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Festival de Inverno

Uma noite bem coladinha a LucyLady

Irmãs siamesas num call center fazem rir a plateia (Foto: Renata Pires)

Irmãs siamesas num call center fazem rir a plateia (Foto: Renata Pires)

 

Por Leidson Ferraz

Faltando ainda uma hora e meia para a abertura da bilheteria do Teatro Luiz Souto Dourado, à tarde, um grupo de jovens já aguardava a entrega dos convites, todos integrantes de uma animada turma que veio do Recife e Moreno, 30 ao total, para uma casa alugada durante temporada inteira neste 23º FIG. Entre eles, Dielson Vilela, 25 anos, professor, e Lucíola Almeida, 35 anos, jornalista. Mal sabiam o nome da peça que poderiam ver naquela noite de segunda-feira (22), mas já demonstravam ansiedade pela opção cultural escolhida. “Passar os dez dias em Garanhuns, neste período, é a oportunidade de aproveitar coisas diferentes, shows, cinema, teatro…”, disseram quase em uníssono.

O espetáculo programado foi “Uma de duas – A vida comum de LucyLady”, produção cearense que, pela primeira vez, chegou a Pernambuco. Se o sacrifício de espera tão antecipada pelos ingressos valeu a pena, você confere ao final desta matéria. Tratemos antes da montagem escolhida. Com texto de Rafael Martins, a peça discorre sobre duas irmãs siamesas que possuem um único corpo e duas cabeças, numa metáfora para tratar sobre singularidades e diferenças. A opção do diretor Yuri Yamamoto foi convidar um ator e uma atriz para viverem as personagens, Ricardo Tabosa (Lucy) e Christiane de Lavor (Lady). É impressionante o trabalho de corpo desenvolvido pelos dois com a ajuda do preparador corporal Fauller.

Colados um ao outro o tempo inteiro, conseguem andar, sentar, movimentar os braços com tamanha destreza que nos dá a sensação de serem realmente uma única pessoa, graças também ao figurino negro e à luz bem marcada, que cria um clima nebuloso entre o claro – repleto de sombreados – e o escuro, com focos que valorizam o não revelar por completo do truque. O cenário, também preto, é formado por uma estrutura em ferro com portas e janelas em encaixe, manipuladas pelos dois atores e por um contrarregra, Ari Areia, que passa para recolher e entregar os materiais que as irmãs usam no dia a dia – bancos, mesas, bolsas, telefones – e também contracena como personagens sem fala.

Por vezes, a cena lembra um estranho desenho animado – e aqui vale registrar que tanto Rafael, o autor, quanto Yuri, o diretor, têm paixão por esta linguagem, já aproveitada em outros espetáculos seus – com referências ao teatro do absurdo e filmes noir. No enredo, as duas irmãs – numa aparição inicial sarcástica ao som de “Over the rainbow” –, já que se encontram inevitavelmente juntas para sempre, decidem ficar ainda mais unidas numa noite de réveillon. Programam mil novidades para o próximo ano, mas começam com o pé esquerdo, pois estão desempregadas. A solução é procurar um trabalho que contemple pagamento duplo, o que é difícil.

Grande público à espera de assistir ao espetáculo (Foto: Renata Pires)

Grande público à espera de assistir ao espetáculo (Foto: Renata Pires)

O único jeito, mesmo contrariadas, é aceitar o emprego numa central de atendimento. O problema é que elas são impacientes, nada solícitas e perdem facilmente o controle emocional. E a ideia, claro, não dá certo. Com constantes trechos narrados, a obra vai mostrando o quanto as duas irmãs são ardilosas, cheias de inveja uma da outra, com amarguras e questões mal resolvidas, principalmente quando uma delas arranja um namorado e quer sair para jantar fora e… fazer sexo. A peça vai apresentando um crescente de problemas para a convivência da dupla – com trocas de farpas que fazem a plateia se divertir a valer – mas, ao final, ainda vale a máxima de que tudo vai melhorar, principalmente se estiverem juntas mais do que antes, e novas promessas de mudanças começam a ser programadas…

Quanto aos dois amigos do início desta matéria: “Valeu a pena ter esperado na fila porque esta peça diverte, mas também leva a uma reflexão. Você se vê no diálogo destas irmãs porque, mesmo elas sendo diferentes, no fundo têm problemas iguais a todo o mundo”, disse Dielson. “Um momento interessante foi quando uma delas ligou para o SAC reclamando da vida. E, de fato, a gente reclama de tudo e todo o mundo quer fazer isso que ela fez: resolver a vida”, complementou Lucíola, ressaltando, assim como seu parceiro de FIG, a qualidade do texto e o trabalho dos intérpretes com a dificuldade física de estarem tão juntos em cena. Pelo visto, foi uma noite bem aproveitada para essa dupla e para toda a plateia restante, que aplaudiu com gosto.

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