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Festival de Inverno

Para um grande público, de tudo um pouco

Artistas de tendências variadas passaram pelo Palco Guadalajara nessa sexta (19) e caíram nas graças da plateia

Zeca Baleiro (Foto: Pri Buhr)

Zeca Baleiro (Foto: Pri Buhr)

por Leonardo Vila Nova

Poucos são os artistas que conseguem fazer com que hits de sua trajetória musical agreguem um valor muito mais amplo e profundo do que o meramente comercial e massivo. Conciliar sucesso e qualidade não chega a ser uma prática comum, mas não impossível. A segunda noite da programação musical do FIG 2013, nesta sexta (19), foi um bom exemplo de como se pode ir além. Pelo Palco Guadalajara, passaram gerações diversas de artistas da nossa música que possuem um trabalho consistente, maduro e que se mantém firme no coração do público ao longo dos anos. Cada qual à sua forma ganhou a plateia, seja com inusitadas performances, ritmos dançantes ou pela pura emoção. Resultado: uma noite interessantemente plural, onde várias tribos foram todas elas.

Em clima de uma verdadeira “rave”, DJ Dolores & Orquestra Santa Massa mostraram que ainda mantém inabalável a receita que prepararam há mais de uma década. As batidas geradas nos computadores e os diversos elementos eletrônicos em um intenso diálogo com os ecos das nossas tradições populares. O maracatu rural reprocessado em drum’n’bass, o tecno-house e o merengue se transformando numa coisa só, entre outras misturas mais. E, no meio disso tudo, um convidado especial: o cantor e compositor Chico César, que, de guitarra em mãos, entrou no clima e mais parecia um integrante da Santa Massa. “Agora eu quero ficar ‘encangado’ com eles”, disse Chico sobre o encontro, que trouxe à voz do paraibano músicas como “Adorela” e “Azougue” e incorporou às batidas de Dolores sucessos do compositor, como “Beradêro” e “Mama África”. Realmente, um encontro que deu liga e promete desdobramentos futuros.

Sai o clima dançante e entram em cena as performances “rasgadas” e “agressivas” da cantora “baiana/pernambucana” Karina Buhr, uma frontwoman bem diferente do que se vê por aí. Ao cantar suas canções, ela parece injetar veneno nas próprias veias e sair rodopiando pelo mundo, vomitando raivas e amores na mesma proporção. Com uma banda poderosa e um repertório que revira as entranhas, Karina grita, pula, corre, se joga no chão, escala a estrutura do palco e preenche tudo ao redor com sua presença que provoca sensações diversas, até mesmo as mais desconfortáveis, como ela mesmo disse. “É óbvio que eu prefiro que as pessoas gostem do que eu faço, mas o mais importante é provocar uma reação nelas, até mesmo ódio! Eu fico feliz quando isso acontece também”. Em canções pesadas, como “Nassira e Najaf”, “Cara palavra”, “Copo de veneno”, o rosto doce e suave de Karina se transforma e esbraveja liberdade poética e teatral, anarquizando o que é facilmente deglutível.

De volta aos anos 80: o rock ganha espaço nas rádios brasileiras e se populariza. Um dos artífices desse movimento também marcou presença no Palco Guadalajara. O guitarrista Dado Villa Lobos vem percorrendo o Brasil para apresentar seu disco solo “Colapso”. De passagem pelo Festival de Inverno, fez um show onde a primeira metade foi composta pelo repertório desse álbum. Mas o inevitável reencontro com sua banda de origem, Legião Urbana, aconteceu. A Guadalajara em peso entrou em delírio quando ele tirou da manga uma dezena de clássicos do grupo, como “Giz” e “Ainda é cedo”, por exemplo. Junto ao convidado Toni Platão – também representante dessa geração – arrebatou a plateia com mais hits. Daí, vieram “Tempo Perdido”, “Eu sei”, “Há tempos”, “Pais e filhos” e, em referência às recentes manifestações ocorridas no Brasil, a atualíssima “Perfeição”. O fenômeno Legião Urbana roubou a cena e tomou a plateia por inteiro. Como parte dessa história, Dado foi reverenciado e ganhou a noite, nos braços do público.

Em constante tráfego por várias vertentes da MPB, o maranhense Zeca Baleiro fechou a noite, com um show “porrada” e uma incrível interação com o público. A apresentação foi um passeio por exatamente todas as fases do cantor e compositor. Desde “Por onde Andará Stephen Fry”, seu primeiro álbum, de 1997, até o mais recente “Disco do ano”, lançado em 2012, Zeca pinçou as músicas mais emblemáticas de sua trajetória e manteve em cima o clima da Esplanada Guadalajara. Rock’n’roll, seresteiro, cantador e folk ao mesmo tempo, Zeca mistura ingredientes populares ao seu matulão de influências, que vão de Bob Dylan a Genival Lacerda. Não houve quem não cantasse “Salão de beleza”, “Alma não tem cor”, “Quase nada” ou “Telegrama”. A noite se encerrou como se ainda estivesse começando, com o furor do público em alta. Mas, ainda bem, ainda estamos no sábado.

20/07/2013 | Compartilhe: Facebook Twitter

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