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Festival de Inverno

Troca de Saberes Crioulos fortalece quilombolas

Comunidades quilombolas se beneficiam da troca de experiências e conhecimentos

Por Cecília Almeida

Chegaram aos poucos, mas chegaram acreditando na oportunidade de trocar experiências, compartilhar dificuldades e descobrir soluções. Cerca de 30 comunidades quilombolas participam a partir da segunda (16/7) do Encontro Troca de Saberes Crioulos, no Polo Castainho, como parte da programação do 22º Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), realizado pelo Governo do Estado, através da Secult/Fundarpe.

Moacir Correia exibe seu artesanato na Mostra Estadual de Artesanato Quilombola. (Foto: Edmar Melo/Secult-PE)

Moacir Correia exibe seu artesanato na Mostra Estadual de Artesanato Quilombola. (Foto: Edmar Melo/Secult-PE)

“É uma oportunidade de ultrapassar barreiras, de reconhecer novas culturas, novas artes, novos artesanatos. E de conhecer novas pessoas, novas oportunidades, desbravar fronteiras”, avaliou o artesão Moacir Correia. O artista, da comunidade Engenho Siqueira, de Rio Formoso, exibe seu trabalho, que vai desde objetos de decoração até temperos de cozinha, na Mostra Estadual de Artesanato Quilombola, realizada paralelamente à programação do palco. “Quando a gente se abre para o conhecimento, para essa troca, a gente conhece a dificuldade das outras comunidades e começa a buscar nossos direitos”, concluiu.

Ao seu lado, uma inventiva escultura chamou a atenção dos que passavam pelo local, principalmente das crianças. Nela, quatro homens tinham suas ferramentas de trabalho nas mãos, como enxadas e machados, sob a mira de uma espingarda. Uma hélice fazia mexer, quando posta em rotação, todos os trabalhadores representados na peça, aprisionados em movimentos repetitivos. “É o trabalhador brasileiro”, define o escultor Mauro Roberto Firmino, da comunidade de Timbó, que assina a peça. O artista ainda falou sobre seu gosto por materiais reciclados e sobre a importância de preservar suas raizes através da arte. Durante o Festival, Mauro também ministra uma oficina sobre modelagem no barro.

Toda a programação visa reunir os grupos para discutir a cultura de maneira mais ampla, promovendo a troca de conhecimentos entre as comunidades quilombolas presentes. “A ideia é reunir não só o artesanato, mas as diversas formas de saber da cultura e da tradição dessas comunidades, que vêm de todas as regiões do estado”, explicou Érika Nascimento, coordenadora das ações do Polo Castainho.

A preocupação com a acessibilidade, um dos pilares desta edição do FIG, também está presente em Castainho: “Estamos tentando facilitar o acesso e a circulação ao máximo. Temos, inclusive, uma expositora que está cadeirante. Queremos garantir que o festival seja feito por todo mundo e para todo mundo”, assinalou.

Espetáculo de dança Negra’ttitude fez vibrar o público do Polo Castainho. (Foto: Edmar Melo/Secult-PE)

Espetáculo de dança Negra’ttitude fez vibrar o público do Polo Castainho. (Foto: Edmar Melo/Secult-PE)

Até a sexta-feira (20/7), o Polo Castainho recebe uma programação diversificada, que inclui espetáculos musicais e de artes cênicas, além de dez oficinas de formação cultural, realizadas pela manhã e à tarde. Em seu primeiro dia (16/7), o palco recebeu a dança Quilombo Axé; o coral Vozes do Quilombo; a peça teatral Aruá, O Boi Encantado; e a coreografia Negr’attitude.

Para Gedália Venceslau, que prefere ser chamada de Dadá, o encontro “é uma maneira de obter novos conhecimentos e reunir comunidades do Agreste, Sertão, Mata Norte, Mata Sul, para uma troca de experiências. Vamos relembrar o que é que existe na nossa realidade, o que avançou, o que regridiu”, conta a quilombola da Povoação de São Lourenço, no distrito de Tejucupapo, em Goiana (PE). Ela ainda afirmou que ficou muito feliz com o convite da Fundarpe, acreditando que bons frutos virão a partir daí. “É um primeiro passo”, disse, com um largo e afável sorriso no rosto.

Dadá pede para finalizar com um recado, que considera bastante importante: “Eu sou negra, tenho orgulho de ser negra e de ser quilombola. Apesar de que não é a cor da minha pele ou dos meus olhos que dizem quem eu sou. É a minha origem, minha tradição, minha cultura, minha profissão. Se eu digo que sou negra e quilombola, ninguém pode dizer que eu não sou”.

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