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Festival de Inverno

Sucesso de comédias prova que o FIG quer rir (e muito)

De malas prontas: graça com disputa feminina (Foto: Marcelo Sores).

De malas prontas: graça com disputa feminina (Foto: Marcelo Sores).

Por Leidson Ferraz

Que comédia é chamariz para grande público no teatro todos sabem. E o FIG, mais uma vez, deu provas de que é sempre bom rir, ainda mais quando o resultado dos espetáculos é de uma coesão entre texto ou roteiro, interpretação e demais elementos da cena. Na quinta, 25, o Teatro Luiz Souto Dourado recebeu a comédia “De Malas Prontas”, da Cia. Pé de Vento Teatro (SC), recorde de público neste ano, com 591 espectadores. Trata-se de uma obra sem texto falado, onde duas excêntricas mulheres esperam um voo num saguão de aeroporto. O banco que sentam serve de disputa para ver quem ocupa mais espaço com suas bagagens; quem se atreve mais a enfrentar a outra, seja com baforadas de cigarro ou batidas de pés no chão; e até mesmo quem duela melhor num absurdo atirar de facas contra o painel de voos ou no enfiar de espadas no porta-refrigerantes, numa homenagem à graça do circo com elas servindo-se de refém uma da outra.

Impossível não rir em diversos momentos da peça (que resultaram em constantes aplausos em cena aberta neste 23° FIG) diante das caras, olhares e trejeitos histriônicos das duas atrizes, Vanderléia Will e Lily Curcio, atrevidas até dizer basta. O mais interessante é perceber que brincam com o universo feminino e, em especial, sua preocupação com a vaidade, já que a guerra estoura quando, após mil enfrentamentos, os cabelos de ambas são destruídos. Vale destacar também a luta de lanches das duas, com uma deliciando-se com morangos nem tão gostosos assim (mas para fazer inveja, dá gozos de prazer diante da inimiga) e a outra bancando a fina com sua alface (mas morrendo de vontade de empanturrar-se com os tais morangos com chantilly). Ao final, a batalha prova que compartilhar o mesmo espaço pode não ser nada fácil, mas ainda bem que a violência no palco resulta em pura graça, numa crítica à mesma. A direção é de Pepe Nuñez.

Como nasce um cabra da peste: divertido sufoco para parir (Foto: Renata Pires).

Como nasce um cabra da peste: divertido sufoco para parir (Foto: Renata Pires).

 

A comédia “Como nasce um cabra de peste” foi outro recordista de público neste ano, na sexta, 26, com 560 espectadores. O espetáculo da Agitada Gang – Trupe de Atores e Palhaços da Paraíba trouxe à cena a realidade das brenhas do sertão nordestino, com uma família que comercializa garrafadas – há curas hilárias para tudo! – e está prestes a ganhar o segundo rebento. Edilson Alves (o pai), Madalena Accioly (a mãe) e Dadá Venceslau (o filho, mas, também, nos papeis de uma vizinha e uma parteira) conquistam o público com sua caracterização impecável de matutos cheios de carisma e já na entrada inicial, somente com o andar (as passagens de tempo e de lugar são marcadas por voltas que dão no cenário formado por dois painéis de galhos retorcidos de árvores, de belo efeito visual) revelam minúcias da composição de cada personagem. Humor também não falta a esse trio.

Com texto do saudoso Altimar Pimentel, inspirado na importantíssima obra etnográfica de Mário Souto Maior e o seu precioso linguajar, o espetáculo reúne crendices e receitas da medicina popular nordestina, o que dá margem para gargalhadas mil do público, pois o marido segue à risca o que é preciso fazer para sua mulher dar à luz a um menino. Para isso, haja correria, desejos e indicações as mais absurdas, como passar álcool nas partes íntimas da grávida, fazê-la beber chá de pimenta do reino com cominho, espalhar defumador na casa (com espíritos que baixam) e até o marido vestir a camisola da mulher enquanto a deixa de cabeça para baixo. A crença e a ingenuidade do Brasil rural ganham contornos divertidos nesta montagem, que é fotográfica – com imagens belas também – e de ritmo alucinadamente crescente. Explosão de palmas entusiasmadas ao final. A direção é de Eliézer Filho.

*”De malas prontas” e “Como nasce um cabra da peste” são espetáculos, respectivamente, com 10 e 16 anos de carreira. Prova de que o teatro (de qualidade) pode não ser tão efêmero assim. Ainda mais quando faz muita gente rir!

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