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Festival de Inverno

Noite de cinema no quilombo de Curiquinha dos Negros

Primeiro registro fotográfico de Ozeína e seu marido (Foto: Magda Silva)

Primeiro registro fotográfico de Ozeína e seu marido (Foto: Magda Silva)

Por André Dib

A Lua cheia surge detrás da colina. Estamos na comunidade quilombola de Curiquinha dos Negros, onde o tempo não corre, caminha com a natureza, distante da truculência da cidade.

Ao lado, a tela montada pelo projeto Cinema na Estrada também se ilumina. Foi a primeira vez que um projeto de cinema chegou por lá. O programa levou seis curta-metragens, com temática que dialoga com aspectos sociais, culturais e religiosos daquela realidade rural.

Fomos muito bem recebidos pela família de Dona Ozeína de Brito e Silva, numa terça-feira de céu sem nuvens, muitas estrelas e a hospitalidade dos lares do interior, onde a atenção calorosa é tão importante quanto a comida posta à mesa: arroz, xerém, galinha de capoeira e queijo assado.

Cerca de 110 famílias quilombolas vivem em Curiquinha dos Negros, formada pelas comunidades de Sambaíba, Lagoa do Arroz, Limeira e uma parte de Genipapo. Para o evento Dona Ozeína também convidou a comunidade de Batinga, de 93 famílias.

Aos poucos, o público se reúne. Chegam a pé, de ônibus, cavalo ou bicicleta. O programa começou com “A menina da boneca”, de André Pinto. Foi curioso perceber como os sons da mata ao redor se misturaram ao deste filme de terror para crianças, dando à obra um clima ainda mais fantástico. Já o documentário “Até onde a vista alcança”, de Felipe Peres Calheiros, gerou identificação imediata: “olha eu aí”, disse uma espectadora, se vendo numa senhora rezadeira. No filme, o grupo quilombola vê o mar pela primeira vez.

Durante a projeção, foram servidos pipoca, cachorro quente e refrigerante, cortesia de Dona Ozeína e família. “Dia estrelado”, animação stop-motion de Nara Normande, fascinou as crianças com suas cores vivas e personagens infantis. “Porcos Raivosos”, de Leonardo Sette e Isabel Penoni, foi o filme que mais despertou reação, por conta da nudez das índias Kuikuro, do Alto Xingu. “É isso o que nosso povo precisa, se inteirar, reunir, trocar ideias”, disse Renato Valdivino, líder da comunidade de Batinga.

Após a sessão, o representante da coordenadoria de cinema da Fundarpe, Mauro Lira, sugeriu a criação de um cineclube na comunidade. E convidou para o encontro de cineclubes do agreste meridional, que acontece no próximo sábado (27), às 9h, no auditório da Aesga. O prefeito de Brejão, Ronaldo Ferreira, e o secretário de cultura, César Monteiro, estavam presentes e apoiaram a ideia.

O Cinema na Estrada nasceu há dois anos, para promover sessões em comunidades com pouco ou nenhum acesso ao cinema. O projeto retoma a antiga tradição do cinema itinerante, como Marcelo Gomes mostrou no filme “Cinema, Aspirinas e urubus”. A partir dos anos 1950, com a multiplicação de salas no interior do Brasil, a prática caiu em desuso e volta a adquirir importância no atual contexto, em que o circuito de exibição se concentra nas capitais.

Bia Paes, assessora de povos tradicionais da Fundarpe, diz que eventos como o Cinema na Estrada são importantes para incentivar a prática que vão para além de estereótipos do folclore, geralmente vinculados a comunidades quilombolas. A partir de um cineclube, o passo seguinte seria a realização audiovisual. “Nos dias 25 e 26 será realizado um encontro pernambucano de povos tradicionais, focado na produção de filmes. A ideia é reunir demandas e desenvolver uma política pública específica para esta atividade”.

Antes da despedida, nossa fotógrafa, Magda Silva, que há quatro anos desenvolve trabalhos com comunidades quilombolas (em 2011 realizou o projeto “Poesia ao Pé do Ouvido” com Silvana Menezes), fez um retrato de Dona Ozeína e seu marido. Depois, descobriu que o casal nunca havia sido fotografado. “Ele não gosta disso não”, disse Ozeína.

Magda revelou a imagem e pretende entregar a foto antes do festival terminar. Um belo desfecho para nossa incursão em Curiquinha. E um ótimo início para um projeto que convida as pessoas a se ver nas imagens, se relacionar com elas, para então, nelas se representar.

 

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