Pular a navegação e ir direto para o conteúdo

O que você procura?
Newsletter

Festival de Inverno

O baú de memórias de um brincante

Conheça um pouco da história do Mestre Benoni, do reisado Os três reis do Oriente, homenageado de Cultura Popular do FIG 2013.

Foto: Ricardo Moura/Secult-PE

Foto: Ricardo Moura/Secult-PE

Por Maria Peixoto

“Boa noite, senhor e senhora, eu cheguei agora vim lhe visitar. Posso chegar em sua residência, que vossa excelência mandou me chamar?”. Enquanto uns esperavam embaixo de uma moita, protegendo-se do sol, os outros entravam na casa da pessoa e viam se na sala delas cabia o reisado. Era assim que Benoni Bezerra de Carvalho fazia em sua juventude, quando era Mateus. “A gente brincava de oito da noite até uma hora da manhã. Quando era amanhã, a gente tomava um café, botava um baú nas costas e ia pelas estrada. A gente saía pelo mundo, ficava 30, 35 dias”.

Benoni me conta da época em que brincar reisado era se aventurar pelo meio do mundo, compartilhando da brincadeira de casa em casa. E o anfitrião não deixava por menos, “matava duas, três galinhas, pra aquele povo todo”.

Fiz hoje o percurso inverso, adentrei, eu, a casa dele, que atualmente é mestre do reisado Os três reis do Oriente, homenageado do FIG 2013 pelo centenário, para ter uma “palestra” com ele que tanto visitou casas alheias. E fui recebida com um carinho e um entusiasmo de me sentir totalmente cativada.

Passamos a tarde eu, Ricardo (o fotógrafo), Clemilson (o motorista) e a esposa de Benoni a ouvi-lo contar a história de sua vida no reisado, que está totalmente imbricada com sua biografia, já que começou aos 12 anos, junto a Mestre Cândido Sertanejo.

Mestre “Cândio”, como eles gostam de chamar, é figura lendária na região, referência de todos os brincantes de reisado, foi quem começou o brinquedo. Mestre Benoni, quem leva hoje o reisado à frente, vai lá dentro buscar a fotografia e mostra cheio de afeto o retrato dele com seu mestre, que lhe considerava um filho. Na foto meio apagada pelo tempo, os dois de pé, vestidos com os trajes do folguedo, nos fitam. Benoni mostra com orgulho um dos poucos resquícios que lhe sobraram para lembrar-se de seu mestre. “Esse homem brincou reisado 57 anos, sem falhar um ano”, conta veementemente. E emenda “eu brinco, mas nunca vou dizer que brinco igualmente a eles”, fazendo referência à Mestre Cândido e Senhorzinho Barra Nova, mestre que sucedeu o primeiro e antecedeu Benoni.

Mas, não só na fotografia antiga estão as marcas de Mestre Cândio, elas ainda povoam o reisado que ele iniciou, seja nas peças de sua autoria, ainda cantadas hoje, seja na própria formação do grupo, constituída, em grande parte, por pessoas de sua família. Foi justo uma sobrinha do mestre, Dona Zefinha, quem teve um sonho, quando seu tio ainda era vivo, sonhou que o reisado dele ia acabar. Nesse instante que ela contava ao tio, vinha vindo lá Seu Benoni. Mestre Cândido aponta pra ele e afirma que ele seria o novo mestre.

A função adquirida há 10 anos deixa Seu Benoni satisfeito “Eu sinto alegria porque eu vou levar alegria para alguém”. Ele tem plena noção também da importância de passar a riqueza cultural de sua tradição através das gerações “Eu fico feliz de passar aquilo que eu aprendi. Hoje eu vou ensinando a meio mundo de criança”. E é isso mesmo que você percebe no reisado de Mestre Benoni, a mistura das duas gerações, um senhor de 84 anos brincando junto de uma criança de 6. Diz ele sobre a homenagem prestada ao seu grupo “ É uma grande honra estar recebendo essa homenagem de eu mais meu povo estar levando essa brincadeira tão antiga”

A tradição também se mistura com a atualização nas peças do reisado de Benoni, as dos antigos se somam às de Chicão, amigo de Benoni, que vez por outra cria uma peça, seja a pedido dele ou por conta própria. Ele canta “Num te alembra do tempo, benzinho, que nós juntos dois anjos vivia”, de Mestre Senhorzinho e depois entoa a de Chicão sobre a preservação do Meio Ambiente, que fala que se não cuidarmos dele, não vai dar mais nem pra respirar.

Estávamos lá, ouvindo Mestre Benoni cantar, quando ele me aponta assim “aquele ali é compositor”. Vinha chegando, montado em seu cavalo, o amigo, Zezé Marcolino. Benoni me cochicha que ele também era mestre de reisado, mas que ele não está mais brincando há um tempo. E incita “Você tem que voltar com seu reisado”.

A chegada inesperada de Zezé Marcolino tornou a prosa ainda melhor, velhos amigos, danaram-se a falar e compartilhar suas trajetórias conosco. Começam, assim como do costume dos mais velhos, a nos aconselhar “A mocidade da gente passa ligeiro demais”, diz Zezé Marcolino. E Benoni acrescenta “Eu também ando esquecido, as peças do computador estão falhando”. Mas é a partir da lembrança do esquecimento que Benoni recorda de mais uma história pra nos contar.

De quando foi em Pedra do Buíque cantar o Divino, que são peças que trazem trechos da Bíblia. Muito difícil de gravar, “é pra ir cantando de palavra em palavra, de letra em letra”, Mestre Benoni prometeu que se falasse o Divino sem errar ele louvava o nome de Jesus Cristo. Faltou apenas a última palavra na memória do mestre, o padre percebendo o feito, começou a bater palma, salvou a apresentação. E ele cumpriu com sua promessa.

No auge de seus 71 anos, o mestre conta também de quando sofreu um infarto e não pôde se apresentar “As veias tudo entupida e eu só pensava no reisado”. E assim, como enredo perfeito que se fecha, Mestre Benoni encerra nosso encontro, não sem antes nos convidar diversas vezes para retornar, falando sobre o dia que sua morte chegar. Diz que já avisou a “seu povo”, que quando seu dia chegar quer que cubram seu caixão com a coroa e a espada e que cantem peça de reisado no cortejo de seu funeral.“Quando eu morrer todo mundo vai olhar, minha mortalha é um traje de reisado.”

< voltar para home