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Festival de Inverno

O esforço para amar um filho

Sozinho em cena, Charles Friks emociona plateia de “O filho eterno”

(Foto: Marcelo Soares)

(Foto: Marcelo Soares)

Por Leidson Ferraz

Um escritor de 28 anos, que sempre teve dificuldade com o afeto, vai ter o primeiro filho. Inseguro quanto à sua profissão, já que ainda não escreveu nenhuma grande obra, pelo contrário, deposita na criança o seu projeto de prova das qualidades que possui. Mas o bebê, de nome Felipe, nasce com Síndrome de Down. Este é o grande conflito da peça “O Filho Eterno”, da Cia. Atores de Laura, do Rio de Janeiro, baseada em história verídica que encantou a enorme plateia que compareceu ao Teatro Luiz Souto Dourado nesta terça, dia 23, fazendo muita gente se emocionar de fato.

Desde o começo, a respiração do público já era entrecortada, afinal, não é fácil ouvir um pai renegar o próprio filho. Sozinho em cena, o ator Charles Friks, contracenando apenas com uma cadeira, tem as nuances perfeitas para nos cativar no papel deste pai que busca sentido em aceitar um filho, segundo ele, “com defeito de fabricação”. A grande questão, para além da própria paternidade, é aprender a lidar com alguém que, para sempre, vai manter uma “corda invisível” de união aos seus progenitores, como bem explicitado no título. Valorizando interpretação e luz precisas (esta de Aurélio de Simoni), a montagem traz uma crescente de sentimentos discutindo a relação familiar e a própria valorização do ser humano.

Afinal, apesar de xingar o filho como “um peso”, “provação”, “fardo” ou “vergonha” por seu “mongolismo” – palavra usada na década de 1980, quando a obra foi escrita –, no fundo este pai precisa, como indivíduo, saber lidar com seus próprios sentimentos contraditórios, entender as diferenças de cada um, sem ter como referência a dita “normalidade”, e compreender a vida e o mundo também pelo olhar da sua criança que não vai envelhecer, mas continuará o acarinhando em abraços afetuosos. Concebido a partir do romance homônimo de Cristovão Tezza, “O filho eterno”, sob direção acertada de Daniel Herz, é daqueles espetáculos inesquecíveis porque transborda verdade em cada detalhe da cena.

Na plateia, a emoção tomou conta de alguns espectadores em especial. Catarina Lima, irmã de Carolina, portadora da Síndrome de Down, se disse bastante tocada ao final do espetáculo. “Minha irmã sempre teve mais assistência dos meus pais e tive que aprender a me virar. Mas acompanhei cada conquista dela, o que era motivo de festa, assim como aconteceu no desenrolar da peça. Ver o desenvolvimento da nossa Carol, mesmo diferente das outras crianças, mas do jeito dela, para mim sempre foi normal. Por isso digo que ela é nossa benção”. Sua mãe, Roseni Gama, acompanhou a peça junto ao marido, Sinval Paes, e não segurou as lágrimas ao falar da filha. “A peça retrata exatamente o que a gente vivenciou. O impacto de ter um filho especial é assim mesmo, mas com o tempo vem a aceitação, porque é nosso filho, e a paixão é imediata, como pude ver aqui”, finaliza.

Carol participa da APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) em Garanhuns, instituição importantíssima para o desenvolvimento dela, segundo sua própria mãe. Para saber mais sobre as atividades lá realizadas: Rua José Ferreira Leal, 90, Heliópolis. Tel. (87) 3761-0005.

Catarina (à esq.) tem irmã com Síndrome de Down (Foto: Marcelo Soares)

Catarina (à esq.) tem irmã com Síndrome de Down (Foto: Marcelo Soares)

 

 

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