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Festival de Inverno

Realizadores pernambucanos se encontram em Garanhuns

Mostra de cinema do FIG é encerrada com debate inédito e resultados positivos

FIG - 01

Por André Dib

Pela primeira vez em nove anos, a Mostra de Cinema do FIG foi encerrada com um encontro de realizadores pernambucanos. A decisão tomada pela coordenadora de Audiovisual da Secul/ Fundarpe, Carla Francine, foi mais do que acertada. Até então, cada diretor vinha a Garanhuns apresentar seu filme, para no dia seguinte voltar para a capital. Reuni-los para refletir e ventilar ideias foi rico e produtivo; se a bonança dos últimos tempos rendeu uma produção ímpar na história do estado, é preciso pensar estratégias para a sua continuidade.

O evento começou logo após a exibição de “O Som ao Redor”, de Kléber Mendonça Filho, com a presença do diretor, que começou a conversa confidenciando ao mediador, Cláudio Assis, que ter assistido “Amarelo Manga” o motivou a fazer o próprio longa. “Foi um impacto ver o Recife em tela grande, cinemascope”.

Gabriel Mascaro, diretor de “Doméstica”, disse o mesmo com relação a Assis: “pensei que se um cara como ele está fazendo cinema, eu também posso”, brincou, reforçando o clima de amizade, compartilhado pelo produtor João Vieira Jr. (REC Produtores Associados) e o cineasta Jura Capela (“Filme Jardim Atlântico”).

Olhar para a cidade tem sido a tônica não só do atual cinema feito em Pernambuco: desde sua origem, o Recife está nos filmes, representado em suas contradições. A dimensão estético/ política, no entanto, pode ser considerada tão inédita quanto o prestígio acumulado pela filmografia recente.

Os convidados enumeram os motivos. “É uma modalidade de cinema diferente do sudeste, que é feito pela elite”, disse Mascaro, que elogiou o apoio do edital de audiovisual (Funcultura Audiovisual) mantido pelo Governo do Estado, uma produção “fora da lógica comercial perversa que rege os filmes no mundo inteiro. Precisamos oficializar isso como política cultural de longo prazo”.

Cláudio foi taxativo ao tratar do poder público: “ele só faz o seu dever”. Sobre a ótima fase financiada por patrocínio estatal, Jura disse que “por mais anárquico que seja o cinema pernambucano, vivemos um momento sério, real e lúcido. Pernambuco não tem cineasta feliz, auto-suficiente. Vejo todos batalhando diariamente, e quando precisa, pedindo ajuda para os amigos”.

Kléber Mendonça ressaltou o equilíbrio individual x coletivo. “Somos uma comunidade, de canais separados, onde é importante a presença do outro fazendo filmes. Isso gera energia criativa. Ao mesmo tempo em que há uma completa independência, forma-se um conjunto muito rico”.

Cláudio Assis abriu o encontro rejeitando qualquer recorte geográfico que possa aprisionar a produção de filmes. “Cinema não é de nenhum lugar, cinema é do mundo e não da tapioca ou do acarajé”.

Responsável pela produção de filmes essenciais como “Cinema, Aspirinas e urubus” e “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, João Vieira Jr. disse que o cinema feito em Pernambuco superou qualquer conotação regionalista. “A produção contemporânea é marcada por obras críticas, feitas sob um espírito comunitário. Não estamos mais sob aquele conceito que nos apequenava. Hoje temos lugar no cenário nacional”.

Jura confirma: “Criamos uma marca que, se ao mesmo tempo pode ser desconfortável, se tornou um carimbo de qualidade”. Kléber concorda: “Se virou um rótulo, é um rótulo positivo. Ninguém quer ser sucesso comercial, não fazemos pesquisa de mercado para procurar nichos de público. O cinema pernambucano é bem sucedido dentro dos seus próprios termos, tem o público dele, sem a neura de querer ser grande sucesso, como faz a Globo Filmes”.

Sedento por informações, o público interagiu e fez perguntas sobre a obra de cada diretor e curiosidades sobre fazer cinema. Foi o mote para cada um falar sobre os filmes que vem por aí: Kléber prepara dois longas: “Bacurau” (“se tudo der certo, um filme experimental e de ficção científica”) e “Aquarius” (“um filme menor, filhote de O Som ao Redor”); Mascaro está prestes a rodar um documentário sobre a vaquejada (“estou procurando locações inclusive em Garanhuns”) e na sequência, uma ficção “em homenagem a Cláudio Assis”.

Em agosto, João Jr. irá lançar “Tatuagem”, dirigido por Hilton Lacerda, está na competição do Festival de Gramado, e em breve deve lançar “O homem das multidões”, de Marcelo Gomes e Cao Guimarães; e Jura Capela desenvolve “Cartografia”, panorama nacional sobre as artes plásticas, e a adaptação de uma peça de Nelson Rodrigues, “A Serpente”, com interpretações de Mateus Nachtergaele, Mariana Lira e Alessandra Negrini.

Conhecido pelo comportamento arredio, Cláudio Assis se mostrou um mediador exemplar, sóbrio e elegante, tanto na apresentação dos realizadores quanto na lida com o público. Críticas, somente à Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, com quem protagonizou batalha recente envolvendo o edital para filmes de baixo orçamento. “Um edital castrado, miserável. Não quero esse dinheiro”. Seus próximos projetos são “Big Jato”, adaptação do livro de Xico Sá, e “Piedade”, construído em torno do clima de tensão gerado por ataques de tubarão nas praias do Recife e Jaboatão dos Guararapes.

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