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Festival de Inverno

Palco Instrumental e do Virtuosi na Serra atraíram milhares de pessoas

Polos reafirmam que o FIG tem espaço e público pra música instrumental e erudita

Roger Canal se apresenta no Palco Instrumental. (Foto: Tiago Calazans/Secult-PE)

Roger Canal se apresenta no Palco Instrumental. (Foto: Tiago Calazans/Secult-PE)

Uma pitada de jazz, funk, música erudita do século 20, Hermeto Pascoal, maracatu, choro galdério e otras cositas más. É com essa receita, no mínimo curiosa, que se faz uma Camerata Brasileira. O grupo, que se apresentou no último dia do Festival de Inverno no Palco Instrumental, era uma das atrações mais esperadas da noite, e não decepcionou o público que assistia atentamentamente e calorosamente à apresentação dos gaúchos debaixo de guarda-chuvas e agasalhos.

A performance do grupo, que exalava energia na Praça Rubem Van der Linden por volta das 18h, foi marcada por ótimos solos do tecladista  e do baterista do grupo. Antes da Camerata, o músico garanhuense Cláudio Lins apresentou, pela 22ª vez no FIG, o seu blues. Luiz Brasil e banda, com sua música instrumental de raízes brasileiras, e Roger Canal, que hipnotizou o público criando músicas com a sua “banda de um homem só”, completaram a noite. Roger inverte a lógica de música como produto pronto para ser consumido, e convida o público a fruir a música como processo. Vai gravando, na frente de olhos e ouvidos atentos, instrumento por instrumento, e mesclando tudo em sua mesa de som, até construir uma música completa.

Moysés Lopes, violonista da Camerata Brasileira fala um pouco sobre rótulos, relação com Pernambuco e influências musicais na entrevista a seguir:

Apenas o rótulo instrumental parece ser amplo demais para um grupo de música tão híbrida e cheia de referências como a de vocês. Como vocês classificam a música que fazem?

Quando eu tenho que explicar para as pessoas eu digo que é música, sabe? Que parece Hermeto Pascoal é algo que também sempre funciona. Na verdade, a gente não tem uma preocupação com uma definição. Há um tempo atrás nós tínhamos um pé muito forte cravado no choro, e com o tempo isso foi se esvanecendo, esvanecendo, e a gente foi ficando mais livre, mais livre, mais livre. E o que a gente busca hoje é se expressar, mas a gente não tem uma preocupação com o rótulo. E o rótulo instrumental acaba vindo apenas porque não usamos letra. Mesmo que a gente use vocalizes e tal, às vezes a voz como instrumento, mas já que não temos uma letra, a gente se mantém dentro do rótulo intrumental desta maneira.

O que influencia o som da Camerata?

Todos os integrantes ali são oriundos da academia, todos são formados, graduados em música. Eu diria que talvez a influência mais forte hoje seja a música erudita. Muito de música erudita do século 20. Então, claro que a gente tem vivencias de pop também, eu toco numa banda de um gaúcho que canta em portunhol, que é um pop latino esquisito. Rodrigo, o saxofonista,  tá sempre tocando em bandas de jazz, de funk. Então todos nós tempos uma vivência pop, mas acho que a base mesmo são os eruditos. Na verdade, o leque é aberto pela quantidade de estilos que a gente escuta. Eu acho que uma grande preocupação comum entre nós é escutar o que a gente não conhece, e muitas vezes o que a gente não gosta. Escutar o que gosta é fácil, é bem fácil. É zona de conforto. Então a gente procura escutar muita coisa, mas eu acho realmente que a maior referencia é a música erudita.

Vocês apresentaram um maracatu na apresentação de hoje, e enfatizaram a relação com Pernambuco. Como esse laço se deu?

Então, isso começou em 2005, na Feira da Música de Fortaleza. A gentye ficou hospedado lá, conhecemos uma galera de Pernambuco, já pintaram convites pra fazer shows durante o carnaval de Olinda. Dali a gente tava pra gravar um outro CD, e a gente conheceu em Recife um estúdio fenomenal, o Carranca, e aí dissemos: “bom, é aqui, tem que ser nesse estúdio, ele proporciona o que a gente quer”. A formação era outra, não era essa, era uma formação com violão, bateria, bandolim e sax, e aí a gente veio, gravou, fez shows. Aí daqui a pouco voltamos, eu venho sempre pro Porto (Musical), pra feira, então Pernambuco é “cadinho” violento de cultura numa ebulição crescente. Eu acho que a gente fala muito sempre da história da antena que tá cravada, mas tá emitindo e não recebendo. Pernambuco se mantem assim sempre, isso é muito legal. Às vezes fica uma ideia de que houve um movimento em Pernambuco, que foi revolucionário. Não, Pernambuco é revolucionário sempre. Eu acho que PE é um estado que consegue dialogar com a sua cultura popular, com a cultura do mundo, consegue ser global e local ao mesmo tempo. A gente tem um apresso muito grande pela cultura de PE. Eu não passo um ano sem vir aqui, não consigo, tenho que vir. Quando não tem nada para fazer eu invento uma coisa e venho, porque é sensacional.

E como você avalia o show de hoje?

Cara, foi uma delícia. Muito bom tocar aqui hoje. Era uma expectativa grande que nós tínhamos. Esse palco é um palco que já passou gente muito grande, muito poderosa da música instrumental brasileira. A gente sabia que tinha uma responsabilidade, e ao mesmo tempo a gente sabe que muitas vezes o nosso estilo não é muito palatável, às vezes é meio estranho, às vezes o público reage de uma forma que não é aquela que a gente espera. Mas enfim, a gente vem pra causar um pouco de estranheza mesmo. Caramba, a gente se divertiu muito. O suor foi antes, a gente suou muito, ralou muito, ensaiou muito, trabalhou muito, mas em cima do palco foi só alegria hoje. Foi uma diversão tremenda, acho que a gente conseguiu passar isso pro público, que foi extremamente carinhoso. Eu saio de Garanhuns de alma lavada, doido pra voltar. Agora eu tava conversando com o maestro Formiga, e ele dizendo “e aí, vamos lá fazer alguma coisa juntos”. Então não dá pra se livrar mais da cultura pernambucana, ela já está conosco

Música erudita atrai grande público no FIG 2012 – Além do Palco Instrumental, o Virtuosi na Serra, que já vai para o seu 8º ano no FIG, fechou sua programação com a Igreja de Santo Antonio quase lotada. O Duo Gastesi-Bezerra apresentou composições de Debussy, Osvaldo Lacerda, Dinah Menezes e Ronaldo Miranda, além de uma composição do espanhol Gerard López-Boada, Sonhos, que foi executada pela primeira vez no Brasil.

Cerca de 16 mil pessoas passaram pela Igreja de Santo Antonio para assistir ao espetáculos do Virtuosi e do Conservatório Pernambucano de Música durante os dez dias do Festival de Inverno. Estima-se também que 5 mil pessoas passaram pelo Palco Instrumental para apreciar a programação.

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