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Festival de Inverno

Os afetos sonoros e a busca pela essência

O percussionista Lucas dos Prazeres estreou no FIG 2013 o seu novo espetáculo solo, “Repercutir”

(Foto: Ricardo Moura)

(Foto: Ricardo Moura)

por Leonardo Vila Nova

“Em silêncio, olho para a minha essência, ouço o ritmo na minha alma e viajo pelo interior de mim mesmo, na busca da resposta e da força para reverberar… Repercutir… “. Não só através das palavras o artista faz significar suas expressões e a sua verdade. O silêncio, essência prima para a existência do som, simboliza o intervalo mais essencial para fazer com que a natureza humana ganhe espaços à sua volta e venha dizer muito mais do que se imagina. Essa é a busca empreendida pelo percussionista Lucas dos Prazeres, em seu mais novo espetáculo solo: “Repercutir”, que ele apresentou neste domingo (21), encerrando a noite no Palco Instrumental (Parque Ruber Van Der Linden). Em palco, apenas Lucas e os seus instrumentos, em um diálogo íntimo, onde o músico se desnudou inteiramente de qualquer coisa que não significasse música.

“É a renovação dos meus votos de comunhão com meus instrumentos de percussão”, conta Lucas sobre o espetáculo, inteiramente voltado para os seus instrumentos, que se tornam os protagonistas desse momento mais intimista. “Repercutir” é um espetáculo dividido em peças compostas por ele para cada um desses instrumentos, como pandeiro, moringa, entre outros, além de sets compostos por percussões variadas. Ao entrar em cena, Lucas parece um ser encantado, que hipnotiza quem o contempla em cada movimento e vibração sonora que produz. O som de todo o mudo que nos cerca parece brotar da pele de Lucas. Na verdade, essa resposta ao mundo vem de muito mais além: da alma do percussionista.

(Foto: Ricardo Moura)

(Foto: Ricardo Moura)

Em 17 anos de carreira, a percussão de Lucas vem passeando pelo mundo e absorvendo um pouco de cada lugar por onde passa. Essas experiências também são matéria-prima para que o artista desenvolva uma maneira particular de tocar cada instrumento, de conversar com cada um deles, construindo uma relação em que a música, realmente, se torna a extensão exata e absoluta do corpo e da alma do músico. E é o que vemos em palco. Um ser que se amplifica através da sua música, onde cada instrumento tem uma forma de dialogar, através dele.

A máxima do “menos é mais” é também a tônica do espetáculo, onde Lucas se permite ampliar as possibilidades sonoras com o mínimo de elementos. “Há um aprendizado que nós (percussionistas) vamos tendo ao longo das nossas experiências, que é o de ir secando as coisas. Você vai desconstruindo e encontrando as respirações e os silêncios. E eu queria abordar isso de maneira mais forte”, conta sobre a construção do espetáculo. “Repercutir” já vinha sendo pensado paralelamente à concepção de “O som dá(r) vida” e as apresentações de Lucas e a Orquestra dos Prazeres. O músico viu neste convite do FIG 2013 a oportunidade ideal para estrear esse novo espetáculo, que, ao seu final, contou com a participação de seu irmão, afilhado, sobrinhos e da sua filha, Clara, que multiplicaram o poder sonoro em palco.

“Repercutir” continua reverberando… através das mãos e da alma de Lucas dos Prazeres e em todos aqueles que tiveram a oportunidade vê-lo em palco, em sua sincera busca por uma música que, não apenas soe, repercuta afetos.

Homenagem a Janete Costa

Outro momento especial de “Repercutir” foi a peça especialmente criada para reverenciar a arquiteta e decoradora Janete Costa, homenageada do 23º Festival de Inverno de Garanhuns. A artista, filha da cidade, tem uma história marcada pela sensibilidade ao lidar com as nuances das cores que dão vida aos ambientes. São essas cores que Lucas pretende captar para o universo musical. As cores sonoras que ele vê em sua música. “Eu enxergo na minha música variadas cores, assim como vejo no trabalho de Janete”, diz Lucas. E, para explorar essa diversidade, o escolhido por Lucas foi o seu pandeiro cativo, ou, como ele costuma chamar, a “sua bateria de bolso”. A versatilidade do instrumento – adaptável a qualquer estilo musical – foi responsável pela peça que reverenciou a artista. Empunhando o seu companheiro de música, Lucas traduziu o universo da decoradora em frevo, maracatu, samba enredo, o que remeteu a uma artista que tinha a cara de sua terra. “Eu tenho uma identificação com Janete: ela gostava muito de falar da sua aldeia, do lugar de onde ela vinha. Esse é um traço que também trago em mim”.

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