cearense Bagaceira de Teatro discute prostituição infantil

Por Cecília Almeida

Alguns podem ter interpretado o espetáculo “Meire Love”, do grupo cearense Bagaceira de Teatro, como uma comédia. Outros podem percebê-lo de fato como uma tragédia, como sugere o próprio subtítulo da obra, “Uma tragédia lúdica”. A peça, apresentada nesta quarta-feira (18/7) no Teatro Luiz Souto Dourado como parte da programação de teatro adulto do 22º Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), traz reflexões sobre prostituição, abuso e abandono infantil. O texto é de Suzy Élida Lins de Almeida, que também assina a produção como co-diretora, ao lado de Yuri Yamamoto.

“Meire Love – uma tragédia lúdica”, do Grupo Bagaceira de Teatro. (Foto: Edmar Melo/Secult-PE)

“Meire Love – uma tragédia lúdica”, do Grupo Bagaceira de Teatro. (Foto: Edmar Melo/Secult-PE)

As personagens representadas – Meire um, Meire dois e Meire três – são meninas, com menos de 15 anos. Mas os atores que as representam são três homens adultos, que vestem bustiês curtos e coloridos por baixo de seus paletós – o que provocou tanto o riso quanto o desconforto na plateia. Elas são prostitutas, que passam a maior parte de seu tempo nas ruas, tentando dar sentido à sua realidade de maneira bem-humorada, alimentando sonhos e até a crença de um grande amor (o “love”) que irá levá-las dali.

O riso foi constante durante toda a peça, mas, em alguns momentos, ele se tornava um riso nervoso, quase angustiado. “Talvez essa não seja uma peça de humor. Mas é mais fácil pra muita gente achar que é. Preferimos achar risível do que lidar com a realidade e enxergar que isso é uma verdadeira tragédia”, opinou o jornalista garanhuense Thiago Almeida, que disse ter considerado a peça uma das melhores que assistiu durante o Festival.

Durante quase toda a peça, os atores não deixam suas cadeiras. A interpretação se dá totalmente através dos diálogos entre as personagens. O grupo tentou reproduzir da melhor maneira possível o modo de falar e de se comportar dessas meninas. As expressões, o linguajar obsceno, as brincadeiras, as danças, os trejeitos. Enchem o palco sem sair do lugar, sugerindo uma vida permeada pelo abuso, pelos vícios e pelo abandono.

“Algumas pessoas se incomodaram por conta dos palavrões, mas acho que é essa a realidade. O tema foi muito bem escolhido e retratado”, continua Thiago. “Só gostaria que, ao invés de rir, todo mundo saísse daqui indignado”, completou.

Apesar do que pode parecer, as três Meires não são representadas como garotas tristes ou sofredoras. Passam todo o seu tempo rindo, debochando dos passantes nas ruas. Em algumas falas, a vontade de fugir dali transparece. E elas revelam a sutil esperança por um final feliz. Que não vem.

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