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Festival de Inverno

A tradição viva de um verdadeiro patrimônio

Patrimônio Vivo de Pernambuco, a Associação Musical Euterpina de Timbaúba chamou a atenção do público durante cortejo no Parque Euclides Dourado

Marcelo Soares/Secult-PE

por Leonardo Vila Nova

Viver de arte não é nada fácil. Exige determinação, vontade, empenho, um tanto de trabalho, além daquele pré-requisito básico: ter o dom, a dádiva. Imagine só sustentar e manter firme e vivo um projeto musical com 86 anos de existência? Exige, sim, muita vida pra dar… muita vida pra firmar o desejo imanente de perpetuação também da arte daqueles que vieram antes e deixaram o legado pras gerações vindouras, as de hoje e as de amanhã. A Associação Musical Euterpina de Timbaúba, hoje Patrimônio Vivo de Pernambuco (título conferido em 2012), representa bem isso. Neste 24º Festival de Inverno de Garanhuns, o grupo rodeou-se de gente em volta de si, durante seu cortejo e apresentação no Parque Euclides Dourado, na última quarta (23), para mostrar porque continua tão viva.

Era fim de tarde e o grupo – apenas parte dele, 29 integrantes, na verdade, uma vez que os empregos “convencionais” não permitiram ausência, mesmo que temporária, dos demais – seguiu em um cortejo rápido pelo Euclides Dourado. Rápido, mas o suficiente para chamar a atenção de algumas pessoas em volta, que a acompanharam até o Espaço Mamulengo e Pontos de Cultura, dentro do parque, para assistir à sua apresentação, se acomodando nas cadeiras dispostas no local. “O artista precisa do público. Por mais que ele ganhe milhões, o que vai dar a ele aquela satisfação é a presença do público, prestigiando-o”, disse o presidente da Euterpina, Eder Gomes da Costa, que se dizia surpreso, pois não imaginava que, num dia de semana, em horário comercial, haveria público para a apresentação.

Marcelo Soares/Secult-PE

Pois havia. Muitas pessoas acompanharam atentamente ao espetáculo da filarmônica – termo que foi didaticamente explicado pelo maestro Josivânio Rique de Lima, ao lembrar que a filarmônica, fundamentalmente, se difere por ser uma banda de música civil, não militar, cuja expressão é uma corruptela de “fila harmônica”. Era uma fila de músicos que tocavam dobrados e marchinhas, o que veio a se tornar o frevo, e que se espremiam para tentar passar pelas ruas quando o público se avolumava cada vez mais em volta dela.

A Euterpina de Timbaúba é uma autêntica representação do que resiste em meio à volubilidade, descartabilidade que assola parte da produção musical contemporânea. A falta de recursos financeiros chegou a abatê-la, em 1962. Mas, em 1989, ela retoma sua atividades, recuperando parte dos instrumentos já desgastados com o tempo. Reerguendo-se como uma ave fênix, ela volta a trabalhar com jovens, na sua formação musical, introduzindo em teoria e prática. O repertório, escolhido a dedo, foi apresentado ontem e, parte dele, já demonstra a natureza do grupo, que consegue unir tradição local a temas mais pop e contemporâneos. No Parque Euclides Dourado eles foram de “African Simphony”, de Van McCoy, a “In the mood”, de Glenn Miller, passando por “A praieira”, de Chico Science, “Maracatu”, de Alceu Valença, além de um pout-pourri de músicas de Roberto Carlos, Tim Maia e um pot-pourri de mambos.

Marcelo Soares/Secult-PE

Com um breve momento de chuva que caiu durante a apresentação, em meio ao público que já se avolumava, o que poderia dispersá-lo, acabou aproximando-o ainda mais dos músicos da Euterpina. As pessoas procuraram, justamente, se abrigar embaixo do toldo que protegia o grupo. Tudo para não perder a apresentação. Alguns bem empolgados com o que viam/ouviam. Foi o caso de Alzira Oliveira, teóloga e professora de arte, que cantarolava as músicas executadas. “É a primeira vez que os vejo. Amei o trabalho e o empenho desses jovens. E, realmente, a música, a arte é uma forma de expressão das mais humanas e é importante que se tenha esse brilho no olhar, para transmitir tanta beleza”, disse ela, ao final da apresentação.

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