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Festival de Inverno

Ney e a sensualidade à flor da pele

Em seu show “Atento aos sinais”, na abertura do 23º FIG, o cantor dominou por inteiro a plateia, que se esbaldou do início ao fim

(Foto: Renata Pires)

(Foto: Renata Pires)

 por Leonardo Vila Nova

Na última vez que esteve no Festival de Inverno de Garanhuns, em 2008, Ney Matogrosso trouxe ao Palco Guadalajara o elogiado show “Inclassificáveis”, um espetáculo carregado com uma veia rock/pop e todos os superlativos que aquilo exigia: cenário grandioso, repertório de maior peso e uma interpretação potente. Não por acaso, ele voltou ao FIG, em 2013, com o show da turnê “Atento aos sinais”. Uma megaprodução que também eleva à enésima potência o artista e todo o seu poder em palco. Ao longo da sua trajetória, Ney costuma alternar álbuns intimistas e trabalhos mais arrojados. E, sem que se perceba, Garanhuns já está se tornando tradicional roteiro desses momentos mais explosivos do cantor. Foi o que se viu na noite desta quinta (18/7), o Ney arrebatador, provocador e sensual/sexual, o inquieto performer que se reinventou criativamente nas últimas quatro décadas.

Uma multidão aguardava, ansiosamente, pela principal atração da noite. Não se falava em outra coisa. E eis que, surpreendentemente, ele irrompe em palco, com sua presença imponente e um olhar penetrante e desafiador, que mergulhou, certeiro e profundo, no olhar de cada uma das milhares de pessoas que estavam à sua espera, abrindo alas para a catarse que viria a seguir. Trajado como uma misteriosa ave negra, Ney já entra em cena impactante, ao som de “Rua da Passagem” (Lenine/Arnaldo Antunes), com sua desenvoltura de fazer a plateia já perder o fôlego e o juízo desde a primeira música.

“Atento aos sinais” foi um show totalmente concebido para potencializar as evoluções que se desenrolam a partir de Ney, o eixo central do espetáculo. A banda, o figurino, o impressionante vídeo-cenário e o repertório. Tudo é feito e pensado para colocar em evidência a persona sensorialmente atraente que se desvela diante dos nossos olhos. Tudo está a serviço, e nas mãos, do artista. Assim como o público, que se esbalda nos momentos mais ousados do show. Cada gesto, cada movimento de Ney – principalmente as danças, rebolados e as insinuações a movimento sexuais – é ovacionando enlouquecidamente. Até mesmo as trocas de roupa em palco, encaradas tranquilamente por ele – “vou ali atrás, tirar uma roupinha, e já volto!“, disse a determinada altura do show – são um show à parte.

(Foto: Renata Pires)

(Foto: Renata Pires)

À medida que vai se despindo, “trocando de pele”, Ney parece estar se ofertando para ser desfrutado. É essa sensualidade – inabalável de um enxuto senhor de 71 anos – que atiça a libido de homens e mulheres, e desperta um fascínio incontrolável ao longo de todo o show. Em “Isso não vai ficar assim” (Itamar Assumpção), ele repete, exaustivamente, “beije-me, beije-me, beije-me”, magnetizando ainda mais a plateia, que, involuntariamente, vai se aproximando do palco, disputando o seu lugar mais perto do ídolo, para, quem sabe, arrancar-lhe uma nesga de tal bitoca.

O repertório do show é composto por autores variados, os consagrados e os mais novos compositores, mostrando que Ney está antenado com o que de novo está sendo feito, sem deixar pra trás os medalhões, como Caetano Veloso ou Paulinho da Viola. Em momentos diversos, Ney explora suas possibilidades de interpretação a partir de diversas nuances. Entre os momentos de maior sensualidade, há também as passagens pelo rock, cujo ponto alto se mostra em “Vida louca” (Lobão), os de introspecção, como em “Noite torta” (Silvia Machete), quando a luz é explorada com um apuro tamanho, de forma a realçar a sua silhueta delicadamente desenhada, em que os movimentos concisos de Ney ganham evidência. Assim como os momentos que a interpretação ganha destaque, a exemplo de “Freguês da meia noite” (Criolo), e os mais dançantes, “Samba do Blackberry” e a curiosa e incomum canção “Tupi fusão” (Vitor Pirralho).

Ao término do show, os inevitáveis pedidos de bis. E, atendendo ao público, Ney presenteou com “Poema” (Cazuza). E, para surpresa geral, incluiu no show uma música que não está na turnê: “Ex-amor” (Martinho da Vila), onde, mais uma vez, a sensualidade/sexualidade se mostra presente (“… quando a saudade bate forte/é envolvente./Eu me possuo/e é na sua intenção,/com a minha cuca/naqueles momentos quentes/em que se acelerava o meu coração”).

A noite de abertura mostrou o quanto o tempo apura o vigor e a criatividade do artista. Ney é a prova viva de que a passagem dos anos, na verdade, o rejuvenesce. Em uma das músicas do show, “A ilusão da casa” (Vitor Rammil), ele canta: “O tempo é o meu lugar/o tempo é minha casa“. Pois é. Ele parece, realmente, estar bem confortável com a passagem do tempo e sempre soube fazer bom proveito disso.

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