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Festival de Inverno

O teatro de gente pequena

Mamulengo Teatro do Riso do Mestre Zé Lopes se apresenta no Parque Euclides Dourado (Foto: Eric Gomes)

Mamulengo Teatro do Riso do Mestre Zé Lopes se apresenta no Parque Euclides Dourado (Foto: Eric Gomes)

Por Luiza Falcão

Mestre Zé Lopes, 63 anos, se dedica aos bonecos desde os 10. Para ele, fazer, criar e interpretar bonecos de mamulengo não é um ofício, são as coisas que dão sentido à sua vida. Se você quiser saber o que é mamulengo, podemos dizer que é a arte de refletir a vida através do teatro de objetos. Foi esse mestre, com a equipe do Mamulengo Teatro do Riso, que brindou o Espaço do Mamulengo com um espetáculo cheio de magia e improviso nesta sexta-feira (19/7).

O teatro de mamulengo é uma das tradições mais peculiares da cultura nordestina e, em especial, de Pernambuco. Ele surgiu com a intenção de divertir os adultos, de fazer piada entre os amigos e “maldizer” os inimigos. Mas, talvez por acharem graça nos bonecos, as crianças tomaram pra si o direito de também serem expectadores, e isso fez toda a diferença. O texto, que era recheado de palavras chulas, foi adaptado aos pequenos e as histórias passaram a ter lições de moral e cidadania. Na apresentação do Mamulengo Teatro do Riso não  pode faltar uma crítica social, uma abordagem sobre o preconceito racial e sobre o machismo, uma alfinetada na forma de condução política das autoridades policiais e governamentais. Além de ter um aspecto teatral, o mamulengo está muito relacionado com a cultura popular, com as tradições locais.

Este é o segundo ano que um espaço especial foi reservado para as apresentações dos grupos que fazem desta tradição um meio de vida e de preservação da história. Nesse quesito, quem se destaca é a cidade de Glória do Goitá, uma das mais frutíferas na produção teatral de mamulengos.

Lembra do mestre que falamos lá no começo do texto? Pois bem, ele é uma das pessoas “mais antigas” na arte bonequeira que existe em Pernambuco. Quando nasceu, seu pai queria que ele fosse engenheiro mecânico, mas o sonho não durou muito. Aos quatro anos, ele perdeu o pai e a mãe passou a trabalhar vendendo doces em uma feira de mamulengos. De tanto acompanhá-la, o pequeno José Lopes ficou fascinado com as histórias contadas naqueles pequenos palcos improvisados. “Quando eu era criança, achava que mamulengo era gente pequena. Quando descobri que não era, resolvi que queria fazê-los também e dediquei minha vida a isso”, conta Zé Lopes, que fundou o Mamulengo Teatro do Riso, em 1982, com medo que a tradição acabasse.

Mestre Zé Lopes tem mais de 50 anos de experiência na arte bonequeira (Foto: Eric Gomes)

Mestre Zé Lopes tem mais de 50 anos de experiência na arte bonequeira (Foto: Eric Gomes)

 

O grupo, que tem mais de 30 anos de história, não conta toda a vida de Zé Lopes, ela é muito maior. Já passaram 53 anos que ele resolveu se dedicar a essa arte. Primeiro ele só fazia os bonecos e vendia para os grupos que dominavam a técnica da apresentação, depois passou a fazer parte dos grupos. Em 1971 ele viajou para São Paulo em busca de um “trabalho honesto”, mas acabou voltando para sua cidade e para seu talento natal. Foi nessa volta que ele encontrou a tradição dos mamulengos abandonada e resolveu fundar um grupo para não deixa-la morrer.

Os bonecos do mestre Zé Lopes não são apenas esculturas de madeira e pano, são personagens tirados da sociedade onde ele [e nós] vivemos. A Quitéria mesmo, que sobe ao palco como esposa do delegado, é a típica madame da cidade. Apesar de ser a mesma boneca há 20 anos, seu texto muda sempre, assim como o dos outros personagens, para adaptá-los à moda, ao estilo e ao linguajar atual.

Perguntado se dá para viver do teatro, ele é categórico: não dá pra ficar rico, mas para sustentar a família com conforto, isso dá. “Comecei a fazer bonecos aos 10 anos e levei dois para fazer o primeiro. Hoje, com experiência e ajuda da família, faço um boneco em dois meses”.

20/07/2013 | Compartilhe: Facebook Twitter

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