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Festival de Inverno

Por Elise, um espetáculo que reclama sensibilidade

Grace Passô e Marcelo Castro (Foto: Renata Pires)

Grace Passô e Marcelo Castro (Foto: Renata Pires)

 

Por Leidson Ferraz

As expectativas eram enormes e pela resposta do público que lotou o Teatro Luiz Souto Dourado nesta sexta-feira, 19, a peça “Por Elise”, do Grupo Espanca!, de Minas Gerais, cumpriu bem o papel de abrir a programação de Teatro Adulto deste 23° FIG. Com elogios da imprensa brasileira e prêmios como o Shell e o APCA de melhor texto em 2005, a peça é daquelas que nos faz sair do teatro com os sentimentos à flor da pele, quase explodindo em lirismo e inquietação. Tudo é bastante delicado, aproveitando-se de humor refinado para tratar de algo tão carente neste mundo: a possibilidade de amar e poder dizer abertamente o que sente. Mas não é um espetáculo fácil, de narrativa linear. Pelo contrário, as metáforas recheiam esta escrita dramatúrgica e cênica.

Grace Passô, a diretora e autora do texto, é a atriz que conduz a trama como uma contadora de histórias cuja simpatia conquista no primeiro momento. Vem acompanhada de outras personas que, de alguma forma, naquele espaço nu (sem cenário algum), terão seus destinos aproximados. Ela narra histórias que rementem-se a vizinhos e passantes, enquanto foge dos abacates que caem da árvore que plantou em seu quintal. “Cuidado com o que planta”, diz sabiamente. Há ainda o lixeiro que corre desesperadamente em sua rotina diária e busca reencontrar o pai que abandonou a família ao sair para comprar cigarros; uma jovem que sofre de amargura e quer se aproximar de alguém; seu cachorro que, doente, está prestes a ser sacrificado; e o funcionário que, com uniforme que o protege dos ataques de cães, vem cumprir sua dolorosa função sem maiores envolvimentos, no entanto, sabe traduzir uma cerimônia de palmas com extrema sensibilidade.

De caráter eminentemente contemporânea, a trama é conduzida com frases que muitas vezes não se completam e cenas que até deixam o palco vazio. É para se assistir num outro tempo, fora da correria do dia a dia, e a abertura com movimentos em tai chi chuan já nos convida a isto. Ideal para quem está disposto a ter seus próprios sentimentos remexidos, afinal, todas as histórias ali expostas clamam por isso, a começar da canção francesa “Pour Elise” do caminhão de gás que, vez ou outra, corta a rua onde transitam as personagens e, de certa forma, reclama poesia a uma atividade aparentemente fria, mecânica. Há metáforas lindas, como a da moça que sofre por sua baixa estima e simplesmente desaba o corpo a torto e a direita; ou a do jovem lixeiro que corre constantemente e, ao ouvir as possíveis confidências do pai ausente, para e soca o ar com golpes de Karatê. Afinal, o amor, de tão intenso, também pode ser como um grito, uma pancada, metaforicamente extravasado assim.

Na pele do cachorro, Marcelo Castro, vestido com moletom em personagem que se descortina aos poucos, traduz a maior metáfora em cena, que vai se revelando, sem estereótipos, na sua respiração, olhar e movimentos de corpo de um animal acuado, mas entregue ao amor incondicional, independente do destino trágico que o aguarda. Belo exemplo aos seres humanos: “Mais amor, por favor!”. Entre silêncios, delicadezas e espancamentos, “Por Elise” consegue nos dizer, como uma doce pancada, o que este cachorro vocifera em frases humanas em determinado momento: “Gente sente tudo. Não adianta fugir. Gente sente tudo”. Pelos aplausos finais da plateia, o acordo foi feito. Aos sentimentos, então… Ainda no elenco, Gustavo Bones, Renata Cabral e Sergio Penna. Para saber mais sobre o Grupo Espanca!: www.espanca.com

20/07/2013 | Compartilhe: Facebook Twitter

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